DESAVERSOS (POESIAS)

Lar

Saúde mesmo é ter amor
Dentro
Fora
E lá, onde ninguém vê

E quando a doença
Em ti aparecer
Convoque a presença
Que sustenta teu ser

Pois doença é desatino
Esquessência de si
É o afastamento
De onde a alma quer ir

Mas se tu bem olhar
Sem pressa e sem medo
Verá que a doença
Sempre conta um segredo

Escuta, aceita
E deixa ela ir
Aprendendo a lembrar
De cuidar bem de si

E celebra
A ciência da tua vida
Pois saúde é ser amor
E, com ele, não há partida.

Key Dias
Índia – Fevereiro/2019

DESAVERSOS (POESIAS)

Flor

(No espelho d’água,
o céu deita sobre a lótus)

 Quanto de amor
Habita na flor
Que só desabrocha
Sem nada a temer

E o mesmo amor
Que alumia a dor
De quem vê a luz
Onde ninguém vê

Será que esse amor
Que sustenta a flor
Sabe que a dor
Já me fez crescer?

Ou será que a dor
Transcendida em flor
Casou-se com o amor
E fez tudo nascer?

Key Dias
Índia – Fevereiro/2019

DESAVERSOS (POESIAS)

Respiros

Renove
O que te move
Pra fazer da presença
Estrada livre a percorrer
E ainda que queiras
Viver sempre o mesmo
Repare que tu mesmo
Não é o mesmo que achou ser

Imagem: Pinterest

Recria
O que te inspira
Pra fazer da beleza
A simplicidade do teu ser
E ainda que insista
Em ver a vida com dureza
Repare que a beleza
É maior que o que se vê

Celebra
A tua entrega
E faz da confiança
A linguagem do viver
E ainda que a descrença
Apareça ao meio-dia
Repare que a alegria
Sempre espera por você

Key Dias
Índia — Fevereiro/2019

DESAVERSOS (POESIAS)

Livro: Travessias

Nós somos filhas e filhos do fio ancestral que não cessa de parir.
Nós somos a lua da velha que sangrou na terra e benzeu o mundo,
somos os pés descalços do velho que contou histórias do tempo.
Nós somos os batuques que tocam pela eternidade,
somos a viola e o verso na voz do trovador.
Nós somos o cântico dos cânticos da floresta
e o balanço sincero do colo das Yabás.

.
É na trama caminhante dos encontros pelo Brasil Profundo que nasce o livro Travessias – poesias e prosas no chão das tradições. Na obra, a autora taguatinguense Keyane Dias, filha e neta de nordestinos, versa sobre vivências no chão de culturas tradicionais e na busca por relembrar os fios cortados da sua própria ancestralidade, mestiça feito nosso país. São poesias e prosas inspiradas naqueles e naquelas que tecem sonhos reais entre cerrados, sertões, gerais, matas e litorais.

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Foto: Thiago Soares

Obra independente, desenvolvida com recursos do Fundo de Apoio à Cultura do DF (FAC-DF) e impressa através de financiamento coletivo no site Benfeitoria.

Ilustrações de Nara Oliveira
Ano de publicação: 2018
Informações de venda: AQUI

 


Chegança

A licença aqui vos peço
Minha palavra quer passar
Aos antigos versadores
Peço bença pra chegar
Sou mulher de poesia
E, com ela, todo dia
Escrevo pra assuntar

Aqui, trago memórias
De paragem e comunhão
Travessias que percorrem
Saberes de tradição
Raízes de nossa gente
Essência sempre presente
Semente que dá no chão

Sou filha desse Brasil
Onde o mundo se mistura
Faço do mundo escola
Faço de escola a cultura
Desde o fio do Nordeste
E do Cerrado que veste
O nascer de minha feitura

Meu Lunário Perpétuo
É impresso a cada dia
É oráculo de encontros
É livro que o tempo cria
Desde o umbigo do mundo
Renasce todo segundo
Aquilo que principia

E entre sertões e asfaltos
No desvão das memórias
Em caminhos anônimos
Traçando trajetórias
No simples busco a fonte
Onde eu mesma sou a ponte
Sou o laço das histórias