DESAVERSOS (POESIAS)

A dança

Se não queres a dança,
porque me pedes para bailar?

Não me basta suar o sexo
ou beber um efêmero cálice de Eros.

É com minha natureza
que danço o Amor,
para bailar a alquímica entrega
entre as almas livres
que permitem ser tocadas.

Se queres a dança,
vens despido e sem medo.
Eu também nada sei,
mas desejo.

Keyane Dias — maio/2018


“O erotismo está expulsando do mundo a poesia. A violência está destruindo a ternura. A sensualidade GROSSEIRA está vencendo a capacidade de gozar o sutil. Isso causa dores e desequilíbrios. Despertemos. Comecemos a reagir. Aprendamos a cultivar poesia, ternura e gozo espiritual. Sutilizemos, refinemos nossa sensibilidade. Tornemo-nos capazes para os prazeres não compráveis, invulgares, indescritíveis – os sublimes…”

— Professor Hermógenes

DESAVERSOS (POESIAS)

Metamorfose

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Imagem: Pinterest

Você será várias borboletas de ti mesmo.
Viverá dezenas de metamorfoses.
Diferentes casulos farão de ti
ex-lagarta da lição bem aprendida.
Cada casulo terá cheiro de morte
e cada morte será vida renascente
das contradições amaduradas.

Você será lagarta outra vez.
Viverá o reinício das metamorfoses.
Diferentes lugares de ti mesmo
se transformarão em campos desconhecidos.
Cada campo terá cheiro de paciência
e cada dia paciente te trará a clareza
de entregar-se ao que for preciso.

Keyane Dias — março/2018

DESAVERSOS (POESIAS)

Esperança

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Minha inquietude é filha da esperança,
esse colo luminoso onde abro os olhos
e vejo como as desnecessidades são menores
que a coragem que transforma.

Já que a vida é um pulsar,
me inquieto com os castelos de mesmices e medos,
carcaças onde habita a crença de que muros de pedra
e orgulho
protegem mais que o amor
e o respeito.

Quem sabe,
essa inquietude esperançosa seja ainda juvenil
ou mesmo inocente.
Pouco importa!
É dela que nasce a poesia metamórfica das borboletas,
a mudança insurgente do agora.

Keyane Dias — janeiro/2018

Foto: @thom_wien
DESAVERSOS (POESIAS)

Aceito

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Pintura: Isabel Bryna

Tem um rasgo
onde engasgo meu peito
toda vez que me esqueço
que é preciso aceitar.
Aceitar
que por mais que eu invente,
que eu desista ou que eu tente
a dor sempre estará.

Pois a dor
que é da cor do invisível
é um sol disponível
querendo se mostrar.
É o parto,
a loucura, a serpente,
é humana, é poente,
é o rio quando é mar.

Keyane Dias — novembro/2017

DESAVERSOS (POESIAS)

Mútua

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Se quiseres de mim
apenas o suor quente
pra sua conveniência,
serei vapor d’água e chuva,
em meu próprio jardim.

Mas se quiseres de mim,
na mesma medida que eu,
o prazer do leito além da borda,
serei rio aberto e molhado
sem medo do fim.

No raso não me encaixo,
no raso não sei dizer:
sim.

Key Dias — Outubro de 2017

Ilustração – gif: James R. Eads