Calçadas literárias

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Desde as minhas andanças juvenis do tempo em que eu matava aula, havia um livro no meio do caminho. E antes mesmo de eu andar por ali, as calçadas do Teatro da Praça de Taguatinga já serviam de prateleiras literárias.

(Por Key Dias, escrita em 05.09.11.
Fotos: Gabryelle Gadêlha
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Oito anos depois do primeiro exemplar vendido, cerca de 300 pessoas passam todos os dias pelo sebo de rua mais antigo e tradicional de Taguatinga (DF). Ao lado do Complexo Cultural Teatro da Praça, onde está a Biblioteca Pública Machado de Assis, o baiano José Everaldo da Silva abastece todos os dias uma kombi com parte das centenas de livros usados que possui. Por lá tem de tudo, da filosofia de Nietzsche a apostilas para concursos, de livros cabalísticos a didáticos, bestsellers adolescentes, quadrinhos, Machado de Assis, Cecília Meireles, Garcia Márquez, entre outros.

“O ditado diz que brasileiro não lê, mas eu contesto isso todo dia”, comenta Everaldo ao ressaltar a diversidade de pessoas que atende diariamente. Poucos minutos por perto é suficiente para comprovar que a rotatividade de compradores e curiosos não para, assim como os títulos que são trocados e vendidos, com preços a partir de R$ 1. “Tenho clientes antigos que vêm aqui toda semana ver as novidades. O ‘livro de rua’ atrai as pessoas muito mais que os de loja”.

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Alessandra dos Santos, companheira de Everaldo, conta que aprendeu a gostar da leitura quando conheceu a história da kombi. Ela, que também ajuda nas vendas e na organização, acredita que o sucesso do sebo tem outro motivo: “Os principais clientes da casa são os solitários. Tem cada história incrível de pessoas que passam aqui. Já até chorei com algumas. Os livros falam pra elas o que ninguém mais fala.”

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Há dois meses, bons ventos sopraram. Everaldo comprou mais uma kombi e abriu a primeira “filial”, estacionada próximo ao Alameda Shopping, em Taguatinga Sul. Às seis da manhã ele acorda e reveza a montagem dos dois locais, antes da chegada das funcionárias que contratou para cada um.

Além dos pontos de venda de Everaldo, outros sebos de rua apareceram na cidade. Fato que não diminui a clientela que continua grande, principalmente na kombi precursora ao lado do Teatro. A única coisa que falta agora é a legalização por parte da Administração da cidade. “Consegui uma licença temporária, mas quando vou renovar é sempre uma burocracia”, desabafa.

Com a renda desse trabalho, Everaldo já comprou um lote em Vicente Pires e conseguiu trazer quatro irmãos da Bahia para o DF. Por um lado o ganho pessoal e, por outro, o ganho coletivo de leitores que pagam pouco para ter acesso ao que custaria caro em muitas livrarias.

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Capítulo I

Antes de se tornar um semeador urbano da leitura, Everaldo passou um período de desassossego em Icaraí, no Sul da Bahia. No fluxo da migração, foi em busca de oportunidades em São Paulo e no Rio de Janeiro, período em que viveu como morador de rua e catador de papel. “Perdi tudo com o vício no jogo”, conta. De volta à Bahia, seguiu o conselho de alguém que conhecia a geografia da Capital Federal. “Um amigo me disse que o melhor lugar para catar papel era em Brasília, porque aqui não tem ladeiras”, lembra ele.

E foi entre o que é descartado, principalmente nos pomposos lixos domésticos do Plano Piloto, que ele percebeu a enorme quantidade de livros desperdiçados. Depois de deixar as ruas e passar pelo temido albergue do Areal, ele conseguiu espaço em um ferro velho em Taguatinga Sul, local onde construiu um barraco improvisado para abrigar a si mesmo e aos livros. Mas uma daquelas paixões súbitas, e não correspondida, fez o baiano decidir retornar para a terra natal.

“Comecei a trabalhar de camelô e fui vendendo tudo que eu tinha pra voltar. Um dia, sentado no colchão que ainda me restava, olhei para os livros e resolvi me desfazer deles também”. Na época ainda expostos ao lado da parada de ônibus do Teatro, os livros foram chamando mais atenção que as demais mercadorias e se tornaram os itens mais procurados. Foi quando ficou dois anos sem trabalhar, período em que o ex-governador Arruda retirou os camelôs da cidade, que a ideia de utilizar uma kombi surgiu, firmando de vez a presença do ‘livro de rua’ no caminho de quem transita pelo centro de Taguatinga.

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…Ainda no tempo em que os livros de Everaldo eram expostos somente nas calçadas, comprei dois títulos que integram minha humilde biblioteca: Machenka, do Nabokov; e O mundo Louco, de Kurt Vonnegut. Os dois me custaram na época exatamente o que meu bolso de adolescente podia pagar: R$ 5. Não se apaga da memória.
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