Quando Saturno retorna #1: deixa morrer

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Aprender a viver exige viver. Você vive? Andei pensando muito sobre isso e me dei conta de vários momentos em que vivi sem viver simplesmente por resistir morrer. É isso mesmo! Quem vive morre. E não é de desencarne que estou falando. Quem vive morre várias vezes.

Sabe aquela casca velha que pesa nos ombros? Sabe aquela antiga mágoa que arde no estômago? Sabe aquela pessoa que você não é mais, mas que todos à volta ainda te tratam como se fosse? Ou até mesmo os belos momentos que vivemos ontem e que já não são os de hoje. Tudo isso são só algumas partes de nós que precisam morrer. Sempre!!

Nosso eu aprendiz, em processo de rememorar sua completude, precisa viver sua própria renovação. Amanhecer Sol, adormecer Lua. E às vezes amanhecer Lua e adormecer Sol, por quê não? Tem dias que tudo vira do avesso mesmo.

Morrer inclui integrar as polaridades, deixar ir, perdoar (primeiramente a si), aceitar, confrontar o medo, desapegar, recomeçar, transcender, podar, transmutar, sublimar… incessantemente. Morrer é reconhecer erros e acertos como degraus que levam cada vez mais perto à essência de si. E saber que novos erros e novos acertos são necessários. Dê boas-vindas!

Para quem não aprendeu isso de berço, como eu, há que se trabalhar muito para aprender a morrer. Nossa sociedade, construída como foi, não nos ensina a equanimizar os processos naturais da vida. O que poderia ser um simples e necessário processo de “vida-morte-vida”, logo é taxado como depressão, síndrome, complexo…

Calma! Nomenclaturas do sistema são muito perigosas. Não precisamos nos apegar a elas. É claro que há casos e casos. Mas já vi muita gente se afundar por engolir conceitos cruéis que nos engaiolam. É a era de se libertar! É chegada a hora de confiar e aceitar a impermanência da vida. Se até carros, bicicletas e outras máquinas precisam de renovação, quem dirá nós, seres orgânicos, com corpo, com mente, com alma, com as águas das emoções. Confiemos!

Aos 28, depois de muito ler e ouvir falar sobre isso, resolvi viver, viver mesmo. Resolvi aprender a morrer. Saturno também veio ajudar! Meu próprio corpo, com sua generosa autorregulação, me ensinou que se eu não morrer, ele morre para mim. Então, se tá pifando por aí também, deixa pifar. Limpa, desavessa, queima, morre. Se joga no rio das velharias, mergulha e renasce no mar infinito de possibilidades para quem sabe viver.

Se a revisão passou da hora, o processo de morte pode demorar um pouco. Sem problema, a melhor revisão de você quem faz é você mesmo. Uma ajuda é bem-vinda, um amigo, um conforto, um terapeuta. É sempre bom ter colo, inspiração. Mas é preciso andar com as próprias pernas! “Levanta e anda, a tua fé te curou”, já dizia um mestre caminhante que semeou o Amor.

Morrer é amadurecer. É amar a duração de ser e todas as suas nuances. E ninguém pode te dizer como amadurecer, muito menos te dar o mapa do caminho ou o tempo determinado. “Um dia você vai saber”, “quando eu tinha a sua idade”… Perdão, mas quando você tinha a minha idade, ainda não tinha vivido os anos seguintes que nos trouxeram até aqui. A gente precisa amadurecer sempre, em qualquer momento dessa encarnação, de acordo com a história de vidas e o tempo de cada um.

Morra, morra bem! Quanto melhor forem as mortes que se apresentam, melhor será o renascer, melhor será o viver. Viva a morte, viva a vida. Amadureça para você mesmo. O mundo lhe agradecerá de formas inimagináveis.

Ilustração: autoria desconhecida

Mas, se você já aprendeu alguma coisa sobre morrer, não precisa mais deixar pifar né… Continue a trabalhar junto com a vida, essa vida que nos traz todas as ferramentas da autorregulagem orgânica de ser humano. Viver é um estar disponível às incertezas, aos erros, aos desafios. Da mesma forma é estar disponível às deliciosas surpresas que pedem uma atitude essencial: coragem!

Um exemplo clichê, mas sempre bem-vindo, é o povo planta. Lembre-se: as plantas são seres vivos! Seres vivos que são mestres em saber morrer. O fruto amadurecido despenca, a flor despetala, as folhas caem ao chão… a planta morre. E tudo que era parte de sua velha composição aduba a terra onde sua própria raiz se firma e se fortalece. Tudo que era parte de sua velha composição alimenta e nutre a nova planta que se refaz para brilhar e semear com a floresta inteira.

A planta não rejeita seu passado que morreu. Ela apenas deixa morrer e se alimenta com o que morreu. O que morre sempre dá lugar e abre espaço para a nova vida, que logo mais terá de morrer também. E lembro mais uma vez: não é de desencarne que estou falando.

E já que o assunto é morte, não há como esquecer da mestra Clarissa Pinkola Estés, em Mulheres que correm com os lobos, sobre o mito da ‘Mulher Esqueleto’:

“O arquétipo da força da vida-morte-vida é extremamente mal compreendido em muitas culturas modernas. Algumas não entendem mais que A Morte é carinhosa e que a vida se renovará com seu auxílio. Em muitos folclores ela recebe uma atenção sensacionalista: diz-se que carrega uma grande foice para “ceifar” a vida dos que nada suspeitam, que beija suas vítimas e deixa cadáveres espalhados por onde passa, ou que ela os afoga e fica uivando noite adentro.

Em outras culturas, porém, como na do leste da Índia e na cultura maia, que têm maior cuidado com o ensino sobre a roda da vida e da morte, A Morte abraça os que já estão morrendo, abrandando sua dor e proporcionando alívio. Diz-se que ela vira o bebê no útero para a posição de cabeça para baixo a fim de que ele possa nascer. Diz-se que ela guia as mãos da parteira, que abre o caminho para o leite nos seios maternos e que ainda consola quem quer que esteja chorando sozinho. Em vez de criticá-la, quem a conhece em seu ciclo completo respeita sua generosidade e suas lições.

(…)

Grande parte do nosso conhecimento da natureza da vida-morte-vida é contaminado pelo nosso medo da morte. Portanto, nossa capacidade para acompanhar os ciclos da natureza da vida-morte-vida é muito frágil. Essas forças não “fazem” nada a nós. Elas não são ladrões que nos roubam aquilo que prezamos. Essa natureza não é um motorista irresponsável que destrói o que valorizamos e foge em alta velocidade.

Não, não, as forças da vida-morte-vida fazem parte da nossa própria natureza, como uma autoridade interna que sabe os passos, que conhece a dança da vida e da morte. Ela é composta pelas partes de nós mesmas que sabem quando algo pode nascer e quando ele deve morrer. Trata-se de um mestre profundo, se ao menos aprendermos seu ritmo. Rosario Castellanos, poeta e mística mexicana, escreve acerca da entrega ‘às forças’ que governam a vida e a morte:

….dadme la muerte que me falta…
…dá-me a morte que eu preciso…

Os poetas compreendem que não há nada de valor sem a morte. Sem a morte, não há lições; sem a morte não há o fundo escuro contra o qual o diamante cintila.”

Diz a sabedoria oriental que tudo começou no Om original… Desde lá, tudo se expande em sucessão. Toda a vida está em expansão, renovando-se, renascendo… Que saibamos, pois, morrer para viver, pois o Om primeiro ressoa em todos nós. Deixa ele passar. Deixa morrer e vive!!!

Key Dias — 13.03.17

 

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