A filosofia do espanto

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Ilustração: Pinzallades al Món

Lauro Henriques Jr.: Quem abre nossa roda de histórias é o poeta Mário Quintana. Ele pergunta: “Que haverá com a lua, que sempre que a gente a olha é com o súbito espanto da primeira vez?

Rubem Alves: Haa, o espanto com a lua. Há poucos dias vivi isso. Fui até a varanda e, de repente, tive aquele assombro: lá estava ela, espantosa no céu. O espanto diante da vida é absolutamente essencial. Eu até já propus que as escolas criassem um novo tipo de professor: o professor de espantos. Ele não teria programa de ensino, nada disso, seria alguém que diz: “Olha, vejá lá!” – alguém que se espanta e que ensina a gente a se espantar. O olhar de espanto é o olhar da criança, que está sempre vendo o mundo como se fosse a primeira vez. Os gregos antigos tinha uma palavra, ‘thaumazein’, que se referia exatamente à importância desse estado de admiração, de você ficar abobalhado; para eles, é isso o que faz você pensar.

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O trecho acima integra o livro de entrevistas Palavras de Poder – Volume 3. Já falei sobre ele aqui no Além (clica aqui pra ver), quando o li o Volume 1 e 2. A última entrevista que fecha esse terceiro volume da série traz a leveza certeira e lúdica de Rubem Alves. Memorável! Vale ver além desse trechim!

Entrevistas de poder

. “Devemos partir de uma concreta e correta compreensão do ser humano. Nós somos fruto de um processo de evolução que já tem 13,7 bilhões de anos. O Universo foi se expandindo, se autocriando e se auto-organizando, gestando cada vez mais complexidade, até, enfim, se darem as condições de emergência da vida. Nós somos um subcapítulo da vida, como vida consciente, inteligente e amante. Somos parte desse todo. Mais concretamente, somos a parte consciente e inteligente da Terra. Somos mais que filhos e filhas da Terra; somos a própria Terra em seu momento de sensibilidade, inteligência, amor, cuidado e espiritualidade. Por isso, a palavra homem vem de húmus, que significa “terra fecundada”. Nós pertencemos à natureza. Juntos, formamos uma unidade.”Leonardo Boff

“Apenas a experiência do autoconhecimento dá subsídios para que a pessoa possa distinguir quais vozes estão na diretriz da sua psique. Quem está no trono dessa consciência? São vozes de cobranças sociais, ecos de comandos paternos arraigados na mente? Ou são vozes da sua essência, clamores legítimos da sua alma? Todos nós temos que responder a essas questões. Para isso, é imprescindível fazermos um trabalho de realinhamento interno, por meio de uma terapia, de uma busca espiritual, da meditação, da arte. Há várias formas, todas voltadas para a criação de uma intencionalidade positiva, um estado de presença que nos ajuda a transformar nosso cotidiano num campo de realizações de tudo o que é bom e próspero. A humanidade é justamente essa alquimia de ser constante depuração, para, um dia, manifestar a sua essência, que é amor, inclusão e totalidade.” Chandra Lacombe

Pode soar um paradoxo, mas as grandes cidades são espaços maravilhosos para o aprendizado da presença, da paciência, pois o treinamento é incessante. Somos instigados o tempo todo a situações que exigem nosso retorno ao eixo do equilíbrio. Caso contrário, entraremos na confusão, na briga, no desacato. Uma coisa importante é exercitar o olhar, a observação. (…) Em outras palavras, não brigue com a realidade, querendo mudar as circunstâncias – saiba adequar-se a elas. E vamos com calma, observando, pois o que importa é o que está aqui, afinal, nem sei se vou chegar lá.” – Monja Cohen

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palavras_de_poderSão reflexões como essas que o jornalista mineiro Lauro Henriques Jr. conseguiu extrair da mente “de grandes nomes da espiritualidade e do autoconhecimento”. Em seus livros Palavras de Poder – Volume Brasil e Volume Mundo, lançados em julho de 2011, Lauro apresenta entrevistas profundas e dinâmicas com 26 personalidades do campo espiritual de diversas linhas.

Comecei a ler o Volume Brasil ontem, dentro do ônibus, e a cada página lida, em meio à superlotação e ao trânsito engarrafado, eu soltava um sorrisinho tímido, daqueles que dizem: “esse livro tá falando comigo”. Foi uma hora de viagem e uma hora de diálogo entre os entrevistados e eu.

Em formato de entrevista, a leitura fica bem fácil e nada consativa, além de mostrar diferentes visões de mundo, que dialogam com unidade. Boa pedida para um primeiro contato com o tema do autoconhecimento e também para quem já tem uma busca espiritual definida e quer conhecer novas visões.

Quem quiser saber mais, segue a primeira parte da recém entrevista com Lauro Henriques Jr. no Provocações.

Publicado no antigo Além em 09.11.11 .