ESCRITURAS

Eu sou é bem pequenininha,
moro num morro de areia,
a minha rede balanceia.
Eu sou pequenininha de mamãe,
moro num morro de areia.”
(A Barca)



Refletindo nesse “Dia Internacional do Yoga”, relembrei dessa canção de encantaria do grupo A Barca. É mais ou menos desse jeito que me sinto desde que essa arte fez-se presente no estradar e eu pude alcançá-la há alguns anos, atravessando as fronteiras sociais que ainda rondam o acesso ao Yoga. E, nele estradando, balançamento e reequilibrando, pequenininha vou descamando o existir, a beleza do não-saber e do (re)descobrir-se. É além das escrituras, é além de gurus, é além do tapetinho (sem negar nenhum deles). É vida vivida.



YOGA

(In)voluindo,
vamos indo.
Sem almejar falsas evoluções,
falas mansas obrigatórias
ou poderes mágicos,
atingíveis para poucos.
É mais sobre o simples,
sobre o que nutre o invisível
orbitante à pele.
É sobre deixar-se ser outono
para viver o fim sem fim,
o caminho no caminho,
o “novo de novo”,
todo dia.

Quem sabe,
(in)voluindo,
os jogos de dentro
nos relembrarão
o compasso
da grande roda
do mundo.
Do passo à pele,
da pele ao corpo,
do corpo ao sopro,
do sopro à razão,
que jamais desabraçou
a matriz do som da alma.

Quem sabe,
(in)voluindo,
alcancemos a sabença
dos filósofos anônimos,
aqueles que,
por vezes,
damos a sorte de encontrar
por veredas, sertões
e esquinas.
Ou do Yoga da Ação,
onde Vandanas,
e outras mulheres selvagens,
não separam o céu da terra
em seus religares.

Yoga é sobre pés nus
sobre a terra.
É mais,
é muito mais
sobre chão.

Junho de 2020

ESCRITURAS

Breve cartografia narrativa de Taguá

.
62 anos de Tawá Tingá. Barro branco sobre terra vermelha cerratense acobertada de asfalto. A cidade onde nasci é mais jovem que meus avós. Ando pelo mundo sempre lembrando do que Taguá e sua ciganagem me ensinam. E entre seus muitos cantinhos babilônicos, quem não se lembrará do eterno e sempre vivo Lambe-lambe 3 x 4 da Praça do Relógio. Parece até que tá lá desde antes de JK inventar sua grande coisa, debaixo do céu aberto desse Sertão do Brasil Central.

Taguá é assim, além do tempo linear dos planos pilotos. Revolucionária desde que nasceu, com suas manifestações populares de lavadeiras e trabalhadores que construíram muito mais que a capital. Celebrar Taguá é celebrar liberdades. É dançar o meio do caminho, onde tudo acontece. É viver nossas praças, feiras itinerantes e suas gentes. É relembrar nossos extintos cinemas de rua exorcizados a assassinados. Cine Lara, Cine Paranoá, Praça do D.I, do Bicalho, CNF, Dimas, Matias, Facita. Vai lá na J, na L ou na M. Também tem praça, trapaças e samambaias penduradas perto do portão. Se os bancos da Pracinha da 30 na J falassem, eu tava no sal. Anos 2000… onde o rock’n roll ainda era escola.

Penso que se desse, tudo seria na praça ou da praça em Taguá. Até Teatro da Praça tem. Será que ainda tem? A gente nunca sabe se ele tá funcionando… Mas segue resistindo desde que Rola Pedra e Caixa D’água ainda viviam entre nós, abrigando legiões urbanas fugidas ou expulsas de Bras-ilha. Machado de Assis faz morada ali na biblioteca do teatro, onde também tem CEMEIT, Festival Taguatinga de Cinema, Biblio Braile, Academia Taguatinguense de Letras e Sahaja Yoga vez em quando. É… Taguá também tem seus imortais e suas transcendências.

E o que falar da Avenida Hélio Prates, cortando aquela selva urbana inimaginável que conecta o finzinho do jovem Taguaparque, a Flona, Taguacenter, Feira dos Goianos, G, H, I, Cemitério e Cei. Dobra pra esquerda, tem o Parque do Cortado. Matei muita aula lá. Mais adiante, Saburo Onoyama e Kireibara, santuários verdes nipônicos que abriram trilha pro Sítio Geranium e suas santas agroflorestas. Que Oxum abençoe nosso Córrego Taguatinga!

