Crônicas de um Útero #2: Quando ouço a Intuição

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Pior que o julgo dos que subjugam uma mulher é o nosso próprio esquecimento da Intuição. Esse sopro perene de nitidez é nossa mais antiga arte feminina. É a voz sábia da Mãe ancestral que jamais será silenciada, é o lampejo assombrosamente instintivo e divino que aponta os caminhos e alerta perigos.

Nesse ciclo lunar de setembro, sincronizado com o Equinócio de Primavera, Navaratri e Lua Nova, algumas camadas desconhecidas do feminino afloraram. Camadas de águas que me conduziram à floresta onde encontrei a mão dessa velha amiga. De dentro, veio a Intuição me contar sobre não esquecer que ela sempre está lá, naquele lugar onde toda mulher sabe onde é. Sussurrosa, veio me falar sobre coragem.

É inato feita a Lua que reflete o Sol. Nosso ventre tem espaço, e a força que nos faz in-tu-ir continuamente é a mesma que rege a dança da natureza cíclica feminina, numa alquimia perfeita entre o mundo interno e o externo. É como se olhássemos as respostas e as perguntas certas nos olhos da nossa velha alma.

Assim, percebi desajustes criados pela minha própria teimosia em não assumir o que a Intuição vem me dizer. Assim, percebi o quanto é preciso coragem para andar de mãos dadas com ela, pois essa aliança interna revela insigths que pedirão atitudes concretas e quebras de padrões que vão gerar rompimentos e desmoronar o que precisa ser renovado. Nem sempre será um caminho fácil, mas, na floresta interior, desafios são nutritivos.

A lucidez intuitiva é espada e escudo, quando é preciso lutar. É semente e flor, quando é preciso plantar. É colo e palavra sã, quando é preciso compreender e auxiliar. Assumir a responsabilidade em ouvir e agir com a Intuição é nosso passo primeiro de coragem para um feminino maduro, para um caminhar com propósito. É assumir a si mesma, tendo a força de relacionar-se com o outro e com o mundo com instintiva integridade. É romper com o medo de não ser aceita por ser quem se é e sentir o que sente.

Para muitos, lampejos intuitivos vão soar como alucinações exageradas, “dramas de mulher”. Deixe-os julgar. Por vezes, munida de Amor, a Intuição nos pedirá para abrir mão do que está fora do lugar, mesmo que isso balance relações, o ambiente onde vivemos ou as nossas próprias convicções. Mas é ela mesma quem no diz de dentro: “Coragem!” A Intuição provoca o amoroso desapego que traz a real união, pois é tão livre quanto o voo que nos possibilita dar.

Deixar-se in-tu-ir é dar um salto quântico de dentro para fora, reconhecendo que o percurso que nos trouxe até aqui amalgamou em nós mesmas as pistas do caminho a trilhar. Quando uma mulher decide escutar sua intuição, mais um véu das vãs ilusões é descortinado na trama do mundo.

Keyane Dias — 25 de setembro de 2017


Mora dentro de mim uma velha

Por mais que o acaso fértil do destino
Me presenteie com jeitos de moça
É a velha quem canta, dança, cozinha, observa

Os segredos que ela guarda
Minha moça tão pouco conhece
Só às vezes
Em con[tato]
As duas se tocam pelo olhar
Em um jardim oculto e visceral

Se bem me lembro
Chamam isso de intuição

A velha mora dentro
A velha mora fora
Ela sempre quer sair

Até parir a si mesma
Totalmente
No despontar dos meus cabelos brancos.

 

Crônicas de um útero #1: Quando dói

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Hoje sangrei de novo, como em todo mês. Mas sangrei com dor… Ainda não aprendi a liberar plenamente as memórias que carrego. Algumas são dos meus próprios tropeços de dias atrás, daquilo que não digeri pelo alimentar dos ‘seis sentidos’ do corpo em que habito. Outras são de vidas passadas ou dos ventres que me geraram na teia humana de existir.

Mãe, vós, bisas, tatas… Úteros que venceram muitas batalhas na vereda da re-existência feminina. Merecem reverência! Mas a dor, que ainda vem, traz histórias e inconsciências não curadas, pedindo constelações de coragem para desatar os nós que ainda restam e que não me pertencem se eu deixar ir. É essa a sina. Cada geração tem a sua responsabilidade. Que eu saiba honrar o caminho feito e embelezar minha posteridade que ainda não veio.

