Entrelinhamente

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Foto: Mariana Cabral. Sertão de Minas Gerais

Sou tão densa quanto a dor
e tão leve quanto o amor,
sou a entrelinha dos versos que pari.

E se o que sou se esconde de mim,
é farejando a palavra que me encontro
no silêncio que precede a poesia.

É a poesia nua feito o chão,
crua feita a água
e lua
feita a paixão que me seduz
para experimentar o gozo
da palavra vivida em verso.

A palavra me fez poeta
para psicografar as sutilezas
do que vivo no mundo.

Keyane Dias — Agosto/2017

Apuração

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Noite de transcendência no sertão de Minas Gerais – Foto: Paulo Morais

Repara!
Velhas convicções
despedaçaram-se
em um amplo renovo
que te aguarda a romper
a gaiola do medo.

É hora de despir o corpo original,
onde habita a alma intocada
que só você abraça
nas madrugadas em que a luz
descansa no teu sono.

Despidos e úmidos pelo sereno,
lágrima de amor ancestral
que regou a primeira flor,
avistamos nos saberes antigos
a renovação do velho padrão,
que não cabe em mais ninguém.

A valentia para abrir o peito,
apurar o olhar
e abraçar o irmão,
que segue esquecido
de que pode ser quem é,
é a urgência dos dias.

Keyane Dias — Setembro/2017

Amadurecência

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Nasci querendo ser velha.
Desde menina admirava os cabelos brancos,
as linhas de expressão,
a quietude de quem transmutou-se
e sabe o que realmente importa.

Cansada do fulgor juvenil,
sonhava com as cadeiras de balanço,
o chá dos crepúsculos
e o olhar de quem aprendeu o afinamento
da sagrada relação com o tempo.

Mas é claro que tropecei.
Acaso não é o percorrer da juventude
a matéria-prima da sabedoria anciã?
Sem outro caminho de sentido,
aceitei ser jovem e não saber.

Foi então que a amadurecência chegou,
trazendo a poesia de minha criança
que anseia apenar ser o que é.
Aceitei viver com o pé no chão,
sem perder de vista as estrelas.

Não há inverno sem outono,
nem outono sem verão,
e eu, ainda primavera,
aprendi que a presença dos dias
é quem faz a beleza das idades.

Imagem: Gregory Colbert (Ashes and Snow)

 

Superfície

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Ilustra: Robyn Chance

De baixo do que penso
está o que sinto.
De baixo do que sinto
está o que sou.

E no fundo…
no fundo estão as sagradas miudezas,
cochichos sinceros
feito conchinhas que deságuam
nas bordas do mar.

Levei tão a sério
a vida que quer brincar.
Mas hoje a vejo na flor
que sublima do fundo
mostrando que é na superfície
o lugar de aflorar.

Key Dias — Agosto de 2017

Ruderal

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Ilustración: Cristina Yépez

Entre ruas de concreto,
que vedam a terra,
e lâmpadas de ilusão,
que encobrem as estrelas,
renascem humanidades
e esperanças.
Nasce a flor,
na rachadura do que é vão,
e dança a vida,
gracejando a certeza
de que a natureza
não sucumbirá à cidade.

Pois a cidade,
ainda que cinza,
é feita de gente
que se transforma.
E a gente,
ainda que esquecida,
tem latente no âmago
a natureza profunda,
a renascença ruderal
de sermos humanos
e divinos.

Key Dias — Junho de 2017

A filosofia do espanto

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Ilustração: Pinzallades al Món

Lauro Henriques Jr.: Quem abre nossa roda de histórias é o poeta Mário Quintana. Ele pergunta: “Que haverá com a lua, que sempre que a gente a olha é com o súbito espanto da primeira vez?

Rubem Alves: Haa, o espanto com a lua. Há poucos dias vivi isso. Fui até a varanda e, de repente, tive aquele assombro: lá estava ela, espantosa no céu. O espanto diante da vida é absolutamente essencial. Eu até já propus que as escolas criassem um novo tipo de professor: o professor de espantos. Ele não teria programa de ensino, nada disso, seria alguém que diz: “Olha, vejá lá!” – alguém que se espanta e que ensina a gente a se espantar. O olhar de espanto é o olhar da criança, que está sempre vendo o mundo como se fosse a primeira vez. Os gregos antigos tinha uma palavra, ‘thaumazein’, que se referia exatamente à importância desse estado de admiração, de você ficar abobalhado; para eles, é isso o que faz você pensar.