Fazendo cruz, tem Via Estádio, ao lado da rodoviária onde eu comprava Tele Sena pra minha vó. A rodô original sumiu, foi enterrada pelo gigante complexo de prédios do Buritinga, novo Palácio do Buriti nunca inaugurado, ocupado de vento e dúvidas obscuras. E a rodô temporária segue sendo temporariamente permanente e pequena demais pra ciganagem taguatinguense, goiana, mineira, nordestina, sudestina, nortista, brasileira.

É por ali mesmo onde começa a Chaparral, fronteira estigmatizada por quem não sabe o que diz. Cresci lá até os 5 de idade, entre Taguá e Cei, ouvindo RAPs e com direito a foto em cima do burrinho pintado de preto e branco. Ninguém poderá dizer que não tem zebra por aqui. Passa dos dedos do corpo o tanto de casa que meu vô construiu na Chapa. Seu Mané da 14. Só perguntar por ele, que todos lembrarão com saudade.

Seguindo dali mesmo, pertinho do Metrô, ou você desemboca no centro de Taguá e toda sua zona, ou você de novo vai parar na Cei. É que Taguatinga, Ceilândia e Samambaia são irmãs do mesmo ventre de sonhos, onde retirantes e mambembes fizeram morada pra construir suas liberdades, ainda que o plano não fosse esse. Me fiz gente nelas três, batendo pernas incansáveis por Taguatinga, com aquela sempre breve e irresistível parada no Alameda Shopping pra fazer xixi. Quem nunca?

Mas se lá da Via Estádio, em vez de seguir pra Cei, você cruzar a ponte, tem mais veia aberta nas Avenidas Primavera e Boca da Mata, unindo as mãos de Taguá e Samamba numa ciranda sem fim. É por elas que você chega na Sul, onde um tal Beco da Cultura faz qualquer fascista chupar o dedo ou abrir o coração. Santo Beco, Mercado Sul de “antenas sempre ligadas na frequência dos malucos”, como diz Mestre Virgílio. Mas, como ser normal nunca foi o nosso plano piloto: 62 vivas para o Beco e seus tijolos Athos Bulcão extraviados. 62 vivas para seus mamulengos, cocos, capoeiras, teatros, artesanatos e vidas.

E é só falar em Beco que o novelo vai desenrolando… 62 vivas pra Semana de Arte e Cultura de Taguatinga, Ponto de Cultura Invenção Brasileira, Tribos das Artes, Motirô, Mamãe Taguá, Bar do Careca, Cervejaria Caixa D’Água, Butiquim Blues, Blues Pub, Tucanos Bar, Clube dos 200, Galeria Olho de Águia, Batalhão das Artes…

Não é só o famoso comércio e os múltiplos serviços que fazem Taguá pulsar, engarrafar e costurar vidas. Arte e revolução são o prana e a saúde dessa cidade metropolitanamente subversiva. É como digo em um poema: “A cidade, ainda que cinza, é feita de gente que se transforma…”

5 de junho de 2020, lua cheia em sagitário com eclipse

ESCRITURAS

Às que recebem a luz

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A qualquer hora
Elas ouvem o chamado
Caminhando lado a lado
Com a fé e a coragem
Altar firmado
Em rezo e com ciência
Recebem com paciência
Almas que pedem passagem

São feiticeiras
Curandeiras dos agoras
Cuidadoras das auroras
E das noites de acolhida
Filhas da Lua
Cientistas da intuição
Presença que dá a mão
À mulher que gera a vida

Son las comadres
Que renovam a linhagem
De toda mulher selvagem
Que não teme a escuridão
Pois quando a luz
Abre o mistério do mundo
Até o medo mais profundo
Se rompe na criação

Sabedoria
Em sentir bem o limite
Que a natureza permite
À história de cada ser
Da Mãe Antiga
Recebem essa ‘sabença’
E com ela dão a ‘bença’
A quem vem aqui viver

São professoras
Que estudam a natureza
E aprendem com inteireza
Sobre a morte que é nascer
Que sigam fortes
Partejando a própria vida
Com a alma destemida
E a mestria a florescer.

