A Magia Negra de Sergio Vaz

Em novembro de 2014, mês da Consciência Negra, o Portal Brasil produziu um vídeo com a poesia Magia Negra, de Sérgio Vaz, interpretada por Raíssa Gomes. Mais uma magia negra do Vaz, poeta marginal, poeta sideral, poeta contemporâneo que já é parte da história literária do Brasil. Pura magia negra! “O resto, é feitiço racista”.

Magia negra era o Pelé jogando, Cartola compondo, Milton cantando. Magia negra é o poema de Castro Alves, o samba de Jovelina…
Magia negra é Djavan, Emicida, Mano Brow, Thalma de Freitas, Simonal. Magia negra é Drogba, Fela kuti, JamMagia negra é dona Edith recitando no Sarau da Cooperifa. Carolina de Jesus é pura magia negra. Garrincha tinhas 2 pernas mágicas e negras James Brow. Milton Santos é pura magia.
Não posso ouvir a palavra magia negra que me transformo num dragão.
Michael Jackson e Jordan é magia negra. Cafu, Milton Gonçalves, Dona Ivone Lara, Jeferson De, Robinho, Daiane dos Santos é magia negra.
Fabiana Cozza, Machado de Assis, James Baldwin, Alice Walker, Nelson Mandela, Tupac, isso é o que chamo de magia negra.
Magia negra é Malcon X. Martin Luther King, Mussum, Zumbi, João Antônio, Candeia e Paulinho da Viola. Usain Bolt, Elza Soares, Sarah Vaughan, Billy Holliday e Nina Simone é magia mais do que negra.
Eu faço magia negra quando danço Fundo de quintal e Bob Marley.
Cruz e Souza, Zózimo, Spike Lee, tudo é magia negra neles. Umoja, Espirito de Zumbi, Afro Koteban…
É mestre Bimba, é Vai-Vai é Mangueira todas as escolas transformando quartas-feira de cinza em alegria de primeira.
Magia negra é Sabotage, MV Bill, Anderson Silva e Solano trindade.
Pepetela, Ondjaki, Ana Paula Taveres, João Mello… Magia negra.
Magia negra são os brancos que são solidários na luta contra o racismo.
Magia negra é o RAP, O Samba, o Blues, o Rock, Hip Hop de Africabambaataa.
Magia negra é magia que não acaba mais.

É isso e mais um monte de coisa que é magia negra.

O resto é feitiço racista.

Sergio Vaz

Alberto Caeiro sobre a pressa

Não tenho pressa. Pressa de quê?
Não têm pressa o sol e a lua: estão certos.
Ter pressa é crer que a gente passe adiante das pernas,
Ou que, dando um pulo, salte por cima da sombra
Não; não tenho pressa.
Se estendo o braço, chego exatamente aonde o meu braço chega –
Nem um centímetro mais longe.
Toco só aonde toco, não aonde penso.
Só me posso sentar aonde estou.
E isto faz rir como todas as verdades absolutamente verdadeiras,
Mas o que faz rir a valer é que nós pensamos sempre noutra coisa,
E somos vadios do nosso corpo.
E estamos sempre fora dele porque estamos aqui.

Fernando Pessoa, como Alberto Caeiro

A Língua das Coisas

O poeta Manoel de Barros soube extrair, provar e compartilhar o néctar da simplicidade, esse item essencial que está em tudo e que é fundamental para gente tentar entender a vida. Com seu manoelês, o Maneco traduziu a língua de um montão de coisa, inspirando gentes por esse mundo. Bebendo desse néctar, a Caraminhola Filmes lançou em 2010 o curta A Língua das Coisas. Só hoje conheci o filme, que já recebeu prêmios no Brasil e na América Latina. Muito bom para assistir com as crianças e com as nossas crianças internas.

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A filosofia do espanto

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Ilustração: Pinzallades al Món

Lauro Henriques Jr.: Quem abre nossa roda de histórias é o poeta Mário Quintana. Ele pergunta: “Que haverá com a lua, que sempre que a gente a olha é com o súbito espanto da primeira vez?