Ilustra: Meraki Labbe

Dizem que os seres humanos tem um só coração. Evidência comprovada cientificamente. Mas, às vezes, ou quase sempre, me sinto como um segundo coração da mulher que me carrega. Um coração que ensaia a vida todo o mês e que bate no pulsar da Lua e das ondas das águas femininas que sentem e nutrem o mundo com a sensibilidade da flor.

Sim! Sou mesmo um coração, um coração que carrega a memória do mundo! E foi a ciência que comprovou isso também. Quando uma bebê fêmea é fecundada, ela se desenvolve e nasce com os milhares de óvulos do seu pequeno ventre que irá madurar e que ficam bem ali, no meu irmão ovário.  Diferentemente dos homens, que geram seus espermas só depois de grandinhos, na puberdade. As fêmeas já nascem com a semente memorial da vida. E ainda duvidam da nossa [in]tuição…

É. A memória do útero é a memória do mundo. Quando minha mais antiga antepassada humana nasceu, já carregava no seu ventre os óvulos que geraram suas descendentes. De um deles eu vim, das sucessivas ovulações que deram continuidade à vida! E é assim na ancestralidade de todos nós. Como a mulher que me carrega falou certa vez, “mesmo que alguns se esqueçam, todos beberam do sangue do ventre de suas mães”.

Imagine, então, quanta coisa habita em nós, úteros! Há uma floresta descomunal de fertilidade mergulhada nesse vazio que é cheio de encantações. E, apesar da dor que vem para curar a alma que me encarna, tenho dado conta! Funciono muito bem e gero a força da Terra que aceitou, com humilde entrega e compaixão, acolher a humanidade.

Sou sim um coração de sensível força, renascente, antigo, intuitivo e preciso. E a dor, que ainda sinto, é apenas memória querendo transcender e provar a liberdade de ser flor.

— Key Dias – 03.07.17

Quando Saturno retorna #1: deixa morrer

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Aprender a viver exige viver. Você vive? Andei pensando muito sobre isso e me dei conta de vários momentos em que vivi sem viver simplesmente por resistir morrer. É isso mesmo! Quem vive morre. E não é de desencarne que estou falando. Quem vive morre várias vezes.

Sabe aquela casca velha que pesa nos ombros? Sabe aquela antiga mágoa que arde no estômago? Sabe aquela pessoa que você não é mais, mas que todos à volta ainda te tratam como se fosse? Ou até mesmo os belos momentos que vivemos ontem e que já não são os de hoje. Tudo isso são só algumas partes de nós que precisam morrer. Sempre!!

Nosso eu aprendiz, em processo de rememorar sua completude, precisa viver sua própria renovação. Amanhecer Sol, adormecer Lua. E às vezes amanhecer Lua e adormecer Sol, por quê não? Tem dias que tudo vira do avesso mesmo.

Morrer inclui integrar as polaridades, deixar ir, perdoar (primeiramente a si), aceitar, confrontar o medo, desapegar, recomeçar, transcender, podar, transmutar, sublimar… incessantemente. Morrer é reconhecer erros e acertos como degraus que levam cada vez mais perto à essência de si. E saber que novos erros e novos acertos são necessários. Dê boas-vindas!

Para quem não aprendeu isso de berço, como eu, há que se trabalhar muito para aprender a morrer. Nossa sociedade, construída como foi, não nos ensina a equanimizar os processos naturais da vida. O que poderia ser um simples e necessário processo de “vida-morte-vida”, logo é taxado como depressão, síndrome, complexo…

Calma! Nomenclaturas do sistema são muito perigosas. Não precisamos nos apegar a elas. É claro que há casos e casos. Mas já vi muita gente se afundar por engolir conceitos cruéis que nos engaiolam. É a era de se libertar! É chegada a hora de confiar e aceitar a impermanência da vida. Se até carros, bicicletas e outras máquinas precisam de renovação, quem dirá nós, seres orgânicos, com corpo, com mente, com alma, com as águas das emoções. Confiemos!

