ESCRITURAS

Altar

Acenderei mil velas
Firmarei meu ponto
Antes que o pranto
Dos desassossegos vis
Afogue meu rezo
Naquilo que não é meu

Quase nada é meu
Tão pouco seu
A não ser o rezo
O gozo do presente
E aquela intuição
Que dentro se sente

Por isso, acendo velas
Pra iluminar o canto
Do avesso das certezas
Que o tempo engoliu

E louvo
No altar do agora
A Santa Simplicidade
Que sempre nos sorriu

Janeiro / 2020

Ilustração: @lunarlilt
ESCRITURAS

Lar

Saúde mesmo é ter amor
Dentro
Fora
E lá, onde ninguém vê

E quando a doença
Em ti aparecer
Convoque a presença
Que sustenta teu ser

Pois doença é desatino
Esquessência de si
É o afastamento
De onde a alma quer ir

Mas se tu bem olhar
Sem pressa e sem medo
Verá que a doença
Sempre conta um segredo

Escuta, aceita
E deixa ela ir
Aprendendo a lembrar
De cuidar bem de si

E celebra
A ciência da tua vida
Pois saúde é ser amor
E, com ele, não há partida.

Índia – Fevereiro/2019

ESCRITURAS

Entrelinhamente

.

Foto: Mariana Cabral. Sertão de Minas Gerais

Sou tão densa quanto a dor
e tão leve quanto o amor,
sou a entrelinha dos versos que pari.

E se o que sou se esconde de mim,
é farejando a palavra que me encontro
no silêncio que precede a poesia.

É a poesia nua feito o chão,
crua feita a água
e lua
feita a paixão que me seduz
para experimentar o gozo
da palavra vivida em verso.

A palavra me fez poeta
para psicografar as sutilezas
do que vivo no mundo.

Keyane Dias — Agosto/2017

ESCRITURAS

Amadurecência

.
Nasci querendo ser velha.
Desde menina admirava os cabelos brancos,
as linhas de expressão,
a quietude de quem transmutou-se
e sabe o que realmente importa.

Cansada do fulgor juvenil,
sonhava com as cadeiras de balanço,
o chá dos crepúsculos
e o olhar de quem aprendeu o afinamento
da sagrada relação com o tempo.

Mas é claro que tropecei.
Acaso não é o percorrer da juventude
a matéria-prima da sabedoria anciã?
Sem outro caminho de sentido,
aceitei ser jovem e não saber.

Foi então que a amadurecência chegou,
trazendo a poesia de minha criança
que anseia apenar ser o que é.
Aceitei viver com o pé no chão,
sem perder de vista as estrelas.

Não há inverno sem outono,
nem outono sem verão,
e eu, ainda primavera,
aprendi que a presença dos dias
é quem faz a beleza das idades.

Imagem: Gregory Colbert (Ashes and Snow)

 

ESCRITURAS

Superfície

.

Ilustra: Robyn Chance

De baixo do que penso
está o que sinto.
De baixo do que sinto
está o que sou.

E no fundo…
no fundo estão as sagradas miudezas,
cochichos sinceros
feito conchinhas que deságuam
nas bordas do mar.

Levei tão a sério
a vida que quer brincar.
Mas hoje a vejo na flor
que sublima do fundo
mostrando que é na superfície
o lugar de aflorar.

Key Dias — Agosto de 2017