Olhos Cerrados

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Mais uma da gaveta. Sobre a seca que assusta nosso Cerrado, sobre os corações secos que secam o molhado… Sobre a resiliência, desafio cotidiano dos cerratenses, sejam eles povo planta, povo bicho, povo gente.

Foto: Mariana Cabral. Sertão cerrado de Minas Gerais

Do olho d’água,
a esperança,
veredas que geram
buritis a crescer.
São olhos abertos,
na busca de ver,
o sertão cerratense
a sobreviver.

Dos olhos cerrados,
a ignorância,
criando o fim
do que fingem não ver.
A monocultura
da falta de ser,
pois preferem aquilo
que chamam de ter.

Será que o olho d’água
não chora de dor,
por ver tanta mata
que já se acabou?

Ou será que a esperança
é quem não vai findar?
Pois os olhos cerrados
também podem chorar.

Key Dias — Janeiro de 2017

Crônicas de um Útero #2: Quando ouço a Intuição

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Pior que o julgo dos que subjugam uma mulher é o nosso próprio esquecimento da Intuição. Esse sopro perene de nitidez é nossa mais antiga arte feminina. É a voz sábia da Mãe ancestral que jamais será silenciada, é o lampejo assombrosamente instintivo e divino que aponta os caminhos e alerta perigos.

Nesse ciclo lunar de setembro, sincronizado com o Equinócio de Primavera, Navaratri e Lua Nova, algumas camadas desconhecidas do feminino afloraram. Camadas de águas que me conduziram à floresta onde encontrei a mão dessa velha amiga. De dentro, veio a Intuição me contar sobre não esquecer que ela sempre está lá, naquele lugar onde toda mulher sabe onde é. Sussurrosa, veio me falar sobre coragem.

É inato feita a Lua que reflete o Sol. Nosso ventre tem espaço, e a força que nos faz in-tu-ir continuamente é a mesma que rege a dança da natureza cíclica feminina, numa alquimia perfeita entre o mundo interno e o externo. É como se olhássemos as respostas e as perguntas certas nos olhos da nossa velha alma.

Assim, percebi desajustes criados pela minha própria teimosia em não assumir o que a Intuição vem me dizer. Assim, percebi o quanto é preciso coragem para andar de mãos dadas com ela, pois essa aliança interna revela insigths que pedirão atitudes concretas e quebras de padrões que vão gerar rompimentos e desmoronar o que precisa ser renovado. Nem sempre será um caminho fácil, mas, na floresta interior, desafios são nutritivos.

A lucidez intuitiva é espada e escudo, quando é preciso lutar. É semente e flor, quando é preciso plantar. É colo e palavra sã, quando é preciso compreender e auxiliar. Assumir a responsabilidade em ouvir e agir com a Intuição é nosso passo primeiro de coragem para um feminino maduro, para um caminhar com propósito. É assumir a si mesma, tendo a força de relacionar-se com o outro e com o mundo com instintiva integridade. É romper com o medo de não ser aceita por ser quem se é e sentir o que sente.

Para muitos, lampejos intuitivos vão soar como alucinações exageradas, “dramas de mulher”. Deixe-os julgar. Por vezes, munida de Amor, a Intuição nos pedirá para abrir mão do que está fora do lugar, mesmo que isso balance relações, o ambiente onde vivemos ou as nossas próprias convicções. Mas é ela mesma quem no diz de dentro: “Coragem!” A Intuição provoca o amoroso desapego que traz a real união, pois é tão livre quanto o voo que nos possibilita dar.

Deixar-se in-tu-ir é dar um salto quântico de dentro para fora, reconhecendo que o percurso que nos trouxe até aqui amalgamou em nós mesmas as pistas do caminho a trilhar. Quando uma mulher decide escutar sua intuição, mais um véu das vãs ilusões é descortinado na trama do mundo.

Keyane Dias — 25 de setembro de 2017


Mora dentro de mim uma velha

Por mais que o acaso fértil do destino
Me presenteie com jeitos de moça
É a velha quem canta, dança, cozinha, observa

Os segredos que ela guarda
Minha moça tão pouco conhece
Só às vezes
Em con[tato]
As duas se tocam pelo olhar
Em um jardim oculto e visceral

Se bem me lembro
Chamam isso de intuição

A velha mora dentro
A velha mora fora
Ela sempre quer sair

Até parir a si mesma
Totalmente
No despontar dos meus cabelos brancos.

 

Entrelinhamente

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Foto: Mariana Cabral. Sertão de Minas Gerais

Sou tão densa quanto a dor
e tão leve quanto o amor,
sou a entrelinha dos versos que pari.

E se o que sou se esconde de mim,
é farejando a palavra que me encontro
no silêncio que precede a poesia.

É a poesia nua feito o chão,
crua feita a água
e lua
feita a paixão que me seduz
para experimentar o gozo
da palavra vivida em verso.

A palavra me fez poeta
para psicografar as sutilezas
do que vivo no mundo.