Aos 28, depois de muito ler e ouvir falar sobre isso, resolvi viver, viver mesmo. Resolvi aprender a morrer. Saturno também veio ajudar! Meu próprio corpo, com sua generosa autorregulação, me ensinou que se eu não morrer, ele morre para mim. Então, se tá pifando por aí também, deixa pifar. Limpa, desavessa, queima, morre. Se joga no rio das velharias, mergulha e renasce no mar infinito de possibilidades para quem sabe viver.

Se a revisão passou da hora, o processo de morte pode demorar um pouco. Sem problema, a melhor revisão de você quem faz é você mesmo. Uma ajuda é bem-vinda, um amigo, um conforto, um terapeuta. É sempre bom ter colo, inspiração. Mas é preciso andar com as próprias pernas! “Levanta e anda, a tua fé te curou”, já dizia um mestre caminhante que semeou o Amor.

Morrer é amadurecer. É amar a duração de ser e todas as suas nuances. E ninguém pode te dizer como amadurecer, muito menos te dar o mapa do caminho ou o tempo determinado. “Um dia você vai saber”, “quando eu tinha a sua idade”… Perdão, mas quando você tinha a minha idade, ainda não tinha vivido os anos seguintes que nos trouxeram até aqui. A gente precisa amadurecer sempre, em qualquer momento dessa encarnação, de acordo com a história de vidas e o tempo de cada um.

Morra, morra bem! Quanto melhor forem as mortes que se apresentam, melhor será o renascer, melhor será o viver. Viva a morte, viva a vida. Amadureça para você mesmo. O mundo lhe agradecerá de formas inimagináveis.

Ilustração: autoria desconhecida

Mas, se você já aprendeu alguma coisa sobre morrer, não precisa mais deixar pifar né… Continue a trabalhar junto com a vida, essa vida que nos traz todas as ferramentas da autorregulagem orgânica de ser humano. Viver é um estar disponível às incertezas, aos erros, aos desafios. Da mesma forma é estar disponível às deliciosas surpresas que pedem uma atitude essencial: coragem!

Um exemplo clichê, mas sempre bem-vindo, é o povo planta. Lembre-se: as plantas são seres vivos! Seres vivos que são mestres em saber morrer. O fruto amadurecido despenca, a flor despetala, as folhas caem ao chão… a planta morre. E tudo que era parte de sua velha composição aduba a terra onde sua própria raiz se firma e se fortalece. Tudo que era parte de sua velha composição alimenta e nutre a nova planta que se refaz para brilhar e semear com a floresta inteira.

A planta não rejeita seu passado que morreu. Ela apenas deixa morrer e se alimenta com o que morreu. O que morre sempre dá lugar e abre espaço para a nova vida, que logo mais terá de morrer também. E lembro mais uma vez: não é de desencarne que estou falando.

E já que o assunto é morte, não há como esquecer da mestra Clarissa Pinkola Estés, em Mulheres que correm com os lobos, sobre o mito da ‘Mulher Esqueleto’:

“O arquétipo da força da vida-morte-vida é extremamente mal compreendido em muitas culturas modernas. Algumas não entendem mais que A Morte é carinhosa e que a vida se renovará com seu auxílio. Em muitos folclores ela recebe uma atenção sensacionalista: diz-se que carrega uma grande foice para “ceifar” a vida dos que nada suspeitam, que beija suas vítimas e deixa cadáveres espalhados por onde passa, ou que ela os afoga e fica uivando noite adentro.

Em outras culturas, porém, como na do leste da Índia e na cultura maia, que têm maior cuidado com o ensino sobre a roda da vida e da morte, A Morte abraça os que já estão morrendo, abrandando sua dor e proporcionando alívio. Diz-se que ela vira o bebê no útero para a posição de cabeça para baixo a fim de que ele possa nascer. Diz-se que ela guia as mãos da parteira, que abre o caminho para o leite nos seios maternos e que ainda consola quem quer que esteja chorando sozinho. Em vez de criticá-la, quem a conhece em seu ciclo completo respeita sua generosidade e suas lições.

(…)

Grande parte do nosso conhecimento da natureza da vida-morte-vida é contaminado pelo nosso medo da morte. Portanto, nossa capacidade para acompanhar os ciclos da natureza da vida-morte-vida é muito frágil. Essas forças não “fazem” nada a nós. Elas não são ladrões que nos roubam aquilo que prezamos. Essa natureza não é um motorista irresponsável que destrói o que valorizamos e foge em alta velocidade.

