Aprendendo a ser una e múltipla

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Sim!!!!!!!

Faço um monte de coisa, tenho múltiplas habilidades e já senti bastante o peso de achar que não deveria ser assim. Afinal, a deseducação escolar e o senso comum da sociedade pedem exatamente o contrário, como se a saga humana fosse sempre se autoformatar numa forma só, pra que os outros entendam o que você faz. Não deveria ser o contrário?

“Qual sua profissão, o que você faz?” Em geral, o mundo girava umas dez vezes no segundo em que eu pensava em como responder. Às vezes dizia isso, às vezes aquilo, a resposta mudava a depender do contexto. Nesse ano, então, num momento de transição e novos estudos, o mundo girava umas 20 vezes até eu responder.

Nenhum problema em quem sem encontra num fazer e se realiza assim. Que bom!!! Mas, isso não é regra, por mais que a normalidade da vida adulta tente dizer que sim. Por graças, a cada dia e a cada nova troca de experiências com gente da minha “banda”, vou percebendo que esse peso não é necessário e que posso ser tudo aquilo que sou sem esforço e sem culpa.

Aos poucos, me vem a clareza em compreender tudo o que faço e estudo, todos os ofícios, invenções, tradições, criações e fazeres que me nutrem. Afinal, cada coisinha que faço serve para alguma coisa. E, se as faço, é porque elas pulsam aqui em mim.

No espiral das compreensões que vem com o tempo e com o andar da idade, vou aprumando o eixo de entender que minha verdade una e interior se expressa na diversidade daquilo que minha mente criativa é capaz de realizar. Vou deixar ela brilhar e voar… Quem se incomodar, que se desacomode!

Sou poeta, escritora, trabalho como jornalista e produtora cultural. Faço massagem, pratico Capoeira Angola e Iyengar Yoga. Sou estudante de Ayurveda e faço formação de Hatha Yoga. Escrevi zines, cordel e ano que vem lanço um livro! Tenho um empreendimento de comunicação cultural, faço parte de um coletivo de educação em saúde, ando com gente de todo canto, credo, classe social, cor e gênero. Amo ir “pra Bahia passear” e amo o Nordeste, minhas raízes. Mas fui morar nas serras mineiras, depois de caminhar léguas pelo sertão mineiro, voltei pra Brasília e já logo quero partir. Canseira?? Nada, minina! Isso é só um trecho. Rs. E isso nunca me cansou, e sim me inspirou. O que me cansou mesmo e me impediu de prosperar foi achar que não poderia ser assim.

Antes do ano girar, minhas 29 voltas ao Sol giram me dizendo que sou filha do vento, sagitária, meu Mercúrio é exibido, minha Lua é ariana e tenho um Marte pegando fogo! Minha terra quer a brisa do meu vento. Minha água quer o calor do meu fogo. Só posso ser o que sou. E as crenças só podem ir embora!

Esse texto foi inspirado em todos os aprendizados desse ano de 2017 e foi escrito depois de um açaí terapêutico com alguns amigos de Taguatinga, minha terra natal, e depois de assistir a palestra da Rafaela Cappai, no TEDx, sobre multipotenciais. Maravilhosa indicação da mana Raissa Miah.

Simbora voar!!!

“Uma palavra só não é capaz de definir nem o que eu faço, nem o que eu sou. E o mundo? O mundo muitas vezes jogou na minha cara que eu sou mesmo uma inconstante e instável. Uma cabecinha confusa que reluta em seguir o curso natural das coisas: nasce, cresce, escolhe e morre. Pra gente como eu tá mais para nasce, cresce, experimenta, escolhe, descolhe, reescolhe, experimenta, experimenta, até que um dia morre.

Se eu me sinto como um canivete suíço, porque é que eu tenho que me comportar como uma tesoura sem ponta, que só corta papel? Tentar ser tesoura causa um sofrimento danado em gente como eu, que tem múltiplos interesses e milhões de habilidades, além de uma capacidade enorme de adaptação. Nós, os múltiplos potenciais, não temos medo de sair desbravando o mundo do aprender e do reaprender. E dói. Dói muito ter que abrir mão de uma dessas possibilidades. É como arrancar um braço e jogar um pouco de si no lixo…”

Aceito

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Pintura: Isabel Bryna

Tem um rasgo
onde engasgo meu peito
toda vez que me esqueço
que é preciso aceitar.
Aceitar
que por mais que eu invente,
que eu desista ou que eu tente
a dor sempre estará.

