Olhos Cerrados

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Mais uma da gaveta. Sobre a seca que assusta nosso Cerrado, sobre os corações secos que secam o molhado… Sobre a resiliência, desafio cotidiano dos cerratenses, sejam eles povo planta, povo bicho, povo gente.

Foto: Mariana Cabral. Sertão cerrado de Minas Gerais

Do olho d’água,
a esperança,
veredas que geram
buritis a crescer.
São olhos abertos,
na busca de ver,
o sertão cerratense
a sobreviver.

Dos olhos cerrados,
a ignorância,
criando o fim
do que fingem não ver.
A monocultura
da falta de ser,
pois preferem aquilo
que chamam de ter.

Será que o olho d’água
não chora de dor,
por ver tanta mata
que já se acabou?

Ou será que a esperança
é quem não vai findar?
Pois os olhos cerrados
também podem chorar.

Key Dias — Janeiro de 2017

Entrelinhamente

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Foto: Mariana Cabral. Sertão de Minas Gerais

Sou tão densa quanto a dor
e tão leve quanto o amor,
sou a entrelinha dos versos que pari.

E se o que sou se esconde de mim,
é farejando a palavra que me encontro
no silêncio que precede a poesia.

É a poesia nua feito o chão,
crua feita a água
e lua
feita a paixão que me seduz
para experimentar o gozo
da palavra vivida em verso.

A palavra me fez poeta
para psicografar as sutilezas
do que vivo no mundo.

Keyane Dias — Agosto/2017

Apuração

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Noite de transcendência no sertão de Minas Gerais – Foto: Paulo Morais

Repara!
Velhas convicções
despedaçaram-se
em um amplo renovo
que te aguarda a romper
a gaiola do medo.

É hora de despir o corpo original,
onde habita a alma intocada
que só você abraça
nas madrugadas em que a luz
descansa no teu sono.

Despidos e úmidos pelo sereno,
lágrima de amor ancestral
que regou a primeira flor,
avistamos nos saberes antigos
a renovação do velho padrão,
que não cabe em mais ninguém.

A valentia para abrir o peito,
apurar o olhar
e abraçar o irmão,
que segue esquecido
de que pode ser quem é,
é a urgência dos dias.

Keyane Dias — Setembro/2017

Alimento

O sabor da vida que pulsa vida
é temperado com doses de coragem
e punhados de entrega para nutrir
os que tem sede de plenitude.

Se o apego desencaminha o passo,
é de coração aberto que se movem
os que preparam um novo banquete.
A mesa será posta de liberdade.

Key Dias —  Setembro/2017

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Ilustração: Beatriz Aurora

Amadurecência

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Nasci querendo ser velha.
Desde menina admirava os cabelos brancos,
as linhas de expressão,
a quietude de quem transmutou-se
e sabe o que realmente importa.

Cansada do fulgor juvenil,
sonhava com as cadeiras de balanço,
o chá dos crepúsculos
e o olhar de quem aprendeu o afinamento
da sagrada relação com o tempo.

Mas é claro que tropecei.
Acaso não é o percorrer da juventude
a matéria-prima da sabedoria anciã?
Sem outro caminho de sentido,
aceitei ser jovem e não saber.

Foi então que a amadurecência chegou,
trazendo a poesia de minha criança
que anseia apenar ser o que é.
Aceitei viver com o pé no chão,
sem perder de vista as estrelas.

Não há inverno sem outono,
nem outono sem verão,
e eu, ainda primavera,
aprendi que a presença dos dias
é quem faz a beleza das idades.

Imagem: Gregory Colbert (Ashes and Snow)

 

Superfície

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Ilustra: Robyn Chance

De baixo do que penso
está o que sinto.
De baixo do que sinto
está o que sou.

E no fundo…
no fundo estão as sagradas miudezas,
cochichos sinceros
feito conchinhas que deságuam
nas bordas do mar.

Levei tão a sério
a vida que quer brincar.
Mas hoje a vejo na flor
que sublima do fundo
mostrando que é na superfície
o lugar de aflorar.

Key Dias — Agosto de 2017

Ruderal

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Ilustración: Cristina Yépez

Entre ruas de concreto,
que vedam a terra,
e lâmpadas de ilusão,
que encobrem as estrelas,
renascem humanidades
e esperanças.
Nasce a flor,
na rachadura do que é vão,
e dança a vida,
gracejando a certeza
de que a natureza
não sucumbirá à cidade.

Pois a cidade,
ainda que cinza,
é feita de gente
que se transforma.
E a gente,
ainda que esquecida,
tem latente no âmago
a natureza profunda,
a renascença ruderal
de sermos humanos
e divinos.

Key Dias — Junho de 2017

Louvação (Martelo Agalopado)

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Percorrendo os caminhos da literatura de cordel, finalizo minha primeira escrita na métrica de um “martelo agalopado“. Sem perfeição, mas com coração! Salve a maestria daqueles e daquelas que fazem nosso legado literário brasileiro, fruto de misturas e reinvenções. Tradição viva que caminha com a gente!

Pintura: Isabel Bryna

Poetizo fazendo oratório
Vou abrindo os portais do coração
Sintonizo com a luz da Criação
E no manto da Mãe faço envoltório
O destino não é obrigatório
Busco a fé para o amadurecer
Consciência ativa pra escolher
Onde firmar a minha energia
Louvo a vida e a luz da poesia
Com elas aprendo a me conhecer

Nessa terra de chão tão abundante
Agradeço por ter prosperidade
E entender que a nossa liberdade
É dos ganhos o mais importante
Me atento agora e nesse instante
Para disso eu não me esquecer
Que a riqueza só gera bem-viver
Se houver paz, saúde e harmonia
Louvo a vida e a luz da poesia
Com elas aprendo a me conhecer

Senhor tempo pai velho da existência
Agradeço por ser minha morada
Nutrição dessa Divina jornada
Em lembrar o acesso à consciência
Para isso me amparo na ciência
De quem pisa na terra sem temer
Desapega, aprendendo como ter
A simplicidade como sua guia
Louvo a vida e a luz da poesia
Com elas aprendo a me conhecer

Perfeição não é coisa deste mundo
E os tropeços são nossa provação
Por isso faço a minha oração
Perdoando meu próprio submundo
Invocando o propósito profundo
E a missão de poder reconhecer
Os erros que fizeram eu crescer
E aprender paciente dia a dia
Louvo a vida e a luz da poesia
Com elas aprendo a me conhecer.

Keyane Dias — 28.07.2017

Sois estrelas

Quão tristes são os homens
que esqueceram
de ver as estrelas.
Pois tão grande,
quanto o céu que ignoram,
é o mundo interno
da sua natureza humana.

Míopes,
vagueiam penando
no desfoco da separação.
Olhando sem ver,
vivendo em ser,
desconfiando
do seu coração.

Quem não vê as estrelas
tão pouco verá
do universo que espelhas.

Key Dias — Junho de 2017

Pintura: Rob Gonsalves

À mão

Escrevo à mão,
ornada com linhas de histórias oraculares,
marcas de minha gênese que sonho todo dia
em recordar.

Escrevo à mão,
a mesma com a qual aprendi a me levantar
no tombo do primeiro passo.

Escrevo com a mão da filha, da mãe e da avó.
Escrevo com o intento daquelas que contaram
a quem contou à senhora que me contou
que ‘velho é o mundo’.

Keyane Dias — 20.11.2016

Ilustração: Juliana de Castro Tonalezzi