ESCRITURAS

Flor

(No espelho d’água,
o céu deita sobre a lótus)

 Quanto de amor
Habita na flor
Que só desabrocha
Sem nada a temer

E o mesmo amor
Que alumia a dor
De quem vê a luz
Onde ninguém vê

Será que esse amor
Que sustenta a flor
Sabe que a dor
Já me fez crescer?

Ou será que a dor
Transcendida em flor
Casou-se com o amor
E fez tudo nascer?

Key Dias
Índia – Fevereiro/2019

ESCRITURAS

Respiros

Renove
O que te move
Pra fazer da presença
Estrada livre a percorrer
E ainda que queiras
Viver sempre o mesmo
Repare que tu mesmo
Não é o mesmo que achou ser

Recria
O que te inspira
Pra fazer da beleza
A simplicidade do teu ser
E ainda que insista
Em ver a vida com dureza
Repare que a beleza
É maior que o que se vê

Celebra
A tua entrega
E faz da confiança
A linguagem do viver
E ainda que a descrença
Apareça ao meio-dia
Repare que a alegria
Sempre espera por você

Key Dias
Índia — Fevereiro/2019

Sem categoria

Andarina (Livro Travessias)

“Pra sempre é sempre boa hora
No breu da noite, no clarão da aurora
Se a estrada convida a senhora
Cantando essa canção estradeira
Pra comemorar a passagem
De uma alegria derradeira…”
(“Luzia” – Ozuê)

Entre vãos e veredas do Cerrado, conheci Dona Alma, cantando batuque em festejo no sertão. Seus olhos, repuxados e verdes feito rio, contrastavam com a pele preta acobreada do sol rebatido da areia branca. Parecia espelho vivo da miscigenação brasileira que corre em minhas veias. Nos seus olhos, via minhas avós, minha mãe, minhas antepassadas que ninguém sabe dizer quem são. Todos ali, andarinas.

Ilustração: Nara Oliveira

Fui atrás de sua história. Me contaram. Nem por distância, nem por necessidade, Dona Alma era uma andante porque o caminhar era seu lugar de poder. Ainda que a casa lhe demandasse trabalho ou a descendência quisesse colo, sempre, todo dia, arranjava tempo de travessear. Cumpria tudo que a moralidade normatizava para uma senhora camponesa e, ainda assim, seguia. Nem patrão ou marido a fizeram parar. Nasceu para o mundo!

Caminhando, sorria na liberdade do encontro, seja com bicho, com planta ou com gente. Só o tempo de seus mais de 80 anos haverá de saber o que presenciou nas procissões diárias que a nutrem de vida. Vinte filhos, tantos netos. Havia quem jurasse que era cigana. Pudera! Colorida e cantante, andava, andava e cantava. Mas sempre voltava para casa na hora que lhe cabia certa. Seu caminhar, misturado com dança, parecia trupé de criança saltitando pelas capoeiras da mata. Batia caixa em dia de Folia e nunca lhe faltava cantiga nova pra versar…


Trecho da prosa poética “Andarina”, disponível no livro Travessias: poesias e prosas no chão das tradições.

Este projeto foi realizado com recursos do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal (FAC-DF) e publicado através de financiamento coletivo pelo site Benfeitoria.

 

ESCRITURAS

A dança

Se não queres a dança,
porque me pedes para bailar?

Não me basta suar o sexo
ou beber um efêmero cálice de Eros.

É com minha natureza
que danço o Amor,
para bailar a alquímica entrega
entre as almas livres
que permitem ser tocadas.

Se queres a dança,
vens despido e sem medo.
Eu também nada sei,
mas desejo.

Keyane Dias — maio/2018


“O erotismo está expulsando do mundo a poesia. A violência está destruindo a ternura. A sensualidade GROSSEIRA está vencendo a capacidade de gozar o sutil. Isso causa dores e desequilíbrios. Despertemos. Comecemos a reagir. Aprendamos a cultivar poesia, ternura e gozo espiritual. Sutilizemos, refinemos nossa sensibilidade. Tornemo-nos capazes para os prazeres não compráveis, invulgares, indescritíveis – os sublimes…”

— Professor Hermógenes

ESCRITURAS

Metamorfose

.

Você será várias borboletas de ti mesmo.
Viverá dezenas de metamorfoses.
Diferentes casulos farão de ti
ex-lagarta da lição bem aprendida.
Cada casulo terá cheiro de morte
e cada morte será vida renascente
das contradições amaduradas.

Você será lagarta outra vez.
Viverá o reinício das metamorfoses.
Diferentes lugares de ti mesmo
se transformarão em campos desconhecidos.
Cada campo terá cheiro de paciência
e cada dia paciente te trará a clareza
de entregar-se ao que for preciso.

Keyane Dias — março/2018

ESCRITURAS

Esperança

.

Minha inquietude é filha da esperança,
esse colo luminoso onde abro os olhos
e vejo como as desnecessidades são menores
que a coragem que transforma.

Já que a vida é um pulsar,
me inquieto com os castelos de mesmices e medos,
carcaças onde habita a crença de que muros de pedra
e orgulho
protegem mais que o amor
e o respeito.

Quem sabe,
essa inquietude esperançosa seja ainda juvenil
ou mesmo inocente.
Pouco importa!
É dela que nasce a poesia metamórfica das borboletas,
a mudança insurgente do agora.

Keyane Dias — janeiro/2018

Foto: @thom_wien