Keyane Dias — Agosto/2017

Apuração

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Noite de transcendência no sertão de Minas Gerais – Foto: Paulo Morais

Repara!
Velhas convicções
despedaçaram-se
em um amplo renovo
que te aguarda a romper
a gaiola do medo.

É hora de despir o corpo original,
onde habita a alma intocada
que só você abraça
nas madrugadas em que a luz
descansa no teu sono.

Despidos e úmidos pelo sereno,
lágrima de amor ancestral
que regou a primeira flor,
avistamos nos saberes antigos
a renovação do velho padrão,
que não cabe em mais ninguém.

A valentia para abrir o peito,
apurar o olhar
e abraçar o irmão,
que segue esquecido
de que pode ser quem é,
é a urgência dos dias.

Keyane Dias — Setembro/2017

Alimento

O sabor da vida que pulsa vida
é temperado com doses de coragem
e punhados de entrega para nutrir
os que tem sede de plenitude.

Se o apego desencaminha o passo,
é de coração aberto que se movem
os que preparam um novo banquete.
A mesa será posta de liberdade.

Key Dias —  Setembro/2017

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Ilustração: Beatriz Aurora

Amadurecência

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Nasci querendo ser velha.
Desde menina admirava os cabelos brancos,
as linhas de expressão,
a quietude de quem transmutou-se
e sabe o que realmente importa.

Cansada do fulgor juvenil,
sonhava com as cadeiras de balanço,
o chá dos crepúsculos
e o olhar de quem aprendeu o afinamento
da sagrada relação com o tempo.

Mas é claro que tropecei.
Acaso não é o percorrer da juventude
a matéria-prima da sabedoria anciã?
Sem outro caminho de sentido,
aceitei ser jovem e não saber.

Foi então que a amadurecência chegou,
trazendo a poesia de minha criança
que anseia apenar ser o que é.
Aceitei viver com o pé no chão,
sem perder de vista as estrelas.

Não há inverno sem outono,
nem outono sem verão,
e eu, ainda primavera,
aprendi que a presença dos dias
é quem faz a beleza das idades.

Imagem: Gregory Colbert (Ashes and Snow)

 

Superfície

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Ilustra: Robyn Chance

De baixo do que penso
está o que sinto.
De baixo do que sinto
está o que sou.

E no fundo…
no fundo estão as sagradas miudezas,
cochichos sinceros
feito conchinhas que deságuam
nas bordas do mar.

Levei tão a sério
a vida que quer brincar.
Mas hoje a vejo na flor
que sublima do fundo
mostrando que é na superfície
o lugar de aflorar.

Key Dias — Agosto de 2017

Ruderal

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Ilustración: Cristina Yépez

Entre ruas de concreto,
que vedam a terra,
e lâmpadas de ilusão,
que encobrem as estrelas,
renascem humanidades
e esperanças.
Nasce a flor,
na rachadura do que é vão,
e dança a vida,
gracejando a certeza
de que a natureza
não sucumbirá à cidade.

Pois a cidade,
ainda que cinza,
é feita de gente
que se transforma.
E a gente,
ainda que esquecida,
tem latente no âmago
a natureza profunda,
a renascença ruderal
de sermos humanos
e divinos.

Key Dias — Junho de 2017

Louvação (Martelo Agalopado)

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Percorrendo os caminhos da literatura de cordel, finalizo minha primeira escrita na métrica de um “martelo agalopado“. Sem perfeição, mas com coração! Salve a maestria daqueles e daquelas que fazem nosso legado literário brasileiro, fruto de misturas e reinvenções. Tradição viva que caminha com a gente!

Pintura: Isabel Bryna

Poetizo fazendo oratório
Vou abrindo os portais do coração
Sintonizo com a luz da Criação
E no manto da Mãe faço envoltório
O destino não é obrigatório
Busco a fé para o amadurecer
Consciência ativa pra escolher
Onde firmar a minha energia
Louvo a vida e a luz da poesia
Com elas aprendo a me conhecer

Nessa terra de chão tão abundante
Agradeço por ter prosperidade
E entender que a nossa liberdade
É dos ganhos o mais importante
Me atento agora e nesse instante
Para disso eu não me esquecer
Que a riqueza só gera bem-viver
Se houver paz, saúde e harmonia
Louvo a vida e a luz da poesia
Com elas aprendo a me conhecer

Senhor tempo pai velho da existência
Agradeço por ser minha morada
Nutrição dessa Divina jornada
Em lembrar o acesso à consciência
Para isso me amparo na ciência
De quem pisa na terra sem temer
Desapega, aprendendo como ter
A simplicidade como sua guia
Louvo a vida e a luz da poesia
Com elas aprendo a me conhecer

Perfeição não é coisa deste mundo
E os tropeços são nossa provação
Por isso faço a minha oração
Perdoando meu próprio submundo
Invocando o propósito profundo
E a missão de poder reconhecer
Os erros que fizeram eu crescer
E aprender paciente dia a dia
Louvo a vida e a luz da poesia
Com elas aprendo a me conhecer.

Keyane Dias — 28.07.2017