*   *   *

O trecho acima integra o livro de entrevistas Palavras de Poder – Volume 3. Já falei sobre ele aqui no Além (clica aqui pra ver), quando o li o Volume 1 e 2. A última entrevista que fecha esse terceiro volume da série traz a leveza certeira e lúdica de Rubem Alves. Memorável! Vale ver além desse trechim!

Aprendiz

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Há quase um ano atrás, escrevi aqui no Além “Uma Carta de Gratidão”. Era 19 de dezembro de 2011, quando externalizei parte das graças que eu dava naquele meu aniversário de 23 anos. Hoje, dias depois das minhas 24 primaveras e dias antes da chegada de 2013, sinto de escrever novamente.

Sempre senti os efeitos planetários nos dias próximos aos meus aniversários. Mesmo antes de entender sobre assuntos etéreos, digamos assim, eu sentia uma instrospecção e um estado diferente de reflexão, algo que, muita vezes, me levava a uma melancolia juvenil. Hoje, depois de começar a compreender com consciência a caminhada de mim mesma, sinto uma conexão muito mais profunda com este momento. É o universo, os planetas e as estrelas num alinhamento similar ao de quando nasci. E nesse fluxo de energia que emerge e imerge de mim, vários insights e ensinamentos se apresentam com mais intensidade (ou será que eu é que tô conseguindo enxergá-los e ouví-los?).

arvore e euSinto que esse tempo que parece encolhido e apressado é um pedido claro do universo para que nos alinhemos com firmeza e com foco. Não há mais tempo para perder! E se aparentemente perdemos, porque erramos, é hora de olhar para os deslizes como observador e como alguém que se coloca no papel de aprendiz. Assim como diz um dos mestres da minha trajetória, Paulo Freire, aquele que aprende se torna “um real sujeito do saber ensinado”. E não há mesmo como encontrar nosso “real sujeito”, nosso Eu Verdadeiro, sem se colocar como aprendiz, como um grãozinho de areia a ouvir o imenso mar da vida. E, sendo aprendiz, a revolução silenciosa se faz na troca que vai costurando todos os seres: um aprende e ensina, com outro que ensina e aprende, junto com outro que faz o mesmo com outros e com toda a teia, a roda da vida.

E por falar em revolução, em Paulo Freire e na inspiração que recebo dele em relação à “justa ira” e à educação como intervenção no mundo, há uma palavra que retornou para a minha vida com força: a tal da rebeldia. A rebeldia do aprendiz. Se rebelde é aquele que “se rebela contra a autoridade constituída”, que nos rebelemos contra a normose que tanto ilude a nossa sociedade moderna em padrões. Que aprendamos a ser andorinhas, beija-flores e qualquer outro sinônimo para um ser livre e indomável na liberdade, folha a voar na leveza de ser o que se é. E que cada um seja indomável na sua verdade, seja ela qual for. O mundo precisa dos espiritualistas, dos militantes, dos silenciosos, dos que se fazem ouvir, d@s pret@s, d@s branc@s, d@ jovem, d@ velh@, d@ madur@, d@ imatur@, de tod@s! Como aprender se não na unidiversidade?

Diante de tantas transformações pessoais e coletivas, cada vez mais evidentes e visíveis, é importante caminhar com passos firmes e concretos. Cuidar pra não desviar a rota da intuição! A oferta e as oportunidades de passatempos são inúmeras e tentadoras. Mais sabedoria e leveza têm aqueles que não se distraem ou que têm consciência da sua distração. Mas como?? O silêncio é uma importante chave. O silêncio não apenas da voz, mas, e principalmente, o silêncio da mente, da nossa mente que tanto mente. Que possamos ouvir a criança sábia e espontânea que mora dentro de nós. Que possamos deixar de lado a pose de “adulto”, de quem sabe tudo de si, para ver de fato o avesso das nossas máscaras, o verso que nos faz existir, a poesia encantada escrita pela Fonte. A poesia que é cada um de nós!

Key Dias – 24.12.12
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