Rubem Alves: Haa, o espanto com a lua. Há poucos dias vivi isso. Fui até a varanda e, de repente, tive aquele assombro: lá estava ela, espantosa no céu. O espanto diante da vida é absolutamente essencial. Eu até já propus que as escolas criassem um novo tipo de professor: o professor de espantos. Ele não teria programa de ensino, nada disso, seria alguém que diz: “Olha, vejá lá!” – alguém que se espanta e que ensina a gente a se espantar. O olhar de espanto é o olhar da criança, que está sempre vendo o mundo como se fosse a primeira vez. Os gregos antigos tinha uma palavra, ‘thaumazein’, que se referia exatamente à importância desse estado de admiração, de você ficar abobalhado; para eles, é isso o que faz você pensar.

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O trecho acima integra o livro de entrevistas Palavras de Poder – Volume 3. Já falei sobre ele aqui no Além (clica aqui pra ver), quando o li o Volume 1 e 2. A última entrevista que fecha esse terceiro volume da série traz a leveza certeira e lúdica de Rubem Alves. Memorável! Vale ver além desse trechim!

“De prática subversiva a símbolo nacional”

Não podia deixar em branco, aqui no Além, o reconhecimento da Roda de Capoeira como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. O título foi concedido pela Unesco, no dia 26 de novembro de 2014 (detalhes aqui). Seis anos antes, em 2008, tanto a roda como o ofício dos mestres já haviam sido reconhecidos nacionalmente, pelo IPHAN. Uma ação mais que bem-vinda para oficializar o que nós, capoeiras, já sabíamos. Nossa arte, luta, jogo, tradição afro-brasileira corre o planeta, ela mesma dá “sua volta ao mundo”, permeando vidas com seus saberes e sua filosofia, que vão bem além do simples movimentar-se. Lembrei da ladainha que fiz, em junho, que fala exatamente da roda de capoeira. Ela completa tá aqui.

[…]

Traz presença ancestral
Com atabaque e agogô
Pandeiro e reco-reco
Harmonia de valor

Energia vem do canto
É antiga tradição
Capoeira de Angola
Não se perde na missão…

Abaixo, dois vídeos institucionais do IPHAN e do MinC sobre o reconhecimento internacional do nosso patrimônio, “de prática subversiva a siímbolo nacional”.

Registros da Capoeira no Cais do Valongo

A fotógrafa e historiadora Maria Buzanovsky fez um dos mais belos registros de capoeira que já vi. As imagens foram captadas no Cais do Valongo, no Rio de Janeiro, local histório para o Brasil, por onde passaram mais de 500 mil escravizados vindos de Congo e Angola. Nada mais propício que registrar ali os movimentos da Capoeira Angola, luta, dança, arte de libertação.

Além da capoeira, Maria se dedica a registrar outras manifestações populares e tradicionais no Rio de Janeiro. Mais sobre o trabalho da fotógrafa, na página: facebook.com/MariaBuzanovsky


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Icologia

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Conheci no último fim de semana [pelo menos em vídeo] mais um mestre da vida, dos saberes da terra. Seu Ico! Erveiro, filósofo, cantor, tocador de gaita, artesão, contador de histórias e conhecedor dos mistérios do Cerrado. Apelidado de Seu Ico, Teodorico Pereira nasceu e viveu em Pirenópolis (GO), até o dia da sua passagem, em 2006, quando tinha 79 anos. É uma das mais marcantes personalidades de Piri. Fabricava presépios e era ainda sineiro e zelador da Igreja da Matriz.

Em 2005, o documentário feito em sua homenagem, Icologia, venceu o VII Festival Internacional de Cinema Ambiental, realizado na Cidade de Goiás, além de outras mostras de cinema pelo país. Só no filme, em 21 minutos, já dá pra sentir como a prosa com Seu Ico era rica, com profundos saberes da farmacologia do Cerrado e de filosofias da vida. Salve ele!

Mais informações, nos links abaixo:

>> www.pirenopolis.com.br/ExibeChamadas.jsp?pkLink=87 <<
>> www.pirenopolis.tur.br/noticias/noticia/Morre+Seu+Ico+%281926-2006%29 <<
>> www.pirenopolis.com.br/ExibeNoticia.jsp?pkNoticia=117 <<

“Quando você olha o sol levantando na ponta do morro, você tá alimentando as vistas… Tem que ver um pé de buriti bater as folha. Tem que ver o sol, olhar a lua, aproveitar a lua. Todas essas coisas boa que Deus deixou pra nós. Tem que olhar as estrelas… e a música…”


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Pulo fino do acaso

“Ao que, digo ao senhor, pergunto: em sua vida é assim? Na minha, agora é que vejo, as coisas importantes, todas, em caso curto de acaso foi que se conseguiram – pelo pulo fino de sem ver se dar – a sorte momenteira, por cabelo por um fio, um clim de clina de cavalo. Ah, se não fosse, cada acaso, não tivesse sido, qual então que teria sido meu destino seguinte? Coisa vã, que não conforma respostas. Às vezes, essa ideia me põe susto.”