Não, não, as forças da vida-morte-vida fazem parte da nossa própria natureza, como uma autoridade interna que sabe os passos, que conhece a dança da vida e da morte. Ela é composta pelas partes de nós mesmas que sabem quando algo pode nascer e quando ele deve morrer. Trata-se de um mestre profundo, se ao menos aprendermos seu ritmo. Rosario Castellanos, poeta e mística mexicana, escreve acerca da entrega ‘às forças’ que governam a vida e a morte:

….dadme la muerte que me falta…
…dá-me a morte que eu preciso…

Os poetas compreendem que não há nada de valor sem a morte. Sem a morte, não há lições; sem a morte não há o fundo escuro contra o qual o diamante cintila.”

Diz a sabedoria oriental que tudo começou no Om original… Desde lá, tudo se expande em sucessão. Toda a vida está em expansão, renovando-se, renascendo… Que saibamos, pois, morrer para viver, pois o Om primeiro ressoa em todos nós. Deixa ele passar. Deixa morrer e vive!!!

Key Dias — 13.03.17

 

A sutil força da Poesia

Há um tempo passado por vezes presente, conheci alguém que ria de mim só porque sou poeta. Qualquer verso ou prosa floreada – algo muito corriqueiro no falar de uma poeta – vinha seguida de um sorriso zombador: “esses poetas”. Dizia ele, caçoando sem disfarçar. Com o tempo entendi. Parecia que pra ele ser poeta é um estado vulnerável de existir. E num é que ele tem razão! Amanhecer pássaro, ver um vitral numa cebola, a felicidade na distração e Deus num vagalume é mesmo uma vulnerabilidade gravíssima ao encantamento. Num mundo pra lá de endurecido, encantar-se realmente pode ser perigoso.

Mas o poeta não apenas se encanta, o poeta também tem o poder de encantar. E aí que mora sua inabalável força, a sua espada de condão, a sua armadura de água de cheiro. Ser poeta é mesmo perigoso e vulnerável, mas mexer com poetas também é. De tanto interpretar as entrelinhas e psicografar a existência, poetas são capazes de desmontar o mais endurecido dos castelos de pedra, que protegem os mais brutos egos, até mesmo os que fingem pra si serem impenetráveis. Já será tarde! Todo poeta sabe que até mesmo as pedras respiram e que a poesia é a sutil e encantada quintessência que adentra nos mais pequenos poros só para provocar a poesia alheia.

A sutileza é vulnerável e bem perigosa! Quem zomba de um poeta, sabe bem que sente saudade da poesia não liberta de si.

Keyane Dias – maio de 2016

Foto: Mariana Cabral

Epifanias gerais

– Como é o nome dessa flautinha mesmo?
– É pife, Seu Zeca. Conhece?
– Eu tenho uma, mas é diferente. Tenho uma que sopra na pontinha.
– Essa foi feita pelo Seu Zé, lá de Pernambuco. O senhor sabe tocar?

Ele não respondeu. Ele tocou! Tocou na embocadura de quem não precisa de técnica, de pormenores. Como se a força da epifania sertaneja nordestina também fosse sentida por lá, no sertão de Minas Gerais. Seu Zeca toca pife, sem nem saber o que é… Seu Zeca não toca música, toca o som. Os dedos enrugados dedilhando fora dos furos, o sopro descompassado rodopiando entre os dedos… Ao tocar, se alembrou da primeira vez que tinha ouvido e avistado essa flautinha, tocada por um jovem caminhante que por lá sempre passa. Nunca se esqueceu!

Seu Zeca toca. Toca sim! E o toque, que ressoa na ventoinha daquele canudo de taboca, dá pra ouvir nos olhos, dá pra sentir no sorriso de uma alegria genuína de quem tanto viveu que menino é. Quem dera eu, aprendiz de pife, ter a mesma sede livre de hesitações. Naquela manhazinha com cheiro de café, aprendi com ele, assim como aprendo com meus avós, com os velhos e velhas que me abraçam no viver. Sempre senti vontade de ser velha logo. Na verdade, já sou, em um lugar nem tão distante assim. Mas, com os velhos e velhas, tô aprendendo a ser jovem.

