Olhos Cerrados

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Mais uma da gaveta. Sobre a seca que assusta nosso Cerrado, sobre os corações secos que secam o molhado… Sobre a resiliência, desafio cotidiano dos cerratenses, sejam eles povo planta, povo bicho, povo gente.

Foto: Mariana Cabral. Sertão cerrado de Minas Gerais

Do olho d’água,
a esperança,
veredas que geram
buritis a crescer.
São olhos abertos,
na busca de ver,
o sertão cerratense
a sobreviver.

Dos olhos cerrados,
a ignorância,
criando o fim
do que fingem não ver.
A monocultura
da falta de ser,
pois preferem aquilo
que chamam de ter.

Será que o olho d’água
não chora de dor,
por ver tanta mata
que já se acabou?

Ou será que a esperança
é quem não vai findar?
Pois os olhos cerrados
também podem chorar.

Key Dias — Janeiro de 2017

Epifanias gerais

– Como é o nome dessa flautinha mesmo?
– É pife, Seu Zeca. Conhece?
– Eu tenho uma, mas é diferente. Tenho uma que sopra na pontinha.
– Essa foi feita pelo Seu Zé, lá de Pernambuco. O senhor sabe tocar?

Ele não respondeu. Ele tocou! Tocou na embocadura de quem não precisa de técnica, de pormenores. Como se a força da epifania sertaneja nordestina também fosse sentida por lá, no sertão de Minas Gerais. Seu Zeca toca pife, sem nem saber o que é… Seu Zeca não toca música, toca o som. Os dedos enrugados dedilhando fora dos furos, o sopro descompassado rodopiando entre os dedos… Ao tocar, se alembrou da primeira vez que tinha ouvido e avistado essa flautinha, tocada por um jovem caminhante que por lá sempre passa. Nunca se esqueceu!

Seu Zeca toca. Toca sim! E o toque, que ressoa na ventoinha daquele canudo de taboca, dá pra ouvir nos olhos, dá pra sentir no sorriso de uma alegria genuína de quem tanto viveu que menino é. Quem dera eu, aprendiz de pife, ter a mesma sede livre de hesitações. Naquela manhazinha com cheiro de café, aprendi com ele, assim como aprendo com meus avós, com os velhos e velhas que me abraçam no viver. Sempre senti vontade de ser velha logo. Na verdade, já sou, em um lugar nem tão distante assim. Mas, com os velhos e velhas, tô aprendendo a ser jovem.

Salve Seu Zeca, que agora anda pelos areiais dos Gerais ressoando epifanias. O pife pernambucano de São José do Egito, feito pelas mãos de Mestre Zé do Pife, segue entremeado agora nas veredas cerratenses mineiras, nas mãos de Seu Zeca, marido de Geralda, anfitriões da velha Fazenda Menino. Salve Seu Zé do Pife, mestre de tantas e de tantos. Quem dera ver o encontro de Zeca e Zé. A teia é viva e trilhada…

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Geralda

Pelo sertão dos Gerais, histórias de mulheres guerreiras brotam de veredas, de capoeiras, de areias. Histórias de um rio de vidas que se embrenha na seca sertaneja, abundante, vigorosa, sempre-viva, do seu jeito. Esses versos, nem de longe suficientes, é uma homenagem a uma dessas mulheres, Dona Geralda, mãe de coragem, que gera, contadora de histórias. Geralda, geral como os gerais. Matriarca de uma grande fazenda chamada Menino.

1.
Quando a vista se apaga,
e as pernas se cansam,
é a memória que a faz caminhar.

2.
Em casa antiga
De parede descascada
A senhora faz morada
Onde guarda o recordar
Mãe de coragem
Tem no fio da memória
A estrada da sua história
O eterno caminhar.

Keyane Dias — 09.07.15

Sertão do Brasil Central

[Ao sertão cerrado de Minas Gerais. Poesia vencedora do Concurso de Poesia do VII Encontro do Bonito – Formosa (GO)]

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Já diria o Rosa: “O sertão é do tamanho do mundo…” Foto: Mariana Cabral

Cerrado é senhor velho
Profunda sabedoria
Onde resiste flor valente
Sempre-viva na estia

Veredas, chapadões
Sertão do Brasil Central
Céu do tamanho do mundo
Sem princípio, nem final

Morada de berço d’água
Clima seco, ora chuvoso
Foi lá que disse o Rosa
“Viver é muito perigoso”

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Seu Argemiro, um mestre caminhante das matas do Cerrado. Foto: Mariana Cabral

Quem diz que o Cerrado
É mata morta, sem feitio
Não conhece sua cultura
Nem o povo que a pariu

Entre calango e carcará
De pé, em movimento
Se embrenha a sua gente
Na feitura do seu tempo

Benzedeiras, foliões
Divino, Reis vão louvar
Lundu e curralera
Só vê quem lá está

Buriti dá tudo um pouco
Sabor, beleza, proteção
Pequi, único gosto
Do tingui se faz sabão

Sozinha, vendo tudo
Caliandra sempre está
Barbatimão, forte remédio
Da medicina popular

Cura do mato, de tradição
Senhora erveira sabe usar
Vão das Almas, dos Buracos
Quilombo também tem lá

A essência dessas terras
É como aboio de vaqueiro
Vem da alma desse povo
Cerratense, brasileiro.

Keyane Dias
agosto de 2014 – Taguatinga (DF)

Ser[tão] Cerrado

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“A vida da gente dá sete volta – se diz. A vida nem é da gente…” – Foto: Vinicius Mazzon


Ainda escuto pulsante

a folia.
Vozes velhas, violadas,
sabedoria.

A benza com ramo vivo,
eu sinto.
Tão ser grande esse cerrado,
l
abirinto.

“Poeira dentro da gente”
comi.
Onde nasce o olho d’água,
eu vi:

Mistérios de Diadorim,
a essência.
Como a força dessas matas:
resiliência.

Sertão que não nos deixa
sozinhos.
Travessia de si, de nós:
caminhos.

[poesia dedicada ao cerrado dos Gerais, inspirada no Caminho do Sertão]

Keyane Dias
06.08.14 – Taguatinga (DF)


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