Calçadas literárias

.
Desde as minhas andanças juvenis do tempo em que eu matava aula, havia um livro no meio do caminho. E antes mesmo de eu andar por ali, as calçadas do Teatro da Praça de Taguatinga já serviam de prateleiras literárias.

(Por Key Dias, escrita em 05.09.11.
Fotos: Gabryelle Gadêlha
)

sebo1

Oito anos depois do primeiro exemplar vendido, cerca de 300 pessoas passam todos os dias pelo sebo de rua mais antigo e tradicional de Taguatinga (DF). Ao lado do Complexo Cultural Teatro da Praça, onde está a Biblioteca Pública Machado de Assis, o baiano José Everaldo da Silva abastece todos os dias uma kombi com parte das centenas de livros usados que possui. Por lá tem de tudo, da filosofia de Nietzsche a apostilas para concursos, de livros cabalísticos a didáticos, bestsellers adolescentes, quadrinhos, Machado de Assis, Cecília Meireles, Garcia Márquez, entre outros.

“O ditado diz que brasileiro não lê, mas eu contesto isso todo dia”, comenta Everaldo ao ressaltar a diversidade de pessoas que atende diariamente. Poucos minutos por perto é suficiente para comprovar que a rotatividade de compradores e curiosos não para, assim como os títulos que são trocados e vendidos, com preços a partir de R$ 1. “Tenho clientes antigos que vêm aqui toda semana ver as novidades. O ‘livro de rua’ atrai as pessoas muito mais que os de loja”.

sebo2 Continuar lendo

Manual do Herói

.
Quer entender mais sobre seu corpo, reeducar seus hábitos alimentares, sentir-se disposto e integrar formas saudáveis de bem-estar físico, mental e, consequentemente, espiritual? Bom, não sei você, mas eu quero! O problema é que muitas vezes nos são receitadas dietas e remédios que em vez de ajudar, pioram. Qualquer pessoa com o mínimo de sensibilidade de observação sabe que a medicina ocidental tem lá sua importância, mas tem lá sua culpa, também. Eu, de fato, já me cansei de (des)atendimentos.

Os hospitais estão cheios de médicos [técnicos] receitando e receitando e receitando métodos paliativos, que buscam freiar um sintoma, gerando outro. Médicos que muitas vezes nem chegam a te examinar, só perguntam: “E aí, o que você tem?”. E lá vem receita, receita pro sintoma. Claro que não são todos. Mas eu, como uma usuária do Sistema Único de Saúde, já presenciei isso inúmeras vezes, até mesmo em consultas de hospitais particulares.

Manual_Heroi

Não vou me prolongar nesse assunto pra não falar besteira, já que sou leiga. O que quero é indicar a leitura do livro Manual do Herói – ou a filosofia chinesa na cozinha, da autora Sonia Hirsch. Comecei a ler por indicação de uma amiga para me interar sobre assunto por questões profissionais, mas, logo de cara, percebi que teria que ter esse livro na “cabeceira”. Como diz no site da Editora Correcotia, o Manual do Herói “coloca ao alcance de leigos e estudiosos os conhecimentos básicos da medicina e da dietética chinesas… ultrapassa o conceito de alimentação natural e entra nas questões mais profundas da alimentação”.

E entra mesmo. Nada de receitas de drogas e regras chatas e técnicas que dão crises de ansiedade. Nada disso! Com uma linguagem que escorrega nos olhos, o livro apresenta uma síntese da filosofia holística que os chineses desenvolveram em relação à alimentação, a fim de prevenir e equilibrar o organismo, evitando assim desarmonias que geram o que chamamos de doença.

Alimentação, órgãos, energia vital, sangue, respiração. Ying e Yang. Entender os processos internos e externos do corpo é a chave para que nos livremos das receitas paliativas do dia a dia. Não é à toa que Drogaria se chama Drogaria, né? Sei que não é fácil trocar a “medicina da doença” por uma “medicina da saúde”, mas mudanças de hábito são um bom começo. E a leitura desse livro também!!

Vale assistir a entrevista com a autora, Sonia Hirsch, no Provocações. Mais uma com o velho Abujamra.

Publicado no antigo Além em 11.01.12
.

E ninguém tem o mapa da alma da mulher

.
Quando comecei a ler Mulheres que Correm com os Lobos, da psicóloga junguiana Clarissa Pinkola Estés, cada capítulo lido se aplicava exatamente ao momento que eu vivia. Não é exagero e nem viagem, realmente aconteceu. Comprei então A Ciranda das Mulheres Sábias e, mais uma vez, me deparei com palavras que muito se alinham à minha forma de pensar sobre alguns aspectos do incosciente. Muitas eu mesma já havia compreendido e encontrado em meus subterrâneos, nos bosques que vez ou outra visito na minha alma de mulher. Alma, que como a Clarissa também descreve, muito herdou por essas linhas do tempo:

“Em algum ponto na sua genealogia há pessoas semelhantes àquelas sobre as quais eu vou falar. Você é a herdeira. Mesmo que não as tenha conhecido, que nunca tenha se encontrado com elas, suas ancianas, suas antepassadas, existem. Todas nós pertencemos a uma linhagem longuíssima de pessoas que se tornaram lanternas luminosas a balançar na escuridão, iluminando os próprios caminhos e os passos de outras. Elas conseguiram isso por meio da decisão de não desistir, por suas exigências de que o outros sumissem da sua frente, por sua atitude previdente de esperar até que o outro não estivesse olhando, pela sabedoria de ser como a água e descobrir como passar pelas menores fendas ou por sua tranquila determinação de abaixar a cabeça e simplesmente por um pé na frente do outro até conseguir chegar aonde quer.

