ESCRITURAS, PROSAS E CRÔNICAS

Tenho esperanças líricas

Escrever é um caminho de lapidação. Publicar também. Pequenas lembranças das várias vozes que passam pela gente. Muitas vezes, olho pra esses objetos palavreados e sinto que não publicaria, agora, o que um dia publiquei ontem. Ou que mudaria palavras de lugar, substituiria outras, editaria tudo de outro jeito. Bobagem! Cada obra que nasce revela um ciclo findado e um recomeço. Tem coisa que perde sentido, outras ganham novos, outras nunca tiveram, e por isso mesmo pediram pra existir. Existem sussurros poéticos que só serão compreendidos nos amanhãs. É como se cada publicação revelasse o que fui, o que pensei que era ou o que nem sei se pensei ou se pensaria. Pedaços, fragmentos, desaguares…

Nessa vã filosofia literária, ando cansada das “obrigações virtuais”, reflexiva sobre o fazer artístico em tempos de aceleração da virtualidade capital. Não tenho dado conta do tempo que as redes pedem, e nem quero. É um puta privilégio ser autônoma e não precisar das redes pra publicizar o que se faz… privilégio esse que não tenho. Mas será mesmo que não existem outros jeitos? Falando de literatura, não tem like que pague o gosto de encontrar um livro, um zine ou um cordel seu no meio do caminho, numa cidade distante, do outro lado do rio ou do mar… Aquele gosto de saber que as palavras que nasceram de ti caminham em mochilas, envelopes, bolsas, balsas, aviões, metrôs e outras tantas formas de peregrinar no mundo do pé no chão. Com a pandemia, stories cumpriram essa função… mas o mundo é mais!

Já falei outrora que ser poeta é um rito de passagem que não finda. Ando querendo cada vez mais voltar ao tempo desse rito, apreciar a insignificância de escrever sem pretensão, como bem ensina Maneco. Escrever pro mundo, sim! Mas que seja, também, pro mundo das redes que não caem por falta de pacote de dados. Escrever pro mundo, mas também guardar na gaveta e, anos depois, ser surpreendida pelo cheiro das palavras íntimas. Saborear poéticas que antes pareciam imaturas, mas se amaduraram no tempo que nos prepara pro mundo. Quero ainda garimpar sebos que nos contem poéticas de hoje. Tenho esperanças líricas sobre isso.

Abril/2022

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