DESAVERSOS (POESIAS)

Aceito

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Pintura: Isabel Bryna

Tem um rasgo
onde engasgo meu peito
toda vez que me esqueço
que é preciso aceitar.
Aceitar
que por mais que eu invente,
que eu desista ou que eu tente
a dor sempre estará.

Pois a dor
que é da cor do invisível
é um sol disponível
querendo se mostrar.
É o parto,
a loucura, a serpente,
é humana, é poente,
é o rio quando é mar.

Keyane Dias — novembro/2017

DESAVERSOS (POESIAS)

Mútua

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Se quiseres de mim
apenas o suor quente
pra sua conveniência,
serei vapor d’água e chuva,
em meu próprio jardim.

Mas se quiseres de mim,
na mesma medida que eu,
o prazer do leito além da borda,
serei rio aberto e molhado
sem medo do fim.

No raso não me encaixo,
no raso não sei dizer:
sim.

Key Dias — Outubro de 2017

Ilustração – gif: James R. Eads
DESAVERSOS (POESIAS)

Olhos Cerrados

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Mais uma da gaveta. Sobre a seca que assusta nosso Cerrado, sobre os corações secos que secam o molhado… Sobre a resiliência, desafio cotidiano dos cerratenses, sejam eles povo planta, povo bicho, povo gente.

Foto: Mariana Cabral. Sertão cerrado de Minas Gerais

Do olho d’água,
a esperança,
veredas que geram
buritis a crescer.
São olhos abertos,
na busca de ver,
o sertão cerratense
a sobreviver.

Dos olhos cerrados,
a ignorância,
criando o fim
do que fingem não ver.
A monocultura
da falta de ser,
pois preferem aquilo
que chamam de ter.

Será que o olho d’água
não chora de dor,
por ver tanta mata
que já se acabou?

Ou será que a esperança
é quem não vai findar?
Pois os olhos cerrados
também podem chorar.

Key Dias — Janeiro de 2017

DESAVERSOS (POESIAS)

Entrelinhamente

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Foto: Mariana Cabral. Sertão de Minas Gerais

Sou tão densa quanto a dor
e tão leve quanto o amor,
sou a entrelinha dos versos que pari.

E se o que sou se esconde de mim,
é farejando a palavra que me encontro
no silêncio que precede a poesia.

É a poesia nua feito o chão,
crua feita a água
e lua
feita a paixão que me seduz
para experimentar o gozo
da palavra vivida em verso.

A palavra me fez poeta
para psicografar as sutilezas
do que vivo no mundo.

Keyane Dias — Agosto/2017

DESAVERSOS (POESIAS)

Apuração

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Noite de transcendência no sertão de Minas Gerais – Foto: Paulo Morais

Repara!
Velhas convicções
despedaçaram-se
em um amplo renovo
que te aguarda a romper
a gaiola do medo.

É hora de despir o corpo original,
onde habita a alma intocada
que só você abraça
nas madrugadas em que a luz
descansa no teu sono.

Despidos e úmidos pelo sereno,
lágrima de amor ancestral
que regou a primeira flor,
avistamos nos saberes antigos
a renovação do velho padrão,
que não cabe em mais ninguém.

A valentia para abrir o peito,
apurar o olhar
e abraçar o irmão,
que segue esquecido
de que pode ser quem é,
é a urgência dos dias.

Keyane Dias — Setembro/2017

DESAVERSOS (POESIAS)

Amadurecência

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Nasci querendo ser velha.
Desde menina admirava os cabelos brancos,
as linhas de expressão,
a quietude de quem transmutou-se
e sabe o que realmente importa.

Cansada do fulgor juvenil,
sonhava com as cadeiras de balanço,
o chá dos crepúsculos
e o olhar de quem aprendeu o afinamento
da sagrada relação com o tempo.

Mas é claro que tropecei.
Acaso não é o percorrer da juventude
a matéria-prima da sabedoria anciã?
Sem outro caminho de sentido,
aceitei ser jovem e não saber.

Foi então que a amadurecência chegou,
trazendo a poesia de minha criança
que anseia apenar ser o que é.
Aceitei viver com o pé no chão,
sem perder de vista as estrelas.

Não há inverno sem outono,
nem outono sem verão,
e eu, ainda primavera,
aprendi que a presença dos dias
é quem faz a beleza das idades.

Imagem: Gregory Colbert (Ashes and Snow)