A tradição cultural maranhense e o Daime

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No início de 2011, guiada por uma corrente de encontros e sincronicidades, conheci a Ayahuasca. Meu primeiro contato com essa medicina sagrada da floresta veio em um trabalho espiritual da linha unificada (Mestre Francisco), que une o Santo Daime com algumas influências da União do Vegetal. Foi a partir daquele dia, registrado para sempre na memória da alma, que a minha caminhada para o despertar espiritual claramente se iniciou.

Dentro da doutrina do Daime, a imagem de um grande homem, negro, de chapéu, com um olhar simples e firme, me chamou a atenção desde o primeiro momento. Não levou muito tempo para descobrir que era Mestre Irineu. Mais que uma imagem, ele é uma presença real para quem comunga o Santo Daime e para mim trouxe ensinos enraizados, que sempre fortalecem os “balanços” da vida. Como diz o hino: “Mestre Irineu comanda do astral, a força e a luz presentes no vegetal”.

Nosso Mestre Império Juramidan, Raimundo Irineu Serra, nasceu no Maranhão, ainda na época em que o Brasil se libertava da escravidão. Bem jovem se mudou para o Acre na missão de muitos negros e nordestinos da época: trabalhar nos seringais. Em plena Floresta Amazônica, Mestre Irineu conheceu povos nativos e teve contato com a Ayahuasca. Ali mesmo, no coração daquela grande mata, recebeu a missão espiritual de expandir o uso dessa bebida sagrada, mais tarde ressignificada e batizada de Santo Daime. Sua passagem para “outro mundo” foi em 6 de julho de 1971.

Ilustração: Tiago Botelho

Ilustração: Tiago Botelho

Certo dia, quando assistia uma apresentação de bumba-meu boi, percebi algumas semelhanças dessa manifestação cultural, presente no Maranhão, com o ritual de hinário que fazemos no Daime. Vi semelhanças tanto na dança quanto na música e na presença de alguns instrumentos, como o maracá. Curiosa, fui procurar informações e achei algumas pesquisas sobre a influência cultural de matrizes maranhenses no culto do Santo Daime. O que é bem possível, já que Mestre Irineu era nascido em São Vicente Ferrer, na Baixada Maranhense.

Algumas referências que encontrei citam elementos do Daime, como cantos, vestimentas e entidades, similares aos encantados do Tambor de Mina, a rituais de pajelança, à Dança de São Gonçalo e a músicas da Festa do Divino, todas manifestações com forte presença no estado do Maranhão. No documentário Mestre Irineu, o Senhor da Floresta, familiares do Mestre afirmam que, quando jovem, ele tocava tambor grande, que é um dos elementos percussivos do Tambor de Crioula. “Aqui eu toco meu tambor e nas matas eu rufo caixa. Todo mundo vai atrás, procurando mas não acha”, diz Mestre Irineu no hino “Eu sou filho da terra“.

Vale ressaltar que o uso ritual da Ayahuasca é bem mais antigo que da época de Mestre Irineu. A bebida, feita a partir de duas plantas (folhas de chacrona ou rainha – Psychotria viridis – e o cipó jagube ou mariri – Banisteriopsis caapi), é usada não apenas por povos tradicionais da Amazônia brasileira, mas também do Peru, Equador, Colômbia e Bolívia. O assunto é longo, rende pesquisas profundas. A maioria das referências citam os pesquisadores Beatriz Caiuby Labate e Gustavo Pacheco. Aqui embaixo, alguns links e vídeos sobre o tema.

Poema que escrevi para o Mestre
<< alemdasparedes.wordpress.com/2014/05/24/raimundo/ >>


ALGUMAS REFERÊNCIAS

Um pouco da história de Mestre Irineu:
<< afamiliajuramidam.org/mestre_irineu.htm >>

Artigo As Matrizes Maranhenses do Santo Daime:
<< aguiadourada.com/pdf/matrizes.pdf >>

Artigo Aculturação no processo de ressignificação da ayauasca na religião Santo Daime e as influências políticas sobre o IPHAN
<< webartigos.com/artigos/aculturacao… >>

Música e ayahuasca em duas religiões brasileiras
<< www.scielo.br/scielo.php?pid=S0100-85872013000100010 >>

Homenagem aos 43 anos de passagem do Mestre

A história de Mestre Irineu em cordel

Mestre Irineu, o Senhor da Floresta – Parte 1

Mestre Irineu, o Senhor da Floresta – Parte 2

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Além das Fronteiras

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“Imagine não existir países

Não é difícil de fazê-lo
Nada pelo que lutar ou morrer
E nenhuma religião também
Imagine todas as pessoas
Vivendo a vida em paz.”

O próprio John Lennon afirma nessa mesma música, Imagine, que “você pode dizer que eu sou um sonhador, mas eu não sou o único.” E não é mesmo. Porém, sabemos nós, infelizmente, que esse belíssimo ideal não é tão “palpável” assim no mundo físico. Por outro lado, há sempre por aí pessoas e projetos que buscam de alguma forma unir a sociedade global. O projeto Playing for Change é uma dessas iniciativas.

Músicos de diferentes nações compartilham a diversidade e a unidade musical, que são de todos nós. A ideia foi criada por um produtor chamado Mark Johnson e pelo músico Roger Ridley, que participou do primeiro vídeo com uma versão de Stand by Me. O que há 10 anos era, inicialmente, um documentário com músicos de rua, logo atingiu o status de projeto global, unindo artistas e pessoas de todo o mundo, que se emocionam a cada vídeo produzido.

Hoje, a ideia central do projeto é que a paz e a mudança são possíveis através da linguagem universal da música, tendo a missão de que qualquer pessoa que deseje ter uma educação musical possa obtê-la. Diante disso, a Playing for Change Foundation desenvolve projetos em várias regiões que vivem em pobreza. Além disso, foi criada a banda PFC, formada por músicos de diversas partes do mundo, que, inclusive, tocou na última edição do SWU.

Conheça mais sobre a Fundação no site www.playingforchange.org. Para assistir todos os vídeos, acesse o canal Playing for Change, no YouTube.


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