A gente nasceu pra dar certo

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Faz bem pouco tempo, ouvi de uma mulher: “A gente nasceu pra dar certo”. Na hora, foi daqueles momentos catárticos, que duram uns três segundos, mas que no pensar são como longas veredas de entendimento. “A gente nasceu pra dar certo…”. Acredito nisso! Mas antes de acreditar fiquei me indagando o que é “dar certo”. No meu pensativo achismo, percebi que “dar certo” tem a ver com a potencialidade individual do que cada um de nós é.

“Dar certo” não se explica em um formato, em um padrão bem sucedido de vida. Dar certo mora na autoconsciência de cada um. Na saúde do pensar e do agir que cada história de vida possa e precisa ter. Parece piegas, que seja! Mas pra gente “dar certo” é preciso se autoconhecer, de variadas e práticas maneiras.  Isso é uma pieguice experimentada!! E essa visão mora bem longe da vida mecanizada que nos distancia de nós e do outro. Nessas modernas simulações do que é ser humano, a gente continua nascendo pra dar certo, mas vive pra dar errado.

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Para os guarani, por exemplo, “cada ser que nasce trará seu tom”, cada um que vem “dá assento a uma palavra-alma” (trechos do livro Tupã Tenondé – a criação do universo, da terra e do homem segundo a tradição guarani, de Kaká Werá). A morada terrena é a sintonia desses tons, dessas vibrações que se expadem, que são uma só. Quando olho para tradição, para os saberes ancestrais, vejo muito sentido nesse “dar certo”, nessa percepção de olhar pra dentro, de entender a missão, o caminho. De fato, e são muitos fatos, a sociedade baseada no consumo e na competição criou caminhos que não são nossos, caminhos que levam a despenhadeiros. Dar errado passa por aí.

Já dizia Padrinho Sebastião, nos hinários de Daime lá pelas bandas do Acre: “Segue sempre o teu caminho, deixa quem quiser falar, recebe a tua luz de cristal, te firma e te compõe em teu lugar”.  Mais uma vez a tradição sinaliza o autoconhecer. Mas pra nós, seres viventes na modernidade das cidades apressadas, nos resta reiventar as formas de por em prática os ensinos ancestrais sobre ser quem somos. A livre manifestação individual do nosso ser é o que forma um coletivo saudável, é o que forma as comum-unidades que nos fortalecem, que nos ajudam a dar certo.


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