Olhos Cerrados

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Mais uma da gaveta. Sobre a seca que assusta nosso Cerrado, sobre os corações secos que secam o molhado… Sobre a resiliência, desafio cotidiano dos cerratenses, sejam eles povo planta, povo bicho, povo gente.

Foto: Mariana Cabral. Sertão cerrado de Minas Gerais

Do olho d’água,
a esperança,
veredas que geram
buritis a crescer.
São olhos abertos,
na busca de ver,
o sertão cerratense
a sobreviver.

Dos olhos cerrados,
a ignorância,
criando o fim
do que fingem não ver.
A monocultura
da falta de ser,
pois preferem aquilo
que chamam de ter.

Será que o olho d’água
não chora de dor,
por ver tanta mata
que já se acabou?

Ou será que a esperança
é quem não vai findar?
Pois os olhos cerrados
também podem chorar.

Key Dias — Janeiro de 2017

Geralda

Pelo sertão dos Gerais, histórias de mulheres guerreiras brotam de veredas, de capoeiras, de areias. Histórias de um rio de vidas que se embrenha na seca sertaneja, abundante, vigorosa, sempre-viva, do seu jeito. Esses versos, nem de longe suficientes, é uma homenagem a uma dessas mulheres, Dona Geralda, mãe de coragem, que gera, contadora de histórias. Geralda, geral como os gerais. Matriarca de uma grande fazenda chamada Menino.

1.
Quando a vista se apaga,
e as pernas se cansam,
é a memória que a faz caminhar.

2.
Em casa antiga
De parede descascada
A senhora faz morada
Onde guarda o recordar
Mãe de coragem
Tem no fio da memória
A estrada da sua história
O eterno caminhar.

Keyane Dias — 09.07.15

Sertão do Brasil Central

[Ao sertão cerrado de Minas Gerais. Poesia vencedora do Concurso de Poesia do VII Encontro do Bonito – Formosa (GO)]

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Já diria o Rosa: “O sertão é do tamanho do mundo…” Foto: Mariana Cabral

Cerrado é senhor velho
Profunda sabedoria
Onde resiste flor valente
Sempre-viva na estia

Veredas, chapadões
Sertão do Brasil Central
Céu do tamanho do mundo
Sem princípio, nem final

Morada de berço d’água
Clima seco, ora chuvoso
Foi lá que disse o Rosa
“Viver é muito perigoso”

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Seu Argemiro, um mestre caminhante das matas do Cerrado. Foto: Mariana Cabral

Quem diz que o Cerrado
É mata morta, sem feitio
Não conhece sua cultura
Nem o povo que a pariu

Entre calango e carcará
De pé, em movimento
Se embrenha a sua gente
Na feitura do seu tempo

Benzedeiras, foliões
Divino, Reis vão louvar
Lundu e curralera
Só vê quem lá está

Buriti dá tudo um pouco
Sabor, beleza, proteção
Pequi, único gosto
Do tingui se faz sabão

Sozinha, vendo tudo
Caliandra sempre está
Barbatimão, forte remédio
Da medicina popular

Cura do mato, de tradição
Senhora erveira sabe usar
Vão das Almas, dos Buracos
Quilombo também tem lá

A essência dessas terras
É como aboio de vaqueiro
Vem da alma desse povo
Cerratense, brasileiro.

Keyane Dias
agosto de 2014 – Taguatinga (DF)

Ser[tão] Cerrado

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“A vida da gente dá sete volta – se diz. A vida nem é da gente…” – Foto: Vinicius Mazzon


Ainda escuto pulsante

a folia.
Vozes velhas, violadas,
sabedoria.

A benza com ramo vivo,
eu sinto.
Tão ser grande esse cerrado,
l
abirinto.

“Poeira dentro da gente”
comi.
Onde nasce o olho d’água,
eu vi:

Mistérios de Diadorim,
a essência.
Como a força dessas matas:
resiliência.

Sertão que não nos deixa
sozinhos.
Travessia de si, de nós:
caminhos.

[poesia dedicada ao cerrado dos Gerais, inspirada no Caminho do Sertão]

Keyane Dias
06.08.14 – Taguatinga (DF)


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Avivamento

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Clássica cena do filme La Belle Verte

Clássica cena do filme La Belle Verte

Conheço o que vivo
Semeio o que quero
E no fazer do caminho
Cansei do que espero.

O que é a vida,
Senão o agora?
Pra quem caminha presente
Não existe demora.

Cada encontro, um irmão
Cada troca, boa saudade
Não há pesar no desapego
De quem vive com verdade.

Aprendi que o amor
Caminha com a liberdade
Em leves passos firmes
De quem tem fé e coragem.

Key Dias – 26.05.13

* * *

Poesia foi inspirada na Lua Cheia de Maio e em “pessoas de verdade”. Trouxe lembranças de “La Belle Verte”, filme que marcou minha caminhada:


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Aquieta-te

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Hoje, a noite fala comigo.
Ela diz: “aquieta-te”.
Escondida, a minguante Lua me mostra o valor do recolher-se
E a brisa sutil de um setembro do Cerrado sussurra em minha pele:
“Descansa em ti”.
Tudo está calmo, até mesmo a ebulição da cidade
E os olhares passageiros a me encontrar.
Enquanto a luz das estrelas me mostra o fim do inverno,
Os ipês amarelos brilham como mensageiros da Revolução das Flores.
Logo, o florescer reinará.
Logo, a Primavera dará luz a suas cores.
Mas no lento fim do ciclo invernal,
A presente noite continua a dizer: “aquieta teu ser”.
Escuto-a.
E sinto que a serenidade de hoje será meu alento para o dançar de amanhã,
Junto às flores.

Key Dias – 13.09.12

sagrado,

Caminhos no cerrado

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Eu caminhava.
E cada passo que eu dava acariciava o Cerrado, pele seca e fértil da Mãe Terra
Meus pés eram dançarinos que se moviam ao toque sutil do coração de Gaia
Enquanto ela me mostrava as veredas de sua superfície
Mas ao andar, parei, senti e vi que não há superfície em Gaia
Tudo que se mostra sobre ela vem de raízes profundas
Vem do sangue que nos aleita
O sangue se mostra na flor vermelha, a jóia* do cerrado
Se mostra no ciclo do feminino e em toda a criação
Quando eu caminhava, sentia que pisava sobre algo maior
Naquele momento eu não era mais eu. Eu era o Todo
Por isso, eu não caminhava
EU CAMINHO

arvores raizes

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Key Dias – 31.0712
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