Suas luzes continuam a oscilar no escuro… através de nós… pois, com uma única tirinha de palha, podemos ascender nosso fogo a partir do fogo delas… ter inspirações a partir das suas inspirações. Nós somos as herdeiras. Desse modo, nós também aprendemos a passar oscilantes pela escuridão. Uma mulher assim iluminada não consegue encontrar o próprio caminho à luz de uma vela ou à luz das estrelas, sem também lançar luz para as outras.”

A Clarissa é mesmo incrível. Suas palavras são certeiras, mas ela apenas impulsiona mulheres mundo à fora a buscar aquilo que só elas mesmas sabem onde está. Como disse sabiamente o querido Zé Ramalho, “ninguém tem o mapa da alma da mulher”.

plantar

Key – 25.01.12
.

Entrevistas de poder

. “Devemos partir de uma concreta e correta compreensão do ser humano. Nós somos fruto de um processo de evolução que já tem 13,7 bilhões de anos. O Universo foi se expandindo, se autocriando e se auto-organizando, gestando cada vez mais complexidade, até, enfim, se darem as condições de emergência da vida. Nós somos um subcapítulo da vida, como vida consciente, inteligente e amante. Somos parte desse todo. Mais concretamente, somos a parte consciente e inteligente da Terra. Somos mais que filhos e filhas da Terra; somos a própria Terra em seu momento de sensibilidade, inteligência, amor, cuidado e espiritualidade. Por isso, a palavra homem vem de húmus, que significa “terra fecundada”. Nós pertencemos à natureza. Juntos, formamos uma unidade.”Leonardo Boff

“Apenas a experiência do autoconhecimento dá subsídios para que a pessoa possa distinguir quais vozes estão na diretriz da sua psique. Quem está no trono dessa consciência? São vozes de cobranças sociais, ecos de comandos paternos arraigados na mente? Ou são vozes da sua essência, clamores legítimos da sua alma? Todos nós temos que responder a essas questões. Para isso, é imprescindível fazermos um trabalho de realinhamento interno, por meio de uma terapia, de uma busca espiritual, da meditação, da arte. Há várias formas, todas voltadas para a criação de uma intencionalidade positiva, um estado de presença que nos ajuda a transformar nosso cotidiano num campo de realizações de tudo o que é bom e próspero. A humanidade é justamente essa alquimia de ser constante depuração, para, um dia, manifestar a sua essência, que é amor, inclusão e totalidade.” Chandra Lacombe

Pode soar um paradoxo, mas as grandes cidades são espaços maravilhosos para o aprendizado da presença, da paciência, pois o treinamento é incessante. Somos instigados o tempo todo a situações que exigem nosso retorno ao eixo do equilíbrio. Caso contrário, entraremos na confusão, na briga, no desacato. Uma coisa importante é exercitar o olhar, a observação. (…) Em outras palavras, não brigue com a realidade, querendo mudar as circunstâncias – saiba adequar-se a elas. E vamos com calma, observando, pois o que importa é o que está aqui, afinal, nem sei se vou chegar lá.” – Monja Cohen

* * *

palavras_de_poderSão reflexões como essas que o jornalista mineiro Lauro Henriques Jr. conseguiu extrair da mente “de grandes nomes da espiritualidade e do autoconhecimento”. Em seus livros Palavras de Poder – Volume Brasil e Volume Mundo, lançados em julho de 2011, Lauro apresenta entrevistas profundas e dinâmicas com 26 personalidades do campo espiritual de diversas linhas.

Comecei a ler o Volume Brasil ontem, dentro do ônibus, e a cada página lida, em meio à superlotação e ao trânsito engarrafado, eu soltava um sorrisinho tímido, daqueles que dizem: “esse livro tá falando comigo”. Foi uma hora de viagem e uma hora de diálogo entre os entrevistados e eu.

Em formato de entrevista, a leitura fica bem fácil e nada consativa, além de mostrar diferentes visões de mundo, que dialogam com unidade. Boa pedida para um primeiro contato com o tema do autoconhecimento e também para quem já tem uma busca espiritual definida e quer conhecer novas visões.

Quem quiser saber mais, segue a primeira parte da recém entrevista com Lauro Henriques Jr. no Provocações.

Publicado no antigo Além em 09.11.11 .