ESCRITURAS

Breve cartografia narrativa de Taguá

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62 anos de Tawá Tingá. Barro branco sobre terra vermelha cerratense acobertada de asfalto. A cidade onde nasci é mais jovem que meus avós. Ando pelo mundo sempre lembrando do que Taguá e sua ciganagem me ensinam. E entre seus muitos cantinhos babilônicos, quem não se lembrará do eterno e sempre vivo Lambe-lambe 3 x 4 da Praça do Relógio. Parece até que tá lá desde antes de JK inventar sua grande coisa, debaixo do céu aberto desse Sertão do Brasil Central.

Taguá é assim, além do tempo linear dos planos pilotos. Revolucionária desde que nasceu, com suas manifestações populares de lavadeiras e trabalhadores que construíram muito mais que a capital. Celebrar Taguá é celebrar liberdades. É dançar o meio do caminho, onde tudo acontece. É viver nossas praças, feiras itinerantes e suas gentes. É relembrar nossos extintos cinemas de rua exorcizados a assassinados. Cine Lara, Cine Paranoá, Praça do D.I, do Bicalho, CNF, Dimas, Matias, Facita. Vai lá na J, na L ou na M. Também tem praça, trapaças e samambaias penduradas perto do portão. Se os bancos da Pracinha da 30 na J falassem, eu tava no sal. Anos 2000… onde o rock’n roll ainda era escola.

Penso que se desse, tudo seria na praça ou da praça em Taguá. Até Teatro da Praça tem. Será que ainda tem? A gente nunca sabe se ele tá funcionando… Mas segue resistindo desde que Rola Pedra e Caixa D’água ainda viviam entre nós, abrigando legiões urbanas fugidas ou expulsas de Bras-ilha. Machado de Assis faz morada ali na biblioteca do teatro, onde também tem CEMEIT, Festival Taguatinga de Cinema, Biblio Braile, Academia Taguatinguense de Letras e Sahaja Yoga vez em quando. É… Taguá também tem seus imortais e suas transcendências.

E o que falar da Avenida Hélio Prates, cortando aquela selva urbana inimaginável que conecta o finzinho do jovem Taguaparque, a Flona, Taguacenter, Feira dos Goianos, G, H, I, Cemitério e Cei. Dobra pra esquerda, tem o Parque do Cortado. Matei muita aula lá. Mais adiante, Saburo Onoyama e Kireibara, santuários verdes nipônicos que abriram trilha pro Sítio Geranium e suas santas agroflorestas. Que Oxum abençoe nosso Córrego Taguatinga!

Fazendo cruz, tem Via Estádio, ao lado da rodoviária onde eu comprava Tele Sena pra minha vó. A rodô original sumiu, foi enterrada pelo gigante complexo de prédios do Buritinga, novo Palácio do Buriti nunca inaugurado, ocupado de vento e dúvidas obscuras. E a rodô temporária segue sendo temporariamente permanente e pequena demais pra ciganagem taguatinguense, goiana, mineira, nordestina, sudestina, nortista, brasileira.

É por ali mesmo onde começa a Chaparral, fronteira estigmatizada por quem não sabe o que diz. Cresci lá até os 5 de idade, entre Taguá e Cei, ouvindo RAPs e com direito a foto em cima do burrinho pintado de preto e branco. Ninguém poderá dizer que não tem zebra por aqui. Passa dos dedos do corpo o tanto de casa que meu vô construiu na Chapa. Seu Mané da 14. Só perguntar por ele, que todos lembrarão com saudade.

Seguindo dali mesmo, pertinho do Metrô, ou você desemboca no centro de Taguá e toda sua zona, ou você de novo vai parar na Cei. É que Taguatinga, Ceilândia e Samambaia são irmãs do mesmo ventre de sonhos, onde retirantes e mambembes fizeram morada pra construir suas liberdades, ainda que o plano não fosse esse. Me fiz gente nelas três, batendo pernas incansáveis por Taguatinga, com aquela sempre breve e irresistível parada no Alameda Shopping pra fazer xixi. Quem nunca?