Pois a dor
que é da cor do invisível
é um sol disponível
querendo se mostrar.
É o parto,
a loucura, a serpente,
é humana, é poente,
é o rio quando é mar.

Keyane Dias — novembro/2017

Mútua

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Se quiseres de mim
apenas o suor quente
pra sua conveniência,
serei vapor d’água e chuva,
em meu próprio jardim.

Mas se quiseres de mim,
na mesma medida que eu,
o prazer do leito além da borda,
serei rio aberto e molhado
sem medo do fim.

No raso não me encaixo,
no raso não sei dizer:
sim.

Key Dias — Outubro de 2017

Ilustração – gif: James R. Eads

Olhos Cerrados

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Mais uma da gaveta. Sobre a seca que assusta nosso Cerrado, sobre os corações secos que secam o molhado… Sobre a resiliência, desafio cotidiano dos cerratenses, sejam eles povo planta, povo bicho, povo gente.

Foto: Mariana Cabral. Sertão cerrado de Minas Gerais

Do olho d’água,
a esperança,
veredas que geram
buritis a crescer.
São olhos abertos,
na busca de ver,
o sertão cerratense
a sobreviver.

Dos olhos cerrados,
a ignorância,
criando o fim
do que fingem não ver.
A monocultura
da falta de ser,
pois preferem aquilo
que chamam de ter.

Será que o olho d’água
não chora de dor,
por ver tanta mata
que já se acabou?

Ou será que a esperança
é quem não vai findar?
Pois os olhos cerrados
também podem chorar.

Key Dias — Janeiro de 2017

Crônicas de um Útero #2: Quando ouço a Intuição

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Pior que o julgo dos que subjugam uma mulher é o nosso próprio esquecimento da Intuição. Esse sopro perene de nitidez é nossa mais antiga arte feminina. É a voz sábia da Mãe ancestral que jamais será silenciada, é o lampejo assombrosamente instintivo e divino que aponta os caminhos e alerta perigos.

Nesse ciclo lunar de setembro, sincronizado com o Equinócio de Primavera, Navaratri e Lua Nova, algumas camadas desconhecidas do feminino afloraram. Camadas de águas que me conduziram à floresta onde encontrei a mão dessa velha amiga. De dentro, veio a Intuição me contar sobre não esquecer que ela sempre está lá, naquele lugar onde toda mulher sabe onde é. Sussurrosa, veio me falar sobre coragem.

É inato feita a Lua que reflete o Sol. Nosso ventre tem espaço, e a força que nos faz in-tu-ir continuamente é a mesma que rege a dança da natureza cíclica feminina, numa alquimia perfeita entre o mundo interno e o externo. É como se olhássemos as respostas e as perguntas certas nos olhos da nossa velha alma.

Assim, percebi desajustes criados pela minha própria teimosia em não assumir o que a Intuição vem me dizer. Assim, percebi o quanto é preciso coragem para andar de mãos dadas com ela, pois essa aliança interna revela insigths que pedirão atitudes concretas e quebras de padrões que vão gerar rompimentos e desmoronar o que precisa ser renovado. Nem sempre será um caminho fácil, mas, na floresta interior, desafios são nutritivos.

A lucidez intuitiva é espada e escudo, quando é preciso lutar. É semente e flor, quando é preciso plantar. É colo e palavra sã, quando é preciso compreender e auxiliar. Assumir a responsabilidade em ouvir e agir com a Intuição é nosso passo primeiro de coragem para um feminino maduro, para um caminhar com propósito. É assumir a si mesma, tendo a força de relacionar-se com o outro e com o mundo com instintiva integridade. É romper com o medo de não ser aceita por ser quem se é e sentir o que sente.

