À mão

Escrevo à mão,
ornada com linhas de histórias oraculares,
marcas de minha gênese que sonho todo dia
em recordar.

Escrevo à mão,
a mesma com a qual aprendi a me levantar
no tombo do primeiro passo.

Escrevo com a mão da filha, da mãe e da avó.
Escrevo com o intento daquelas que contaram
a quem contou à senhora que me contou
que ‘velho é o mundo’.

Keyane Dias — 20.11.2016

Ilustração: Juliana de Castro Tonalezzi

Crônicas de um útero #1: Quando dói

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Hoje sangrei de novo, como em todo mês. Mas sangrei com dor… Ainda não aprendi a liberar plenamente as memórias que carrego. Algumas são dos meus próprios tropeços de dias atrás, daquilo que não digeri pelo alimentar dos ‘seis sentidos’ do corpo em que habito. Outras são de vidas passadas ou dos ventres que me geraram na teia humana de existir.

Mãe, vós, bisas, tatas… Úteros que venceram muitas batalhas na vereda da re-existência feminina. Merecem reverência! Mas a dor, que ainda vem, traz histórias e inconsciências não curadas, pedindo constelações de coragem para desatar os nós que ainda restam e que não me pertencem se eu deixar ir. É essa a sina. Cada geração tem a sua responsabilidade. Que eu saiba honrar o caminho feito e embelezar minha posteridade que ainda não veio.

Ilustra: Meraki Labbe

Dizem que os seres humanos tem um só coração. Evidência comprovada cientificamente. Mas, às vezes, ou quase sempre, me sinto como um segundo coração da mulher que me carrega. Um coração que ensaia a vida todo o mês e que bate no pulsar da Lua e das ondas das águas femininas que sentem e nutrem o mundo com a sensibilidade da flor.

Sim! Sou mesmo um coração, um coração que carrega a memória do mundo! E foi a ciência que comprovou isso também. Quando uma bebê fêmea é fecundada, ela se desenvolve e nasce com os milhares de óvulos do seu pequeno ventre que irá madurar e que ficam bem ali, no meu irmão ovário.  Diferentemente dos homens, que geram seus espermas só depois de grandinhos, na puberdade. As fêmeas já nascem com a semente memorial da vida. E ainda duvidam da nossa [in]tuição…

É. A memória do útero é a memória do mundo. Quando minha mais antiga antepassada humana nasceu, já carregava no seu ventre os óvulos que geraram suas descendentes. De um deles eu vim, das sucessivas ovulações que deram continuidade à vida! E é assim na ancestralidade de todos nós. Como a mulher que me carrega falou certa vez, “mesmo que alguns se esqueçam, todos beberam do sangue do ventre de suas mães”.

Imagine, então, quanta coisa habita em nós, úteros! Há uma floresta descomunal de fertilidade mergulhada nesse vazio que é cheio de encantações. E, apesar da dor que vem para curar a alma que me encarna, tenho dado conta! Funciono muito bem e gero a força da Terra que aceitou, com humilde entrega e compaixão, acolher a humanidade.

Sou sim um coração de sensível força, renascente, antigo, intuitivo e preciso. E a dor, que ainda sinto, é apenas memória querendo transcender e provar a liberdade de ser flor.

— Key Dias – 03.07.17

A velha mítica

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“A avó que já aprendeu muito sabe que tornar-se mais sábia é o território de ‘La Señora Destina’, a velha Avó Destino. Escolher tornar-se mais sábia significa sempre escolher aprender de novo. Independente da idade, condição ou situação, o espírito da avó significa ensinar que lutar para crescer em sabedoria e reformular e criar a vida nova são atos de inteligência.
[…]
As ferramentas mágicas que a avó arquetípica usa para a transformação não mudam há milhares de anos. A mesa da cozinha. A luz do lampião. Uma única vela. A música. O ritual. O insigth. A intuição. A sopa. O chá. A história. A conversa. O longo passeio. A confissão. A mão amorosa. O sorriso brincalhão. A sensualidade bem resolvida. O senso de humor malicioso. A capacidade de examinar os outros e ler sua alma. A palavra gentil. O provérbio. O coração atento. A perspicácia para, quando necessário, proporcionar aos outros a experiência angustiante do ‘olhar’.