Mas se lá da Via Estádio, em vez de seguir pra Cei, você cruzar a ponte, tem mais veia aberta nas Avenidas Primavera e Boca da Mata, unindo as mãos de Taguá e Samamba numa ciranda sem fim. É por elas que você chega na Sul, onde um tal Beco da Cultura faz qualquer fascista chupar o dedo ou abrir o coração. Santo Beco, Mercado Sul de “antenas sempre ligadas na frequência dos malucos”, como diz Mestre Virgílio. Mas, como ser normal nunca foi o nosso plano piloto: 62 vivas para o Beco e seus tijolos Athos Bulcão extraviados. 62 vivas para seus mamulengos, cocos, capoeiras, teatros, artesanatos e vidas.

E é só falar em Beco que o novelo vai desenrolando… 62 vivas pra Semana de Arte e Cultura de Taguatinga, Ponto de Cultura Invenção Brasileira, Tribos das Artes, Motirô, Mamãe Taguá, Bar do Careca, Cervejaria Caixa D’Água, Butiquim Blues, Blues Pub, Tucanos Bar, Clube dos 200, Galeria Olho de Águia, Batalhão das Artes…

Não é só o famoso comércio e os múltiplos serviços que fazem Taguá pulsar, engarrafar e costurar vidas. Arte e revolução são o prana e a saúde dessa cidade metropolitanamente subversiva. É como digo em um poema: “A cidade, ainda que cinza, é feita de gente que se transforma…”

5 de junho de 2020, lua cheia em sagitário com eclipse

ESCRITURAS

Folia

Dia desses, tava aqui na cidade de Samambaia e soube que a Folia de Reis e Dança de Roda Menino Jesus de Praga, de Brazlândia, viria se apresentar. Corri pra lá. Me encantei e matei a saudade dessa linda manifestação que toma meu coração. Meses atrás, tava eu no giro da Folia do Ribeirão de Areia (Chapada Gapucha – MG), compartilhando vida, fé e amor com o povo que mantém viva e pulsante as tradições nos interiores desse nosso Brasil. Com a fé mística e potente que louva Jesus, a Virgem Maria, os Santos Reis e à Vida de um jeito genuíno e muito além de dogmas. Toda vez que vejo e ouço a folia, relembro do que não lembro, dos inúmeros reisados que meus antepassados presenciaram pelos sertões do Nordeste. Às folias, versei:

Perfilada em sua fé
Vai cantando a folia
Louvando Santos Reis
Junto com Virgem Maria
Erguendo sua bandeira
E a cultura brasileira
Estandarte de alegria

No ponteio da viola
Cantador faz oração
E a batida do tambor
Pulsa fé no coração
O pandeiro então repica
E a sanfona multiplica
A força da tradição

E vem junto da Folia
Logo após a louvação
Verso e dança de roda
Canto de celebração
A senhora mexe a saia
E o passo que não caia
Pra ter continuação

A folia também tem
Palhaço caminhador
Para abrir o cortejo
Com graça e com louvor
Mascarado sem frescura
É antiga essa figura
De mistério encantador

É tão grande alegria
A folia encontrar
E junto aos devotos
Nossa fé compartilhar
Sentindo que a cultura
É do povo a sua cura
É seu feito salutar.

Keyane Dias — 05 de maio de 2017

Foto: Davi Mello

ESCRITURAS

Desaversos, poesias autorais pra caminhar no mundo…

Que eu seja lida nas entrelinhas do que escrevo
Assim como no silêncio do que falo.

Salve, gente!

Depois de alguns anos de versos e prosas aqui no Além, lancei meu primeiro livreto de poesias autorais. DESAVERSO foi feito de forma artesanal e independente, capa serigrafada, com licença creative comons (pode copiar e distribuir à vontade). Essa primeira edição foi impressa em abril de 2015 e já tá girando pelo Brasil, após uma curta temporada que passei em Minas Gerais, onde o livreto circulou na mão de amig@s e caminhantes.

Estou vendendo cada exemplar por R$ 10. Se alguém quiser, entra em contato que a gente combina. Também deixei alguns para vender no Estúdio Gunga, no Mercado Sul de Taguatinga. O livreto tem ainda a colaboração de ilustrador@s querid@s que cederam gentilmente suas criações: Nara Oliveira, Sirlanney, Jorge Victtor e Pedro Sangeon.

Como diz a querida Cora:

“Faz da tua vida mesquinha
um poema.
E viverás no coração dos jovens
e na memória das gerações que hão de vir.
Esta fonte é para uso de todos os sedentos.
Toma a tua parte…”

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