DESAVERSOS (POESIAS)

Benzedura

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A bença da velha, eu peço,
Pra bem ficar protegida.
Em mão rugosa, confio
A benza da fé acolhida.

Com ramo tira quebranto,
Mistério pouco revelado.
Ave Cruz, canto em credo!
Sara do mau olhado.

Socorro de mulher prenha,
Aconchego para criança.
Ajuda com erva santa
Corpo fraco que se cansa.

É dom, fonte ancestral,
  Quem recebe esse saber.
E se tiver pouca fé,
Nem adianta se benzer.

Elas resistem na cidade
E nas matas do interior.
Senhoras de valentia,
Guerreiras do bom senhor.

Trabalho de caridade,
Auxílio pra alma sofrida.
Com jejum e bom respiro
Apruma espinhela caída.

Sincretismo de benfeitura,
Catolicismo popular.
No terreiro, na pajelança,
Baixinho a sussurrar:

“Quem pra ti olhô
Com os olho malvado
Eu vou jogar nas onda
Do mar sagrado.”

Tal qual essas senhoras,
Tem os velho rezador.
Trabalham com a mesma fé,
Com a força do mesmo amor.

Salve Deus!, essas mão santa.
A cura do benzimento!
Escudo da santa cruz.
A graça que traz alento.

(poesia dedicada a Dona Pedralina, benzedeira de Ribeirão da Areia – MG)

Keyane Dias
26.08.14 – Taguatinga (DF)

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Abaixo, selecionei alguns vídeos com histórias da tradição da benzeção, em vários cantos do Brasil. Importantes registros desse saber ancestral e vivo, repassado de geração em geração e mantido pela resistência e amor dessas senhoras e senhores de fé.


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DESAVERSOS (POESIAS)

Terra Vista

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Em dezembro de 2013, tive a oportunidade de conhecer o Assentamento Terra Vista, localizado em Arataca (BA). Chegamos devagar, eu e mais dois amigos, para participar da II Jornada de Agroecologia da Bahia e auxiliar na comunicação do evento. Mais que um pouso e um momento de trabalho, os oito dias que passamos ali foram uma escola. Uma escola livre, popular, viva, aterrada.

Lá, assentados, quilombolas, indígenas, universitári@s, crianças, mulheres, velh@s, natureza, trabalho, arte… Tudo parece uma coisa só. Muito além do discurso e de teses acadêmicas, a construção se dá no dia a dia, no sonhar, no fazer, no ousar, no plantar. É forte também a presença e o protagonismo das mulheres, em várias frentes do Assentamento e da rede que se forma na Bahia, a partir da Agroecologia.

Até ali, havia conhecido apenas um assentamento do MST, aqui pelas bandas do Goiás. Mesmo assim, ainda era pouca minha percepção do que é o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra. Foi no Terra Vista que compreendi, na convivência e na oralidade, a força, a união e a ancestralidade que move os assentados e os povos tradicionais que lutam pelo direito à terra.

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Momento da colheita e sepação das sementes e do mel do cacau.

Mais que a luta por território e contra a opressão capitalista, o Assentamento Terra Vista é referência em produção agroecológica e conservação ambiental. O carro-chefe é a produção de cacau orgânico e do Chocolate Artesanal Terra Vista, um dos mais gostosos que comi, por sinal! A própria história de formação do assentamento envolve a recupeção de áreas degradadas e a conservação da Mata Atlântica, a partir de um trabalho contínuo de educação e mão na terra.

A seriedade do trabalho é refletida em várias conquistas, como os dois centros educacionais que funcionam no assentamento, inclusive com pós-graduação na área de Agroecologia: Centro Integrado de Educação Florestan Fernandes e Centro Estadual de Educação Profissional do Campo Milton Santos.

Ação da Rede Mocambos em Taguatinga, para divulgar as ações do Terra Vista, durante a Eco Feira do Mercado Sul.
Ação da Rede Mocambos para divulgar as ações do Terra Vista durante a Eco Feira do Mercado Sul, em Taguatinga (DF).

As conexões continuam, com encontros e reencontros. Gente de cá que vai, gente de lá que vem. Em homenagem a esse povo que tanto me ensinou e me ensina, fiz o poema abaixo:

Terra Vista

Natureza roubada
Pela união, replantada
Vence a fome e o poder
Faz o povo renascer

Da semente ao cacau
Pé na terra espanta o mal
Mulher, homem e criança
Alma forte, não se cansa.

Caminha sem temer o dia
Semeando agroecologia
Indio, negro, branco, povo
Se ainda roubarem, lutamos de novo

Porta aberta, abraço apertado
Cabe um, cabe um bocado
Água canta: Terra Vista
É respeito a nossa conquista.

Keyane Dias – Olivença (BA)
18.12.2013

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Mais sobre a Jornada:
http://jornadadeagroecologiadabahia.blogspot.com.br/

Mais sobre o Assentamento:
http://jornadadeagroecologiadabahia.blogspot.com.br/2013/12/conheca-o-assentamento-terra-vista.html

O mano Angel Luis, que fez a ponte que me conectou ao Terra Vista, editou um doc muito bom, sobre o Assentamento e a Jornada. Vale muito conhecer e ouvir o que elas e eles têm a dizer:

DESAVERSOS (POESIAS)

A linguagem do brincar

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Casinha de barro
Pula-carniça
Cai-no-poço
Vai embora preguiça

Roda Pião
Que a cabra-cega
Equilibra a gangorra
Corre pro escorrega

Pula amarelinha
Pique, pega, esconde
Salta na estrelinha
Não vá muito longe

Adivinha o que é
O que é o descanso?
Pra criança feliz
É voar no balanço

Key Dias – 16.12.12

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Quanta lembrança inunda minha mente quando ouço o nome das brincadeiras infantis. Aquelas, simples e sempre possíveis, que se multiplicaram pela tradição oral. É interessante observar o papel dos próprios meninos e meninas na transmissão desses saberes. E como eles executam bem essa missão! Mesmo na modernidade com aparatos tecnológicos por todo canto, as crianças continuam sendo crianças e tudo aquilo que é lúdico continua a encantá-las. Não importa o quanto padronizada seja a educação, há sempre dentro deles uma pureza e uma imaginação que não morrem, mesmo que adormecidas.

Há um tempo atrás, uma amiga me apresentou um projeto que mostra muito bem a cultura infantil na sua pureza. O nome é Território do Brincar. Desde abril de 2012, até dezembro de 2013, a educadora Renata Meirelles e o documentarista David Reek percorrem cidades Brasil a dentro revelando a geografia do brincar por meio do olhar das próprias crianças. A ideia é escutar, registrar e difundir a cultura infantil de comunidades rurais, indígenas, quilombolas, grandes metrópoles, sertão e litoral. Os registros são feitos em belíssimos vídeos, divulgados pouco a pouco no YouTube.

Se a criança domina uma linguagem, essa linguagem é mesmo o BRINCAR!


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