Nesses tempos de grandes transformações, que uma mulher tenha tanto conhecimento quanto queira ter, que haja de acordo e que deixe isso transparecer.”

Trecho de A Ciranda das Mulheres Sábias, de Clarissa Pinkola Estés.

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Publicado no antigo Além em 14.12.12
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A dádiva do ventre

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Dedico essa poesia a todas as mães. Guerreiras agraciadas com a dádiva de parir a vida. Em especial, a minha mana Mariana Almeida, Senhora Verde, a quem pude acompanhar de perto toda a gestação. Dedico também à minha mãe, minhas avós, tias, primas e todas as mamães. E a mim. Porque sempre senti o ninar batendo no meu peito!

Dádiva de mulher
Pra quem o bem quer
Talvez nem ela saiba
O quão forte sua alma é

Afago de jovem
No peito da mãe
Sabedoria de velha
Que o amor compõe

Não temas
Não olhe pra trás
O que você já viveu
Não precisa mais

Olhar curioso
Pro mistério da vida
A história recomeça
Nela você foi parida

Abraça seu anjo e confia
Abençoa seu ventre e cante
Sustenta a missão e sorria
É fértil o passo adiante.

Key Dias – 30.12.12

Imagem: Amanda Greavette

Imagem: Amanda Greavette

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E ninguém tem o mapa da alma da mulher

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Quando comecei a ler Mulheres que Correm com os Lobos, da psicóloga junguiana Clarissa Pinkola Estés, cada capítulo lido se aplicava exatamente ao momento que eu vivia. Não é exagero e nem viagem, realmente aconteceu. Comprei então A Ciranda das Mulheres Sábias e, mais uma vez, me deparei com palavras que muito se alinham à minha forma de pensar sobre alguns aspectos do incosciente. Muitas eu mesma já havia compreendido e encontrado em meus subterrâneos, nos bosques que vez ou outra visito na minha alma de mulher. Alma, que como a Clarissa também descreve, muito herdou por essas linhas do tempo:

“Em algum ponto na sua genealogia há pessoas semelhantes àquelas sobre as quais eu vou falar. Você é a herdeira. Mesmo que não as tenha conhecido, que nunca tenha se encontrado com elas, suas ancianas, suas antepassadas, existem. Todas nós pertencemos a uma linhagem longuíssima de pessoas que se tornaram lanternas luminosas a balançar na escuridão, iluminando os próprios caminhos e os passos de outras. Elas conseguiram isso por meio da decisão de não desistir, por suas exigências de que o outros sumissem da sua frente, por sua atitude previdente de esperar até que o outro não estivesse olhando, pela sabedoria de ser como a água e descobrir como passar pelas menores fendas ou por sua tranquila determinação de abaixar a cabeça e simplesmente por um pé na frente do outro até conseguir chegar aonde quer.

Suas luzes continuam a oscilar no escuro… através de nós… pois, com uma única tirinha de palha, podemos ascender nosso fogo a partir do fogo delas… ter inspirações a partir das suas inspirações. Nós somos as herdeiras. Desse modo, nós também aprendemos a passar oscilantes pela escuridão. Uma mulher assim iluminada não consegue encontrar o próprio caminho à luz de uma vela ou à luz das estrelas, sem também lançar luz para as outras.”

A Clarissa é mesmo incrível. Suas palavras são certeiras, mas ela apenas impulsiona mulheres mundo à fora a buscar aquilo que só elas mesmas sabem onde está. Como disse sabiamente o querido Zé Ramalho, “ninguém tem o mapa da alma da mulher”.

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Key – 25.01.12
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