Terrena

.

90d9ae51b0ced55fb46a895021987be9

Ilustração: Audra Auclair

No toque do tambor que alteia a Terra,
o Guardião celebra a vida e ri,
soprando luz de saber esquecido.

Elevar-se é o destino do caminho,
mas o limite do voo não são as estrelas.
É de lá que vinhemos.

O limite do voo
é o chão que acolhe o pouso
dos que ainda tem caminho pra fazer.

Elevada é a alma que apurou-se
no aterramento da liberdade,
pra voltar às estrelas com mais luz.

Key Dias — 11.06.2017

Sou tarde

.
Ao amanhecer, desperto.
Ao anoitecer, descanso.
Entre o dia e a noite,
careço de entender as tardes,
a travessia das auroras,
o meio das horas.
Pois a origem e o fim são o que são,
mas o eterno presente,
o meio de tudo,
é somente aquilo que nós somos.

Careço de entender quem sou,
e por isso vivo.
São as tardes correntes das idades
o chão da revelação,
os dias que tem como fim um novo começo.
Se quero entender quem sou,
olho-me no espelho do tempo
que me diz no risco celeste das horas:
sou a tarde entre as minhas auroras.

Key Dias — 22.05.17

 

Gravura: Gilvan Samico

Ressonância

.

Ilustração: autor(a) desconhecido

É sentença da vida
presenciar no tempo
o sOM antigo da criação.

O eco das vozes avós,
ressonância do sopro
que nutre a canção.

De todas as sinfonias
achei no silêncio
a perfeita expressão.

Pois longe de todo ruído
habita o sentido
da iluminação.

Camadas já descortinei
e quanto mais abro
mais tem pra curar.

Assim seja! E o que mais seria?
O som que dissona
há de se harmonizar.

Keyane Dias — 17.05.17

Cordel Benzadeus!

Quando bem jovem, fui estudar Jornalismo, sem ainda entender o chamado de simplesmente escrever e poetizar o que percebo no mundo. No retorno aos saberes da terra e à elevada simplicidade das tradições, fui logo descobrindo que os cordelistas são os comunicadores primeiros do sertão e que poetas, pelo mundo afora, são a eterna voz caminhante na busca de sentido, “estrangeiros no mundo” contando histórias.

Depois de firmar os pés na poesia, chego ao inevitável, escrevo meu primeiro cordel. Neste folheto, trago o feminino de uma mulher nascida e vivente numa era de transição. Sem discurso de ódio ou separação, falo aqui de saberes que não sucumbiram à engenhosa opressão capitalista e machista que está caindo. Mundo velho se vai e as ciências da vida e da terra se refinam para o mundo não padecer.

Dedico e ofereço estes versos às minhas avós e avôs, raízes de sertões nordestinos da qual sou semente viva. Aos cordelistas e poetas populares. Às minhas ancestrais e às senhoras, senhores, mestras, yoguis e griôs com quem aprendo sobre Saúde e Vida pelo Brasil adentro e (um dia) pelo mundo afora.

Graças a Deus e com fé na guia!

*
A licença aqui vos peço
Pra esse cordel passar
Aos antigos versadores
A bença pra eu chegar
Sou mulher de poesia
E, com ela, todo dia
Escrevo pra assuntar

Aqui, trago memórias
Em versos de cantoria
Pra falar das guardiãs
Dos saberes de valia
Rezadeiras e parteiras
Benzedeiras e erveiras
Mulheres de valentia…

 

Folia

Dia desses, tava aqui na cidade de Samambaia e soube que a Folia de Reis e Dança de Roda Menino Jesus de Praga, de Brazlândia, viria se apresentar. Corri pra lá. Me encantei e matei a saudade dessa linda manifestação que toma meu coração. Meses atrás, tava eu no giro da Folia do Ribeirão de Areia (Chapada Gapucha – MG), compartilhando vida, fé e amor com o povo que mantém viva e pulsante as tradições nos interiores desse nosso Brasil. Com a fé mística e potente que louva Jesus, a Virgem Maria, os Santos Reis e à Vida de um jeito genuíno e muito além de dogmas. Toda vez que vejo e ouço a folia, relembro do que não lembro, dos inúmeros reisados que meus antepassados presenciaram pelos sertões do Nordeste. Às folias, versei:

Perfilada em sua fé
Vai cantando a folia
Louvando Santos Reis
Junto com Virgem Maria
Erguendo sua bandeira
E a cultura brasileira
Estandarte de alegria

No ponteio da viola
Cantador faz oração
E a batida do tambor
Pulsa fé no coração
O pandeiro então repica
E a sanfona multiplica
A força da tradição

E vem junto da Folia
Logo após a louvação
Verso e dança de roda
Canto de celebração
A senhora mexe a saia
E o passo que não caia
Pra ter continuação

A folia também tem
Palhaço caminhador
Para abrir o cortejo
Com graça e com louvor
Mascarado sem frescura
É antiga essa figura
De mistério encantador

É tão grande alegria
A folia encontrar
E junto aos devotos
Nossa fé compartilhar
Sentindo que a cultura
É do povo a sua cura
É seu feito salutar.

Keyane Dias — 05 de maio de 2017

Foto: Davi Mello

Temperança

.
Nos recônditos de ser,
cavo a temperança
das manhãs de domingo.

Labor incessante,
caminho estreito
do silêncio esquecido.

Que sentido faz
em repetir o que jaz
ser tão falido?

Na roda da ilusão,
até o mais são
fica enlouquecido.

As aparências
das aparências
criam nova roupagem.

E o apego
de seguir com medo
atrapalha a viagem.

Sou viajeira,
‘estrangeira num mundo’
que é só de passagem.

Aceitei a missão,
para abrir a visão

indo além da miragem.

Key Dias — 29.04.2017

Deságua

.

Ilustração: John Bermond

Deságua!
Diz a água.
Anseio de braços úmidos,
o
rigem de meu corpo nu.

És útero de encantações,
espelho sereno do desavessar,
cuia de lágrimas lunares,
mãe de emoções perdidas.

Deságua…

Mergulha sem ter medo
e navega livre de apego,
pois destino não é desejo
e o fim é além do mar.

Key Dias — 30.11.2016