DESAVERSOS (POESIAS)

, presentes!

Nenhuma a menos
É um grito necessário
Olha no noticiário
Ainda ousam nos matar
Pois gritaremos
E nem chame de exagero
O machismo é um vespeiro
Mas você vai escutar

O nosso canto
Nossa força, nosso grito
Nossa luta, nossos ritos
Até depois disso acabar
Nós despertamos
O silêncio foi quebrado
E os direitos conquistados
São passos do caminhar

Continuamos
Por todas e pela vida
Por Magô e Margarida
Por Mariele, presente
Transformaremos
Nossa dor em rebeldia
Até que a covardia
Sussurre longe: ausente.

Key Dias
Janeiro/2020


Maria da Glória Poltronieri (Magô) foi assassinada no dia 26 de janeiro de 2020, em Maringá (PR). Foi vítima de feminicídio em um momento de rito e de conexão da sua alma com a natureza. Infelizmente, mulheres ainda são violentadas todos os dias. Não conheci Magô, mas falo dela aqui pela proximidade com a Capoeira e amigos em comum. Por ela e por todas, em todos os cantos do mundo, cantamos, poetizamos, rezamos, pintamos e gritamos: #paremdenosmatar.

Arte: Gabriela Tornai
DESAVERSOS (POESIAS)

Lar

Saúde mesmo é ter amor
Dentro
Fora
E lá, onde ninguém vê

E quando a doença
Em ti aparecer
Convoque a presença
Que sustenta teu ser

Pois doença é desatino
Esquessência de si
É o afastamento
De onde a alma quer ir

Mas se tu bem olhar
Sem pressa e sem medo
Verá que a doença
Sempre conta um segredo

Escuta, aceita
E deixa ela ir
Aprendendo a lembrar
De cuidar bem de si

E celebra
A ciência da tua vida
Pois saúde é ser amor
E, com ele, não há partida.

Key Dias
Índia – Fevereiro/2019

DESAVERSOS (POESIAS)

Flor

(No espelho d’água,
o céu deita sobre a lótus)

 Quanto de amor
Habita na flor
Que só desabrocha
Sem nada a temer

E o mesmo amor
Que alumia a dor
De quem vê a luz
Onde ninguém vê

Será que esse amor
Que sustenta a flor
Sabe que a dor
Já me fez crescer?

Ou será que a dor
Transcendida em flor
Casou-se com o amor
E fez tudo nascer?

Key Dias
Índia – Fevereiro/2019

DESAVERSOS (POESIAS)

Respiros

Renove
O que te move
Pra fazer da presença
Estrada livre a percorrer
E ainda que queiras
Viver sempre o mesmo
Repare que tu mesmo
Não é o mesmo que achou ser

Imagem: Pinterest

Recria
O que te inspira
Pra fazer da beleza
A simplicidade do teu ser
E ainda que insista
Em ver a vida com dureza
Repare que a beleza
É maior que o que se vê

Celebra
A tua entrega
E faz da confiança
A linguagem do viver
E ainda que a descrença
Apareça ao meio-dia
Repare que a alegria
Sempre espera por você

Key Dias
Índia — Fevereiro/2019

Sem categoria

Andarina (Livro Travessias)

“Pra sempre é sempre boa hora
No breu da noite, no clarão da aurora
Se a estrada convida a senhora
Cantando essa canção estradeira
Pra comemorar a passagem
De uma alegria derradeira…”
(“Luzia” – Ozuê)

Entre vãos e veredas do Cerrado, conheci Dona Alma, cantando batuque em festejo no sertão. Seus olhos, repuxados e verdes feito rio, contrastavam com a pele preta acobreada do sol rebatido da areia branca. Parecia espelho vivo da miscigenação brasileira que corre em minhas veias. Nos seus olhos, via minhas avós, minha mãe, minhas antepassadas que ninguém sabe dizer quem são. Todos ali, andarinas.

Ilustração: Nara Oliveira

Fui atrás de sua história. Me contaram. Nem por distância, nem por necessidade, Dona Alma era uma andante porque o caminhar era seu lugar de poder. Ainda que a casa lhe demandasse trabalho ou a descendência quisesse colo, sempre, todo dia, arranjava tempo de travessear. Cumpria tudo que a moralidade normatizava para uma senhora camponesa e, ainda assim, seguia. Nem patrão ou marido a fizeram parar. Nasceu para o mundo!

Caminhando, sorria na liberdade do encontro, seja com bicho, com planta ou com gente. Só o tempo de seus mais de 80 anos haverá de saber o que presenciou nas procissões diárias que a nutrem de vida. Vinte filhos, tantos netos. Havia quem jurasse que era cigana. Pudera! Colorida e cantante, andava, andava e cantava. Mas sempre voltava para casa na hora que lhe cabia certa. Seu caminhar, misturado com dança, parecia trupé de criança saltitando pelas capoeiras da mata. Batia caixa em dia de Folia e nunca lhe faltava cantiga nova pra versar…


Trecho da prosa poética “Andarina”, disponível no livro Travessias: poesias e prosas no chão das tradições.

Este projeto foi realizado com recursos do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal (FAC-DF) e publicado através de financiamento coletivo pelo site Benfeitoria.