Superfície

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Ilustra: Robyn Chance

De baixo do que penso
está o que sinto.
De baixo do que sinto
está o que sou.

E no fundo…
no fundo estão as sagradas miudezas,
cochichos sinceros
feito conchinhas que deságuam
nas bordas do mar.

Levei tão a sério
a vida que quer brincar.
Mas hoje a vejo na flor
que sublima do fundo
mostrando que é na superfície
o lugar de aflorar.

Key Dias — Agosto de 2017

Ruderal

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Ilustración: Cristina Yépez

Entre ruas de concreto,
que vedam a terra,
e lâmpadas de ilusão,
que encobrem as estrelas,
renascem humanidades
e esperanças.
Nasce a flor,
na rachadura do que é vão,
e dança a vida,
gracejando a certeza
de que a natureza
não sucumbirá à cidade.

Pois a cidade,
ainda que cinza,
é feita de gente
que se transforma.
E a gente,
ainda que esquecida,
tem latente no âmago
a natureza profunda,
a renascença ruderal
de sermos humanos
e divinos.

Key Dias — Junho de 2017

A filosofia do espanto

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Ilustração: Pinzallades al Món

Lauro Henriques Jr.: Quem abre nossa roda de histórias é o poeta Mário Quintana. Ele pergunta: “Que haverá com a lua, que sempre que a gente a olha é com o súbito espanto da primeira vez?

Rubem Alves: Haa, o espanto com a lua. Há poucos dias vivi isso. Fui até a varanda e, de repente, tive aquele assombro: lá estava ela, espantosa no céu. O espanto diante da vida é absolutamente essencial. Eu até já propus que as escolas criassem um novo tipo de professor: o professor de espantos. Ele não teria programa de ensino, nada disso, seria alguém que diz: “Olha, vejá lá!” – alguém que se espanta e que ensina a gente a se espantar. O olhar de espanto é o olhar da criança, que está sempre vendo o mundo como se fosse a primeira vez. Os gregos antigos tinha uma palavra, ‘thaumazein’, que se referia exatamente à importância desse estado de admiração, de você ficar abobalhado; para eles, é isso o que faz você pensar.

*   *   *

O trecho acima integra o livro de entrevistas Palavras de Poder – Volume 3. Já falei sobre ele aqui no Além (clica aqui pra ver), quando o li o Volume 1 e 2. A última entrevista que fecha esse terceiro volume da série traz a leveza certeira e lúdica de Rubem Alves. Memorável! Vale ver além desse trechim!

Aprendiz

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Há quase um ano atrás, escrevi aqui no Além “Uma Carta de Gratidão”. Era 19 de dezembro de 2011, quando externalizei parte das graças que eu dava naquele meu aniversário de 23 anos. Hoje, dias depois das minhas 24 primaveras e dias antes da chegada de 2013, sinto de escrever novamente.

Sempre senti os efeitos planetários nos dias próximos aos meus aniversários. Mesmo antes de entender sobre assuntos etéreos, digamos assim, eu sentia uma instrospecção e um estado diferente de reflexão, algo que, muita vezes, me levava a uma melancolia juvenil. Hoje, depois de começar a compreender com consciência a caminhada de mim mesma, sinto uma conexão muito mais profunda com este momento. É o universo, os planetas e as estrelas num alinhamento similar ao de quando nasci. E nesse fluxo de energia que emerge e imerge de mim, vários insights e ensinamentos se apresentam com mais intensidade (ou será que eu é que tô conseguindo enxergá-los e ouví-los?).

arvore e euSinto que esse tempo que parece encolhido e apressado é um pedido claro do universo para que nos alinhemos com firmeza e com foco. Não há mais tempo para perder! E se aparentemente perdemos, porque erramos, é hora de olhar para os deslizes como observador e como alguém que se coloca no papel de aprendiz. Assim como diz um dos mestres da minha trajetória, Paulo Freire, aquele que aprende se torna “um real sujeito do saber ensinado”. E não há mesmo como encontrar nosso “real sujeito”, nosso Eu Verdadeiro, sem se colocar como aprendiz, como um grãozinho de areia a ouvir o imenso mar da vida. E, sendo aprendiz, a revolução silenciosa se faz na troca que vai costurando todos os seres: um aprende e ensina, com outro que ensina e aprende, junto com outro que faz o mesmo com outros e com toda a teia, a roda da vida.

E por falar em revolução, em Paulo Freire e na inspiração que recebo dele em relação à “justa ira” e à educação como intervenção no mundo, há uma palavra que retornou para a minha vida com força: a tal da rebeldia. A rebeldia do aprendiz. Se rebelde é aquele que “se rebela contra a autoridade constituída”, que nos rebelemos contra a normose que tanto ilude a nossa sociedade moderna em padrões. Que aprendamos a ser andorinhas, beija-flores e qualquer outro sinônimo para um ser livre e indomável na liberdade, folha a voar na leveza de ser o que se é. E que cada um seja indomável na sua verdade, seja ela qual for. O mundo precisa dos espiritualistas, dos militantes, dos silenciosos, dos que se fazem ouvir, d@s pret@s, d@s branc@s, d@ jovem, d@ velh@, d@ madur@, d@ imatur@, de tod@s! Como aprender se não na unidiversidade?

