À mão

Escrevo à mão,
ornada com linhas de histórias oraculares,
marcas de minha gênese que sonho todo dia
em recordar.

Escrevo à mão,
a mesma com a qual aprendi a me levantar
no tombo do primeiro passo.

Escrevo com a mão da filha, da mãe e da avó.
Escrevo com o intento daquelas que contaram
a quem contou à senhora que me contou
que ‘velho é o mundo’.

Keyane Dias — 20.11.2016

Ilustração: Juliana de Castro Tonalezzi

Gene

Nós somos filhas e filhos do fio ancestral que não cessa de parir.
Nós somos a lua da velha que sangrou na terra e benzeu o mundo, somos os pés descalços do velho que contou histórias do tempo.
Nós somos os batuques que tocam pela eternidade, somos a viola e o verso que ecoa o om na voz do trovador.
Nós somos o cântico dos cânticos da floresta e o balanço sincero do colo das Yabás.
Nós somos o círculo das cirandas e a ladainha que ressoa ao som do berimbau.
Nós somos a erva que cura o corpo e clareia o espírito, somos o rodopio dançante da rede do pescador.
Nós somos a escala caminhante dos pífanos e o giro das saias nas rodas de umbigada.
No somos a bandeira do Divino e Santos Reis, somos a lança dos caboclos do maracatu.
Nós somos a linha crua da fiandeira e o eco do lamento do aboiador.
Nós somos a espera pela chuva da mãe sertaneja, somos a maraca e o cachimbo do índio na encantaria do ritual.
Nós somos o presente ancião que aqui respira até o último suspiro, somos o silêncio dos cantos que povoam o mundo.
Nós somos filhas e filhos do que herdamos, somos as avós e os avôs do que hoje criamos.

Key Dias — 07.01.16