Salve Seu Zeca, que agora anda pelos areiais dos Gerais ressoando epifanias. O pife pernambucano de São José do Egito, feito pelas mãos de Mestre Zé do Pife, segue entremeado agora nas veredas cerratenses mineiras, nas mãos de Seu Zeca, marido de Geralda, anfitriões da velha Fazenda Menino. Salve Seu Zé do Pife, mestre de tantas e de tantos. Quem dera ver o encontro de Zeca e Zé. A teia é viva e trilhada…

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A gente nasceu pra dar certo

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Faz bem pouco tempo, ouvi de uma mulher: “A gente nasceu pra dar certo”. Na hora, foi daqueles momentos catárticos, que duram uns três segundos, mas que no pensar são como longas veredas de entendimento. “A gente nasceu pra dar certo…”. Acredito nisso! Mas antes de acreditar fiquei me indagando o que é “dar certo”. No meu pensativo achismo, percebi que “dar certo” tem a ver com a potencialidade individual do que cada um de nós é.

“Dar certo” não se explica em um formato, em um padrão bem sucedido de vida. Dar certo mora na autoconsciência de cada um. Na saúde do pensar e do agir que cada história de vida possa e precisa ter. Parece piegas, que seja! Mas pra gente “dar certo” é preciso se autoconhecer, de variadas e práticas maneiras.  Isso é uma pieguice experimentada!! E essa visão mora bem longe da vida mecanizada que nos distancia de nós e do outro. Nessas modernas simulações do que é ser humano, a gente continua nascendo pra dar certo, mas vive pra dar errado.

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Para os guarani, por exemplo, “cada ser que nasce trará seu tom”, cada um que vem “dá assento a uma palavra-alma” (trechos do livro Tupã Tenondé – a criação do universo, da terra e do homem segundo a tradição guarani, de Kaká Werá). A morada terrena é a sintonia desses tons, dessas vibrações que se expadem, que são uma só. Quando olho para tradição, para os saberes ancestrais, vejo muito sentido nesse “dar certo”, nessa percepção de olhar pra dentro, de entender a missão, o caminho. De fato, e são muitos fatos, a sociedade baseada no consumo e na competição criou caminhos que não são nossos, caminhos que levam a despenhadeiros. Dar errado passa por aí.

Já dizia Padrinho Sebastião, nos hinários de Daime lá pelas bandas do Acre: “Segue sempre o teu caminho, deixa quem quiser falar, recebe a tua luz de cristal, te firma e te compõe em teu lugar”.  Mais uma vez a tradição sinaliza o autoconhecer. Mas pra nós, seres viventes na modernidade das cidades apressadas, nos resta reiventar as formas de por em prática os ensinos ancestrais sobre ser quem somos. A livre manifestação individual do nosso ser é o que forma um coletivo saudável, é o que forma as comum-unidades que nos fortalecem, que nos ajudam a dar certo.


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Das lentes de Ivaldo Cavalcante, o documentário “O meu nome é Fábio”

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A gente sempre encontra madrinhas e padrinhos na caminhada da vida. Pessoas cuidadoras que, de alguma forma, se tornam referência em algum fazer nosso. Ainda no início da faculdade de Jornalismo, quando precisei escrever a minha primeira matéria como estudante, conheci o fotojornalista Ivaldo Cavalcante. Naquele dia, em um evento cultural na Praça da CNF (a pauta do dia!), recebi ajudas muito precisas de Ivaldo, que percebeu na hora minha insegurança de caloura. Reconheci naquele momento a sua benção de padrinho nas veredas que eu percorreria na área da comunicação. E foram muitos os apoios que recebi.

Ivaldo Cavalcante é uma das figuras históricas da cidade de Taguatinga. Também conhecido como Kabeça, nasceu em Crateús (CE), Fortaleza, em 1956. Fotografa profissionalmente desde 1980. Trabalhou para os principais jornais do DF, ganhou vários prêmios e fez exposições no Brasil e no exterior, nunca deixando Taguatinga como a cidade que escolheu para viver. Indo além das páginas de jornal, Ivaldo Cavalcante registrou e registra cenas emblemáticas do cenário político e urbano do DF, mostrando as desigualdades sociais escancaradas aqui, na capital do país. Mas um dos trabalhos que mais gosto é o livro Taguatinga, duas décadas de cultura, que contém registros da efervescência cultural que Taguatinga viveu nas décadas de 70 e 80, anos que foram escola para muitos artistas e militantes da cidade.