Diante de tantas transformações pessoais e coletivas, cada vez mais evidentes e visíveis, é importante caminhar com passos firmes e concretos. Cuidar pra não desviar a rota da intuição! A oferta e as oportunidades de passatempos são inúmeras e tentadoras. Mais sabedoria e leveza têm aqueles que não se distraem ou que têm consciência da sua distração. Mas como?? O silêncio é uma importante chave. O silêncio não apenas da voz, mas, e principalmente, o silêncio da mente, da nossa mente que tanto mente. Que possamos ouvir a criança sábia e espontânea que mora dentro de nós. Que possamos deixar de lado a pose de “adulto”, de quem sabe tudo de si, para ver de fato o avesso das nossas máscaras, o verso que nos faz existir, a poesia encantada escrita pela Fonte. A poesia que é cada um de nós!

Key Dias – 24.12.12
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Velh@s, enquanto jovens

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Jovem, arranque pra fora de si o paradoxo da pressa.
Ninguém agarra o que ainda tem longa estrada a atravessar.
Jovem, perceba o que já caminhou para estar diante de ti.
Ninguém volta no tempo em busca das sobras do desperdiçar.
Jovem, ignore as ilusões fugazes que lhe ofertam.
Ninguém conhece a verdade trancafiado no desacordar.
Todavia, jovem, aceite a sua imaturidade sem culpa.
Ninguém vivido o bastante pode dizer que aprendeu sem errar.
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Hand of Baby on Senior Hand

Key Dias – 05.01.12
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A confiança flui

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É preciso decifrar a linha tênue entre a confiança e a expectativa. Apesar de antagônicos, esses dois estados são comumente confundidos entre outros sentimentos e pensamentos que se abrigam na mente humana. É como se suas diferenças se dissolvessem e se misturassem. Separá-las novamente é uma chave.

Expectativa é a dor de rascunhar realidades irreais. Tramar e cansar a mente com anseios egóicos que tentam tirar nossa verdade do fluxo que nos colocou aqui, nesse estado vivencial de SER humano. Expectativa é como uma armadilha invisível que nos ocupa com fragmentos mentais desnecessários. Se entregar a eles é aceitar e provocar o distanciamento de tudo aquilo que tem que vir naturalmente. É correr o risco de se jogar na escuridão da decepção.

Confiar é acreditar no fluir do que precisamos receber e partilhar nessa nossa experiência de SER humano. É acreditar no que queremos, no que focamos, mas sabendo que a vida reserva caminhos que nem ao menos conseguimos imaginar e que muitas, muitas vezes, serão diferentes do que planejamos. Confiar é foco, é calma, é fé, é conexão. Na confiança não há decepção, não há sofrer, pois só nela mergulhamos na presença do viver, na presença da verdade interior, na presença universal, NÃO IMPORTA O QUE ACONTEÇA.

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Key Dias – 12.01.22
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Confiar

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Muitos fatos, situações ou pessoas ganham maior importância para nós de acordo com a energia e atenção que damos a el@s. É claro que existem coisas inerentemente importantes ou que, pelo menos, deveriam ser, como a família, os amigos, o cuidado com a própria saúde, o respeito a si e ao próximo. Por outro lado, certos itens da nossa vida terrena são pautados em escalas de importância que vamos criando com o passar dos anos. É aquela velha história: “priorize as prioridades”. E como as prioridades mudam com o tempo…

Nesse ano de 2011, o mais transformador que tive em meus atuais 22 anos de vida (quase 23, diga-se de passagem), pude vivenciar diversas situações que me colocaram diante de questionamentos do tipo: será que isso realmente me importa? Será que tal pessoa realmente merece tanta atenção e carinho? Será que isso realmente me pertence? Para alguns, as respostas vieram, para outros, não, e para a maioria dos meus questionamentos a resposta foi um simples e pontual: espere.

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Essa tem sido a minha missão atual, saber esperar. Porém, isso não equivale a ficar inerte e apenas aguardar pra ver o que vem adiante. Nada disso. Pelo contrário. Significa continuar a agir, focar, ter alvos certos, saber entender pra onde o fluxo da vida deve seguir. Tudo isso com a calma e a serenidade em entender que coisas acontecerão, mas nem por isso é preciso ansiedade por recebê-las. Pensar demais no que há de vir atrapalha o aproveitamento do que já veio e deve ser vivenciado.

E é nesse presente, no aproveitar o que está conosco, nesse instante que amanhã logo passará, onde devemos trabalhar o foco da nossa atenção sobre onde ou em quem compartilharemos energia (seja no campo físico, mental ou espiritual). Quando percebemos o sutil resultado em energizar algo, ou não, tudo se torna mais fácil de ser compreendido. E nada melhor que o tempo pra mostrar isso. Mas é preciso cuidado: não distribua bons sentimentos e boas energias apenas por esperar o mesmo em troca. Porque se assim for, não será verdadeiro. Mesmo que a semente do bem plantando hoje, com toda energia e atenção, não resulte em bons frutos imediatos, a colheita virá na hora certa e a safra será abundante.


Por falar em saber esperar, nada melhor que uma Oração ao tempo. “Caetanear o que há de bom”…

Publicado no antigo Além em 01.11.11
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