Trecho de Grande Sertão: Veredas
João Guimarães Rosa

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Pelos “acasos” do Ribeirão da Areia”, sertão de Minas Gerais. Foto: Keyane Dias

A epifania de Abigail

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Dicionaristicamente, EPIFANIA é “trazer para o consciente o que ainda não estava nele, revelar o que antes estava escondido”, ou, ainda, “no sentido filosófico, uma sensação profunda de realização em compreender a essência das coisas, tudo que pode estar no âmago…”. Vem do grego epiphanéia, uma espécie de manifestação divina, no sentido religioso católico das coisas. É… de um jeito ou de outro essa tal Epifania está sempre aí, pronta para nos despertar. Sentiu? Se lembra?? Mas os devaneios do tempo de excessos em que vivemos, seja de informação, de comida, de entorpecimentos, fecham a porta para ela entrar. A epifania precisa de frestas de consciência, de respiros da alma. Às vezes, parece difícil achá-la. Mas só parece, pois é ela que vem nos achar! Não se cansa, a danada! Tenho a encontrado, em especial, na Capoeira Angola. Já contei um encontro desses (vê aqui), não faz muito tempo. Ela também chegou com o Rosa, que soube muito bem prosear com a Epifania nas suas obras entre grandes sertões e veredas.

Ontem a Epifania me achou de novo. Dessa vez ela veio na Revista SuperNovas, produzida por um coletivo homônimo de São Sebastião. A revista traz muitos contos e poesias de autores locais. Na contracapa, a série de poesias “A epifania de Abigail”, do poeta Ricardo Caldeira. Inspiradora!

Depois que conheci o meu mundo,
não consigo me adaptar ao outro.

Não são com todos que fico
à vontade.

Às vezes, saio do mundo
para entrar em mim.

Esse é o preço que pago
por pensar demais.

Não tenho outra escolha,
viver na ignorância não é para mim.

Senso comum, cale a sua boca
cheia de banalidades.
Não me chame de esquisita.

A epifania de Abigail, de Ricardo Caldeira.

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Pintura da artista brasiliense Clarice Gonçalves

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O Fim do Recreio

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O brincar está em pauta. Ainda bem! Recentemente, o filme Tarja Branca levou para os cinemas a discussão sobre a importância do brincar, como ferramenta educativa e espontânea de desenvolvimento humano. Hoje, assisti um outro filme, de 2012, que também aborda o tema de forma crítica e divertida: o curta ficção O Fim do Recreio. Ri muito e também me emocionei ao relembrar minha infância e ver essas pequenas grandes pessoas.

A espetacularização da mídia, as possibilidades de alcance da internet, a criatividade infantil. O Fim do Recreio retrata ainda a força da mobilização social e como a comunicação influencia a opinião pública, colocando em discussão a qualidade da informação que consumimos pela imprensa. A comunicação livre também é abordada, tendo como protagonistas as próprias crianças, com uma câmera na mão e a espontaneidade na cabeça.

O Fim do Recreio é uma produção da Parabolé – Educação e Cultura. Entre outros prêmios, venceu a 11ª Mostra de Cinema Infantil de Florianópolis e foi eleito Melhor Filme pela crítica e pelo público no XI Araribóia Cine – Festival de Niterói.

Sinopse
“No Congresso Nacional, um projeto de lei pretende acabar com o recreio escolar. Ao mesmo tempo, em uma escola municipal de Curitiba, um grupo de crianças pode mudar toda essa história. Recheado de vibrantes brincadeiras infantis, O Fim do Recreio é um curta-metragem para todos os públicos, que bota a boca no trombone e avisa: cobra parada não come sapo!”

Um pouco antes, em 2010, a Parabolé lançou o documentário Brincantes, fruto de pesquisas sobre as brincadeiras infantis na Rede Municipal de Ensino de Curitiba.

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