Registro da Faculta, nos anos 80, na C1 de Taguatinga

Registro da Faculta, nos anos 80, na C1 de Taguatinga

Um dos trabalhos recentes de Ivaldo é o documentário O meu nome é Fábio. Com montagem de Karina Aguiar e direção e imagens de Ivaldo, o vídeo narra, em um formato ficcão-documental, a história de um morador de rua de Taguatinga, viciado em crack. O filme me toca mesmo porque eu sempre via o “Fábio” aqui pelas bandas de Taguatinga Sul. Era sempre como está ali no vídeo: quietinho, olhar distante e ao mesmo tempo tranquilo, parecendo sempre buscar algo longe ou, quem sabe, dentro de si. O documentário recebeu mensão honrosa e levou o 2º lugar no Festival Taguatinga de Cinema 2014.

Outros trabalhos:
Brasília, 25 anos de fotojornalismo (livro)
Perfil no site Olhares
Projeto Imagem sem Fronteiras
Site Jornal Olho de Águia

Galeria Olho e Águia
Há mais de 10 anos, Ivaldo cultiva em uma loja da famosa Praça da CNF a Galeria Olho de Águia.  Criada em 2002, foi idealizada para abrigar o acervo fotográfico de anos de trabalho. Mas, pouco a pouco, a galeria tomou forma e se tornou um local de trocas de ideias e de experiências sobre o mundo da fotografia, da música, do cinema e da arte em geral. Dividido entre a Galeria Olho de Águia e o Bar Faixa de Gaza, o espaço abriga vários eventos e atividades culturais, como exposições, mostras de filmes, feiras fotográficas e pocket shows. Em 2012, foi sede do projeto Imagem sem Fronteiras, que trouxe para Taguatinga exposições com fotojornalistas internacionais.

Por falar nisso, em fevereiro de 2010 escrevi uma matéria sobre a Galeria Olho de Águia para a extinta revista virtual de skate chamada Dois Tempo. Tão bom rever isso. Segue pra ficar registrado:

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Um verdadeiro reduto cultural é cultivado há oito anos na praça da CNF, em Taguatinga (DF). Batizado como Galeria Olho de Águia, o espaço carrega traços da vida e juventude de seu criador, o fotógrafo Ivaldo Cavalcante, caminhante voraz da noite underground nas décadas de 70 e 80. Num clima rock’n roll, que lembra bem a estética beatnik de Jack Kerouac, a galeria vai tomando forma e se tornando um tesouro entre as ruas de Taguá.

O projeto de Ivaldo ao criar a galeria era abrigar o acervo de seus 30 anos de fotojornalismo, mas não dava para ser simples. As inúmeras ideias que saltam da sua mente, pouco a pouco, se firmaram no local. “Fui abrindo as asas, como uma águia”, afirma Ivaldo ao falar sobre seu cuidado ao montar o espaço. Parte do seu acervo fotográfico está registrada no livro ‘Taguatinga, duas décadas de cultura’, lançado na própria galeria, em 2003.

O espaço, dividido entre a Galeria e o Bar Faixa de Gaza, ainda não abriu suas portas regularmente, mas já abrigou vários eventos e atividades culturais, como exposições, mostras de filmes, feirão fotográfico e pocket shows. Apreciador da sétima arte, o fotógrafo viu seu o bar ser cenário do curta ‘Brasília (Título Provisório)’, filme ganhador do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro de 2008, pelo júri popular. No local, revistas Rolling Stone, vinis, livros de fotografia, postêres de clássicos do cinema e objetos antigos, como uma saudosa jukebox dos anos 70, completam a ambientação.

Ivaldo é fotógrafo no Caderno Brasília do jornal mineiro Hoje em Dia, mas não vê a hora de se aposentar. “Faltam só três anos. Quando chegar a hora vou realizar todos os projetos que tenho em mente”, revela. E não são poucos. Apaixonado por Taguatinga, o fotógrafo pretende movimentar a cultura da cidade: “Quando a galeria abrir vou montar uma programação diferente a cada dia.” Seus planos incluem workshop de poesia, exposições fotográficas, mostras de filmes e oficinas, voltadas principalmente para os jovens. Entre eles estão os meninos de rua, personagens centrais do seu trabalho como fotojornalista.

