DESAVERSOS (POESIAS)

Esperança

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Minha inquietude é filha da esperança,
esse colo luminoso onde abro os olhos
e vejo como as desnecessidades são menores
que a coragem que transforma.

Já que a vida é um pulsar,
me inquieto com os castelos de mesmices e medos,
carcaças onde habita a crença de que muros de pedra
e orgulho
protegem mais que o amor
e o respeito.

Quem sabe,
essa inquietude esperançosa seja ainda juvenil
ou mesmo inocente.
Pouco importa!
É dela que nasce a poesia metamórfica das borboletas,
a mudança insurgente do agora.

Keyane Dias — janeiro/2018

Foto: @thom_wien
DESAVERSOS (POESIAS)

Entrelinhamente

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Foto: Mariana Cabral. Sertão de Minas Gerais

Sou tão densa quanto a dor
e tão leve quanto o amor,
sou a entrelinha dos versos que pari.

E se o que sou se esconde de mim,
é farejando a palavra que me encontro
no silêncio que precede a poesia.

É a poesia nua feito o chão,
crua feita a água
e lua
feita a paixão que me seduz
para experimentar o gozo
da palavra vivida em verso.

A palavra me fez poeta
para psicografar as sutilezas
do que vivo no mundo.

Keyane Dias — Agosto/2017

DESAVERSOS (POESIAS)

Apuração

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Noite de transcendência no sertão de Minas Gerais – Foto: Paulo Morais

Repara!
Velhas convicções
despedaçaram-se
em um amplo renovo
que te aguarda a romper
a gaiola do medo.

É hora de despir o corpo original,
onde habita a alma intocada
que só você abraça
nas madrugadas em que a luz
descansa no teu sono.

Despidos e úmidos pelo sereno,
lágrima de amor ancestral
que regou a primeira flor,
avistamos nos saberes antigos
a renovação do velho padrão,
que não cabe em mais ninguém.

A valentia para abrir o peito,
apurar o olhar
e abraçar o irmão,
que segue esquecido
de que pode ser quem é,
é a urgência dos dias.

Keyane Dias — Setembro/2017

DESAVERSOS (POESIAS)

Amadurecência

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Nasci querendo ser velha.
Desde menina admirava os cabelos brancos,
as linhas de expressão,
a quietude de quem transmutou-se
e sabe o que realmente importa.

Cansada do fulgor juvenil,
sonhava com as cadeiras de balanço,
o chá dos crepúsculos
e o olhar de quem aprendeu o afinamento
da sagrada relação com o tempo.

Mas é claro que tropecei.
Acaso não é o percorrer da juventude
a matéria-prima da sabedoria anciã?
Sem outro caminho de sentido,
aceitei ser jovem e não saber.

Foi então que a amadurecência chegou,
trazendo a poesia de minha criança
que anseia apenar ser o que é.
Aceitei viver com o pé no chão,
sem perder de vista as estrelas.

Não há inverno sem outono,
nem outono sem verão,
e eu, ainda primavera,
aprendi que a presença dos dias
é quem faz a beleza das idades.

Imagem: Gregory Colbert (Ashes and Snow)

 

DESAVERSOS (POESIAS)

Superfície

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Ilustra: Robyn Chance

De baixo do que penso
está o que sinto.
De baixo do que sinto
está o que sou.

E no fundo…
no fundo estão as sagradas miudezas,
cochichos sinceros
feito conchinhas que deságuam
nas bordas do mar.

Levei tão a sério
a vida que quer brincar.
Mas hoje a vejo na flor
que sublima do fundo
mostrando que é na superfície
o lugar de aflorar.

Key Dias — Agosto de 2017