Para muitos, lampejos intuitivos vão soar como alucinações exageradas, “dramas de mulher”. Deixe-os julgar. Por vezes, munida de Amor, a Intuição nos pedirá para abrir mão do que está fora do lugar, mesmo que isso balance relações, o ambiente onde vivemos ou as nossas próprias convicções. Mas é ela mesma quem no diz de dentro: “Coragem!” A Intuição provoca o amoroso desapego que traz a real união, pois é tão livre quanto o voo que nos possibilita dar.

Deixar-se in-tu-ir é dar um salto quântico de dentro para fora, reconhecendo que o percurso que nos trouxe até aqui amalgamou em nós mesmas as pistas do caminho a trilhar. Quando uma mulher decide escutar sua intuição, mais um véu das vãs ilusões é descortinado na trama do mundo.

Keyane Dias — 25 de setembro de 2017


Mora dentro de mim uma velha

Por mais que o acaso fértil do destino
Me presenteie com jeitos de moça
É a velha quem canta, dança, cozinha, observa

Os segredos que ela guarda
Minha moça tão pouco conhece
Só às vezes
Em con[tato]
As duas se tocam pelo olhar
Em um jardim oculto e visceral

Se bem me lembro
Chamam isso de intuição

A velha mora dentro
A velha mora fora
Ela sempre quer sair

Até parir a si mesma
Totalmente
No despontar dos meus cabelos brancos.

 

Entrelinhamente

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Foto: Mariana Cabral. Sertão de Minas Gerais

Sou tão densa quanto a dor
e tão leve quanto o amor,
sou a entrelinha dos versos que pari.

E se o que sou se esconde de mim,
é farejando a palavra que me encontro
no silêncio que precede a poesia.

É a poesia nua feito o chão,
crua feita a água
e lua
feita a paixão que me seduz
para experimentar o gozo
da palavra vivida em verso.

A palavra me fez poeta
para psicografar as sutilezas
do que vivo no mundo.

Keyane Dias — Agosto/2017

Apuração

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Noite de transcendência no sertão de Minas Gerais – Foto: Paulo Morais

Repara!
Velhas convicções
despedaçaram-se
em um amplo renovo
que te aguarda a romper
a gaiola do medo.

É hora de despir o corpo original,
onde habita a alma intocada
que só você abraça
nas madrugadas em que a luz
descansa no teu sono.

Despidos e úmidos pelo sereno,
lágrima de amor ancestral
que regou a primeira flor,
avistamos nos saberes antigos
a renovação do velho padrão,
que não cabe em mais ninguém.

A valentia para abrir o peito,
apurar o olhar
e abraçar o irmão,
que segue esquecido
de que pode ser quem é,
é a urgência dos dias.

Keyane Dias — Setembro/2017

Alimento

O sabor da vida que pulsa vida
é temperado com doses de coragem
e punhados de entrega para nutrir
os que tem sede de plenitude.

Se o apego desencaminha o passo,
é de coração aberto que se movem
os que preparam um novo banquete.
A mesa será posta de liberdade.

Key Dias —  Setembro/2017

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Ilustração: Beatriz Aurora

Amadurecência

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Nasci querendo ser velha.
Desde menina admirava os cabelos brancos,
as linhas de expressão,
a quietude de quem transmutou-se
e sabe o que realmente importa.

Cansada do fulgor juvenil,
sonhava com as cadeiras de balanço,
o chá dos crepúsculos
e o olhar de quem aprendeu o afinamento
da sagrada relação com o tempo.

Mas é claro que tropecei.
Acaso não é o percorrer da juventude
a matéria-prima da sabedoria anciã?
Sem outro caminho de sentido,
aceitei ser jovem e não saber.

Foi então que a amadurecência chegou,
trazendo a poesia de minha criança
que anseia apenar ser o que é.
Aceitei viver com o pé no chão,
sem perder de vista as estrelas.

Não há inverno sem outono,
nem outono sem verão,
e eu, ainda primavera,
aprendi que a presença dos dias
é quem faz a beleza das idades.

Imagem: Gregory Colbert (Ashes and Snow)