Mas, enquanto a aposentadoria não chega, a galeria vai se caracterizando para receber seu público, tendo como patronos duas lendas do rock’n roll mundial: Jimi Hendrix e Jimmy Page, guitarrista do Led Zepellin. Ao fundo da galeria é estampada com orgulho a foto de Page segurando um dos livros de Ivaldo chamado Brasília, 25 anos de fotojornalismo. Hoje, o fotógrafo é membro da Action for Brazil’s Children, ong criada por Jimmy e sua esposa, Jimena Page.

Se tudo prosseguir como planejado, em março, todo o espaço da Galeria Olho de Águia estará aberto ao público. É bom ficar ligado, cada atração perdida por lá será motivo de arrependimento.

Ivaldo é cearense e mora em Taguatinga desde os 4 anos. Já ganhou vários prêmios internacionais e já teve seus trabalhos fotográficos expostos por galerias pelo mundo à fora, como Miami e Argentina.
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A tradição cultural maranhense e o Daime

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No início de 2011, guiada por uma corrente de encontros e sincronicidades, conheci a Ayahuasca. Meu primeiro contato com essa medicina sagrada da floresta veio em um trabalho espiritual da linha unificada (Mestre Francisco), que une o Santo Daime com algumas influências da União do Vegetal. Foi a partir daquele dia, registrado para sempre na memória da alma, que a minha caminhada para o despertar espiritual claramente se iniciou.

Dentro da doutrina do Daime, a imagem de um grande homem, negro, de chapéu, com um olhar simples e firme, me chamou a atenção desde o primeiro momento. Não levou muito tempo para descobrir que era Mestre Irineu. Mais que uma imagem, ele é uma presença real para quem comunga o Santo Daime e para mim trouxe ensinos enraizados, que sempre fortalecem os “balanços” da vida. Como diz o hino: “Mestre Irineu comanda do astral, a força e a luz presentes no vegetal”.

Nosso Mestre Império Juramidan, Raimundo Irineu Serra, nasceu no Maranhão, ainda na época em que o Brasil se libertava da escravidão. Bem jovem se mudou para o Acre na missão de muitos negros e nordestinos da época: trabalhar nos seringais. Em plena Floresta Amazônica, Mestre Irineu conheceu povos nativos e teve contato com a Ayahuasca. Ali mesmo, no coração daquela grande mata, recebeu a missão espiritual de expandir o uso dessa bebida sagrada, mais tarde ressignificada e batizada de Santo Daime. Sua passagem para “outro mundo” foi em 6 de julho de 1971.

Ilustração: Tiago Botelho

Ilustração: Tiago Botelho

Certo dia, quando assistia uma apresentação de bumba-meu boi, percebi algumas semelhanças dessa manifestação cultural, presente no Maranhão, com o ritual de hinário que fazemos no Daime. Vi semelhanças tanto na dança quanto na música e na presença de alguns instrumentos, como o maracá. Curiosa, fui procurar informações e achei algumas pesquisas sobre a influência cultural de matrizes maranhenses no culto do Santo Daime. O que é bem possível, já que Mestre Irineu era nascido em São Vicente Ferrer, na Baixada Maranhense.

Algumas referências que encontrei citam elementos do Daime, como cantos, vestimentas e entidades, similares aos encantados do Tambor de Mina, a rituais de pajelança, à Dança de São Gonçalo e a músicas da Festa do Divino, todas manifestações com forte presença no estado do Maranhão. No documentário Mestre Irineu, o Senhor da Floresta, familiares do Mestre afirmam que, quando jovem, ele tocava tambor grande, que é um dos elementos percussivos do Tambor de Crioula. “Aqui eu toco meu tambor e nas matas eu rufo caixa. Todo mundo vai atrás, procurando mas não acha”, diz Mestre Irineu no hino “Eu sou filho da terra“.

Vale ressaltar que o uso ritual da Ayahuasca é bem mais antigo que da época de Mestre Irineu. A bebida, feita a partir de duas plantas (folhas de chacrona ou rainha – Psychotria viridis – e o cipó jagube ou mariri – Banisteriopsis caapi), é usada não apenas por povos tradicionais da Amazônia brasileira, mas também do Peru, Equador, Colômbia e Bolívia. O assunto é longo, rende pesquisas profundas. A maioria das referências citam os pesquisadores Beatriz Caiuby Labate e Gustavo Pacheco. Aqui embaixo, alguns links e vídeos sobre o tema.

