DESAVERSOS (POESIAS)

Lar

Saúde mesmo é ter amor
Dentro
Fora
E lá, onde ninguém vê

E quando a doença
Em ti aparecer
Convoque a presença
Que sustenta teu ser

Pois doença é desatino
Esquessência de si
É o afastamento
De onde a alma quer ir

Mas se tu bem olhar
Sem pressa e sem medo
Verá que a doença
Sempre conta um segredo

Escuta, aceita
E deixa ela ir
Aprendendo a lembrar
De cuidar bem de si

E celebra
A ciência da tua vida
Pois saúde é ser amor
E, com ele, não há partida.

Key Dias
Índia – Fevereiro/2019

DESAVERSOS (POESIAS)

Esperança

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Minha inquietude é filha da esperança,
esse colo luminoso onde abro os olhos
e vejo como as desnecessidades são menores
que a coragem que transforma.

Já que a vida é um pulsar,
me inquieto com os castelos de mesmices e medos,
carcaças onde habita a crença de que muros de pedra
e orgulho
protegem mais que o amor
e o respeito.

Quem sabe,
essa inquietude esperançosa seja ainda juvenil
ou mesmo inocente.
Pouco importa!
É dela que nasce a poesia metamórfica das borboletas,
a mudança insurgente do agora.

Keyane Dias — janeiro/2018

Foto: @thom_wien
DESAVERSOS (POESIAS)

Entrelinhamente

.

Foto: Mariana Cabral. Sertão de Minas Gerais

Sou tão densa quanto a dor
e tão leve quanto o amor,
sou a entrelinha dos versos que pari.

E se o que sou se esconde de mim,
é farejando a palavra que me encontro
no silêncio que precede a poesia.

É a poesia nua feito o chão,
crua feita a água
e lua
feita a paixão que me seduz
para experimentar o gozo
da palavra vivida em verso.

A palavra me fez poeta
para psicografar as sutilezas
do que vivo no mundo.

Keyane Dias — Agosto/2017

DESAVERSOS (POESIAS)

Apuração

.

Noite de transcendência no sertão de Minas Gerais – Foto: Paulo Morais

Repara!
Velhas convicções
despedaçaram-se
em um amplo renovo
que te aguarda a romper
a gaiola do medo.

É hora de despir o corpo original,
onde habita a alma intocada
que só você abraça
nas madrugadas em que a luz
descansa no teu sono.

Despidos e úmidos pelo sereno,
lágrima de amor ancestral
que regou a primeira flor,
avistamos nos saberes antigos
a renovação do velho padrão,
que não cabe em mais ninguém.

A valentia para abrir o peito,
apurar o olhar
e abraçar o irmão,
que segue esquecido
de que pode ser quem é,
é a urgência dos dias.

Keyane Dias — Setembro/2017