A velha mítica

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“A avó que já aprendeu muito sabe que tornar-se mais sábia é o território de ‘La Señora Destina’, a velha Avó Destino. Escolher tornar-se mais sábia significa sempre escolher aprender de novo. Independente da idade, condição ou situação, o espírito da avó significa ensinar que lutar para crescer em sabedoria e reformular e criar a vida nova são atos de inteligência.
[…]
As ferramentas mágicas que a avó arquetípica usa para a transformação não mudam há milhares de anos. A mesa da cozinha. A luz do lampião. Uma única vela. A música. O ritual. O insigth. A intuição. A sopa. O chá. A história. A conversa. O longo passeio. A confissão. A mão amorosa. O sorriso brincalhão. A sensualidade bem resolvida. O senso de humor malicioso. A capacidade de examinar os outros e ler sua alma. A palavra gentil. O provérbio. O coração atento. A perspicácia para, quando necessário, proporcionar aos outros a experiência angustiante do ‘olhar’.

Nesses tempos de grandes transformações, que uma mulher tenha tanto conhecimento quanto queira ter, que haja de acordo e que deixe isso transparecer.”

Trecho de A Ciranda das Mulheres Sábias, de Clarissa Pinkola Estés.

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Publicado no antigo Além em 14.12.12
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A dádiva do ventre

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Dedico essa poesia a todas as mães. Guerreiras agraciadas com a dádiva de parir a vida. Em especial, a minha mana Mariana Almeida, Senhora Verde, a quem pude acompanhar de perto toda a gestação. Dedico também à minha mãe, minhas avós, tias, primas e todas as mamães. E a mim. Porque sempre senti o ninar batendo no meu peito!

Dádiva de mulher
Pra quem o bem quer
Talvez nem ela saiba
O quão forte sua alma é

Afago de jovem
No peito da mãe
Sabedoria de velha
Que o amor compõe

Não temas
Não olhe pra trás
O que você já viveu
Não precisa mais

Olhar curioso
Pro mistério da vida
A história recomeça
Nela você foi parida

Abraça seu anjo e confia
Abençoa seu ventre e cante
Sustenta a missão e sorria
É fértil o passo adiante.

Key Dias – 30.12.12

Imagem: Amanda Greavette

Imagem: Amanda Greavette

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E ninguém tem o mapa da alma da mulher

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Quando comecei a ler Mulheres que Correm com os Lobos, da psicóloga junguiana Clarissa Pinkola Estés, cada capítulo lido se aplicava exatamente ao momento que eu vivia. Não é exagero e nem viagem, realmente aconteceu. Comprei então A Ciranda das Mulheres Sábias e, mais uma vez, me deparei com palavras que muito se alinham à minha forma de pensar sobre alguns aspectos do incosciente. Muitas eu mesma já havia compreendido e encontrado em meus subterrâneos, nos bosques que vez ou outra visito na minha alma de mulher. Alma, que como a Clarissa também descreve, muito herdou por essas linhas do tempo:

“Em algum ponto na sua genealogia há pessoas semelhantes àquelas sobre as quais eu vou falar. Você é a herdeira. Mesmo que não as tenha conhecido, que nunca tenha se encontrado com elas, suas ancianas, suas antepassadas, existem. Todas nós pertencemos a uma linhagem longuíssima de pessoas que se tornaram lanternas luminosas a balançar na escuridão, iluminando os próprios caminhos e os passos de outras. Elas conseguiram isso por meio da decisão de não desistir, por suas exigências de que o outros sumissem da sua frente, por sua atitude previdente de esperar até que o outro não estivesse olhando, pela sabedoria de ser como a água e descobrir como passar pelas menores fendas ou por sua tranquila determinação de abaixar a cabeça e simplesmente por um pé na frente do outro até conseguir chegar aonde quer.

Suas luzes continuam a oscilar no escuro… através de nós… pois, com uma única tirinha de palha, podemos ascender nosso fogo a partir do fogo delas… ter inspirações a partir das suas inspirações. Nós somos as herdeiras. Desse modo, nós também aprendemos a passar oscilantes pela escuridão. Uma mulher assim iluminada não consegue encontrar o próprio caminho à luz de uma vela ou à luz das estrelas, sem também lançar luz para as outras.”

A Clarissa é mesmo incrível. Suas palavras são certeiras, mas ela apenas impulsiona mulheres mundo à fora a buscar aquilo que só elas mesmas sabem onde está. Como disse sabiamente o querido Zé Ramalho, “ninguém tem o mapa da alma da mulher”.

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Key – 25.01.12
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