Poema que escrevi para o Mestre
<< alemdasparedes.wordpress.com/2014/05/24/raimundo/ >>


ALGUMAS REFERÊNCIAS

Um pouco da história de Mestre Irineu:
<< afamiliajuramidam.org/mestre_irineu.htm >>

Artigo As Matrizes Maranhenses do Santo Daime:
<< aguiadourada.com/pdf/matrizes.pdf >>

Artigo Aculturação no processo de ressignificação da ayauasca na religião Santo Daime e as influências políticas sobre o IPHAN
<< webartigos.com/artigos/aculturacao… >>

Música e ayahuasca em duas religiões brasileiras
<< www.scielo.br/scielo.php?pid=S0100-85872013000100010 >>

Homenagem aos 43 anos de passagem do Mestre

A história de Mestre Irineu em cordel

Mestre Irineu, o Senhor da Floresta – Parte 1

Mestre Irineu, o Senhor da Floresta – Parte 2

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Calçadas literárias

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Desde as minhas andanças juvenis do tempo em que eu matava aula, havia um livro no meio do caminho. E antes mesmo de eu andar por ali, as calçadas do Teatro da Praça de Taguatinga já serviam de prateleiras literárias.

(Por Key Dias, escrita em 05.09.11.
Fotos: Gabryelle Gadêlha
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Oito anos depois do primeiro exemplar vendido, cerca de 300 pessoas passam todos os dias pelo sebo de rua mais antigo e tradicional de Taguatinga (DF). Ao lado do Complexo Cultural Teatro da Praça, onde está a Biblioteca Pública Machado de Assis, o baiano José Everaldo da Silva abastece todos os dias uma kombi com parte das centenas de livros usados que possui. Por lá tem de tudo, da filosofia de Nietzsche a apostilas para concursos, de livros cabalísticos a didáticos, bestsellers adolescentes, quadrinhos, Machado de Assis, Cecília Meireles, Garcia Márquez, entre outros.

“O ditado diz que brasileiro não lê, mas eu contesto isso todo dia”, comenta Everaldo ao ressaltar a diversidade de pessoas que atende diariamente. Poucos minutos por perto é suficiente para comprovar que a rotatividade de compradores e curiosos não para, assim como os títulos que são trocados e vendidos, com preços a partir de R$ 1. “Tenho clientes antigos que vêm aqui toda semana ver as novidades. O ‘livro de rua’ atrai as pessoas muito mais que os de loja”.

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Ensinos que a capoeira traz: completa o movimento!

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A Capoeira Angola é mestra em si mesma. Ensina, desconstrói, reconstrói, firma. Às vezes severa, “é biriba”. Às vezes mãe, é poesia. Não raro, em treinos, rodas ou papoeiras, alguma frase ou gesto toca no ponto certo em algo dentro de mim. Parece que, naquele dia, a corrente mágica que circula pela arte da capoeira sabia o que eu precisava ouvir ou ver. É aquele famoso insigth, segundos de comunicação instantânea que só você, ali, sozinha no meio de tanta gente, compreende para além do jogo.

“Completa o movimento”! Três segundos de concentração, ligeiros flashs passando pela mente. Penso no jogo, no rabo de arraia. Penso na vida, nos ciclos finalizados, no que ainda há de se findar. Penso no balanço, no caminho. Penso no medo, na coragem, na confiança pra “completar o movimento” que a vida, impermanentemente, pede a nós. Penso no início do movimento. Penso que tô longe de casa, das minhas raízes. Sozinha? Não!! Oraieiê ô! Odoyá! Penso que é isso. É só seguir!

Sem título

Grafite: Denis Moreira

Assim como a Capoeira Angola – pergunta, resposta, mandinga – a vida não flui se o movimento ficar pela metade, incerto, incompreensível para os diálogos que virão para completar um ciclo, um jogo. Parece simples, não é? “Completa o movimento”! Na prática, nem sempre. Há muitos condicionamentos, daqueles que, desavisadamente, passam desapercebidos. Mas espia, a capoeira (e a vida) também pede PRESENÇA. E como em outro insigth que tive ao ouvir o professor do formigueiro onde aprendi o que é Angola: “Medo pra quê?” Movi-mente-se, mas, por favor, complete[-se]!!

Key Dias – 28.01.14