Maio / 2020


Com elas, aprendo que viver e morrer é uma mesma nota, em diferentes tons. É o mesmo OM, expandindo e contraindo, desavessando o mapa antigo da existência. Com elas, aprendo sobre coragem, confiança, magia, ciência e concentração. Aprendo que perfeito é tudo o que é feito com o coração. Aprendo sobre encarar desafios e aceitar quando se sabe que não se dá conta. Aprendo sobre humildade e sobre a umidade de ser água, mesmo quando terra, fogo, ar e éter também são.

Sou cercada por elas há alguns anos, não sei se por acaso do destino ou das memórias que vou parindo aos poucos. Mas sei que esse cordão umbilical me atravessa, de algum jeito.

ESCRITURAS

Hiato

Tomada de lonjuras
Fui lambida por silêncios
Sucumbindo essa errância
De ter sempre o que dizer

E, ainda que eu diga,
Insiste um silêncio nu
No hiato das palavras
Escondidas do querer

Eu bem queria
Mas prefiro a poesia
Que não tem despertador

Dessas que, bem cedo,
Te acordam pelo peito
Pra despetalar a dor.

Abril / 2020

Foto: @marianacvcabral

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ESCRITURAS

Lançamento: Oráculo Poético

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A poesia é um céu aberto de conexões e liberdade, uma linguagem atemporal conectada com a mente, a alma e o corpo por inteiro. Para mim, um caminho de autocura. Atendendo a uma vontade antiga aqui do peito e a pedidos de leitores, nasce o Oráculo Poético, nova publicação autoral e independente, com arte gráfica da parceira ilustradora Nara Oliveira.

No Oráculo Poético, você encontra uma guiança simples para nutrir os seus dias com palavras mensageiras, poesias recebidas no chão de saberes ancestrais e em caminhos onde sagrados são desaversados. Os versos selecionados integram alguns poemas já publicados e outros inéditos, que ganharam o formato de carta para você consultar quando quiser.

O Oráculo é composto por:

  • 28 cartas poéticas
  • 1 carta adesiva ilustrada
  • 1 folder de apresentação
  • 1 caixinha para acolher as cartas
  • 1 saquinho de organza para você carregar a caixinha protegida

E porque não tem livro de apoio?
Porque a poesia é livre e diversa em significados. Não há leitura pré-definida de cada carta. É para sentir, interagindo os versos que você tirar com a sua própria poesia interna. O sentido quem dá é você.

Como funciona?
Simples! Você embaralha as cartas, silencia, respira, sintoniza com uma intenção e tira uma carta que trará uma mensagem poética para o seu dia.

Venda aberta para todo o Brasil. Compras coletivas com desconto.
Entre em contato pelo keyane.aflora@gmail.com, pelo fone 61 9.8575.8500 ou pelo insta @keyanedias.

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ESCRITURAS

Palavras Mensageiras – novo cordel

Salve, gente!

Pouco antes de entrarmos em quarentena global, finalizei o feitio de mais um livreto de literatura de cordel, o Palavras Mensageiras. Como não podemos nos encontrar presencialmente até tudo isso passar (pra cuidar da gente e do próximo), senti de fazer o lançamento virtual e disponibilizar o PDF aqui, na íntegra.

O livreto tem licença Creative Commons, portanto, fica à vontade para ler, repassar o link, baixar, imprimir e multiplicar o cordel por aí, sempre respeitando a ideia de manter a autoria do que for divulgado. É pra gente!

Em Palavras Mensageiras, sentimentos e indagações humanas, femininos, manifestos e sagrados são versados em martelo agalopado, métrica da poesia popular criada por cantadores repentistas e cordelistas do Nordeste brasileiro.

Ilustração de capa: Nara Oliveira.

Clique na imagem para fazer o download

ESCRITURAS

Altar

Acenderei mil velas
Firmarei meu ponto
Antes que o pranto
Dos desassossegos vis
Afogue meu rezo
Naquilo que não é meu

Quase nada é meu
Tão pouco seu
A não ser o rezo
O gozo do presente
E aquela intuição
Que dentro se sente

Por isso, acendo velas
Pra iluminar o canto
Do avesso das certezas
Que o tempo engoliu

E louvo
No altar do agora
A Santa Simplicidade
Que sempre nos sorriu

Janeiro / 2020

Ilustração: @lunarlilt