Crônicas de um útero #1: Quando dói

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Hoje sangrei de novo, como em todo mês. Mas sangrei com dor… Ainda não aprendi a liberar plenamente as memórias que carrego. Algumas são dos meus próprios tropeços de dias atrás, daquilo que não digeri pelo alimentar dos ‘seis sentidos’ do corpo em que habito. Outras são de vidas passadas ou dos ventres que me geraram na teia humana de existir.

Mãe, vós, bisas, tatas… Úteros que venceram muitas batalhas na vereda da re-existência feminina. Merecem reverência! Mas a dor, que ainda vem, traz histórias e inconsciências não curadas, pedindo constelações de coragem para desatar os nós que ainda restam e que não me pertencem se eu deixar ir. É essa a sina. Cada geração tem a sua responsabilidade. Que eu saiba honrar o caminho feito e embelezar minha posteridade que ainda não veio.

Ilustra: Meraki Labbe

Dizem que os seres humanos tem um só coração. Evidência comprovada cientificamente. Mas, às vezes, ou quase sempre, me sinto como um segundo coração da mulher que me carrega. Um coração que ensaia a vida todo o mês e que bate no pulsar da Lua e das ondas das águas femininas que sentem e nutrem o mundo com a sensibilidade da flor.

Sim! Sou mesmo um coração, um coração que carrega a memória do mundo! E foi a ciência que comprovou isso também. Quando uma bebê fêmea é fecundada, ela se desenvolve e nasce com os milhares de óvulos do seu pequeno ventre que irá madurar e que ficam bem ali, no meu irmão ovário.  Diferentemente dos homens, que geram seus espermas só depois de grandinhos, na puberdade. As fêmeas já nascem com a semente memorial da vida. E ainda duvidam da nossa [in]tuição…

É. A memória do útero é a memória do mundo. Quando minha mais antiga antepassada humana nasceu, já carregava no seu ventre os óvulos que geraram suas descendentes. De um deles eu vim, das sucessivas ovulações que deram continuidade à vida! E é assim na ancestralidade de todos nós. Como a mulher que me carrega falou certa vez, “mesmo que alguns se esqueçam, todos beberam do sangue do ventre de suas mães”.

Imagine, então, quanta coisa habita em nós, úteros! Há uma floresta descomunal de fertilidade mergulhada nesse vazio que é cheio de encantações. E, apesar da dor que vem para curar a alma que me encarna, tenho dado conta! Funciono muito bem e gero a força da Terra que aceitou, com humilde entrega e compaixão, acolher a humanidade.

Sou sim um coração de sensível força, renascente, antigo, intuitivo e preciso. E a dor, que ainda sinto, é apenas memória querendo transcender e provar a liberdade de ser flor.

— Key Dias – 03.07.17

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