Superfície

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Ilustra: Robyn Chance

De baixo do que penso
está o que sinto.
De baixo do que sinto
está o que sou.

E no fundo…
no fundo estão as sagradas miudezas,
cochichos sinceros
feito conchinhas que deságuam
nas bordas do mar.

Levei tão a sério
a vida que quer brincar.
Mas hoje a vejo na flor
que sublima do fundo
mostrando que é na superfície
o lugar de aflorar.

Key Dias — Agosto de 2017

Ruderal

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Ilustración: Cristina Yépez

Entre ruas de concreto,
que vedam a terra,
e lâmpadas de ilusão,
que encobrem as estrelas,
renascem humanidades
e esperanças.
Nasce a flor,
na rachadura do que é vão,
e dança a vida,
gracejando a certeza
de que a natureza
não sucumbirá à cidade.

Pois a cidade,
ainda que cinza,
é feita de gente
que se transforma.
E a gente,
ainda que esquecida,
tem latente no âmago
a natureza profunda,
a renascença ruderal
de sermos humanos
e divinos.

Key Dias — Junho de 2017

Louvação (Martelo Agalopado)

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Percorrendo os caminhos da literatura de cordel, finalizo minha primeira escrita na métrica de um “martelo agalopado“. Sem perfeição, mas com coração! Salve a maestria daqueles e daquelas que fazem nosso legado literário brasileiro, fruto de misturas e reinvenções. Tradição viva que caminha com a gente!

Pintura: Isabel Bryna

Poetizo fazendo oratório
Vou abrindo os portais do coração
Sintonizo com a luz da Criação
E no manto da Mãe faço envoltório
O destino não é obrigatório
Busco a fé para o amadurecer
Consciência ativa pra escolher
Onde firmar a minha energia
Louvo a vida e a luz da poesia
Com elas aprendo a me conhecer

Nessa terra de chão tão abundante
Agradeço por ter prosperidade
E entender que a nossa liberdade
É dos ganhos o mais importante
Me atento agora e nesse instante
Para disso eu não me esquecer
Que a riqueza só gera bem-viver
Se houver paz, saúde e harmonia
Louvo a vida e a luz da poesia
Com elas aprendo a me conhecer

Senhor tempo pai velho da existência
Agradeço por ser minha morada
Nutrição dessa Divina jornada
Em lembrar o acesso à consciência
Para isso me amparo na ciência
De quem pisa na terra sem temer
Desapega, aprendendo como ter
A simplicidade como sua guia
Louvo a vida e a luz da poesia
Com elas aprendo a me conhecer

Perfeição não é coisa deste mundo
E os tropeços são nossa provação
Por isso faço a minha oração
Perdoando meu próprio submundo
Invocando o propósito profundo
E a missão de poder reconhecer
Os erros que fizeram eu crescer
E aprender paciente dia a dia
Louvo a vida e a luz da poesia
Com elas aprendo a me conhecer.

Keyane Dias — 28.07.2017

Sois estrelas

Quão tristes são os homens
que esqueceram
de ver as estrelas.
Pois tão grande,
quanto o céu que ignoram,
é o mundo interno
da sua natureza humana.

Míopes,
vagueiam penando
no desfoco da separação.
Olhando sem ver,
vivendo em ser,
desconfiando
do seu coração.

Quem não vê as estrelas
tão pouco verá
do universo que espelhas.

Key Dias — Junho de 2017

Pintura: Rob Gonsalves

À mão

Escrevo à mão,
ornada com linhas de histórias oraculares,
marcas de minha gênese que sonho todo dia
em recordar.

Escrevo à mão,
a mesma com a qual aprendi a me levantar
no tombo do primeiro passo.

Escrevo com a mão da filha, da mãe e da avó.
Escrevo com o intento daquelas que contaram
a quem contou à senhora que me contou
que ‘velho é o mundo’.

Keyane Dias — 20.11.2016

Ilustração: Juliana de Castro Tonalezzi

Crônicas de um útero #1: Quando dói

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Hoje sangrei de novo, como em todo mês. Mas sangrei com dor… Ainda não aprendi a liberar plenamente as memórias que carrego. Algumas são dos meus próprios tropeços de dias atrás, daquilo que não digeri pelo alimentar dos ‘seis sentidos’ do corpo em que habito. Outras são de vidas passadas ou dos ventres que me geraram na teia humana de existir.

Mãe, vós, bisas, tatas… Úteros que venceram muitas batalhas na vereda da re-existência feminina. Merecem reverência! Mas a dor, que ainda vem, traz histórias e inconsciências não curadas, pedindo constelações de coragem para desatar os nós que ainda restam e que não me pertencem se eu deixar ir. É essa a sina. Cada geração tem a sua responsabilidade. Que eu saiba honrar o caminho feito e embelezar minha posteridade que ainda não veio.

Ilustra: Meraki Labbe

Dizem que os seres humanos tem um só coração. Evidência comprovada cientificamente. Mas, às vezes, ou quase sempre, me sinto como um segundo coração da mulher que me carrega. Um coração que ensaia a vida todo o mês e que bate no pulsar da Lua e das ondas das águas femininas que sentem e nutrem o mundo com a sensibilidade da flor.

Sim! Sou mesmo um coração, um coração que carrega a memória do mundo! E foi a ciência que comprovou isso também. Quando uma bebê fêmea é fecundada, ela se desenvolve e nasce com os milhares de óvulos do seu pequeno ventre que irá madurar e que ficam bem ali, no meu irmão ovário.  Diferentemente dos homens, que geram seus espermas só depois de grandinhos, na puberdade. As fêmeas já nascem com a semente memorial da vida. E ainda duvidam da nossa [in]tuição…

É. A memória do útero é a memória do mundo. Quando minha mais antiga antepassada humana nasceu, já carregava no seu ventre os óvulos que geraram suas descendentes. De um deles eu vim, das sucessivas ovulações que deram continuidade à vida! E é assim na ancestralidade de todos nós. Como a mulher que me carrega falou certa vez, “mesmo que alguns se esqueçam, todos beberam do sangue do ventre de suas mães”.

Imagine, então, quanta coisa habita em nós, úteros! Há uma floresta descomunal de fertilidade mergulhada nesse vazio que é cheio de encantações. E, apesar da dor que vem para curar a alma que me encarna, tenho dado conta! Funciono muito bem e gero a força da Terra que aceitou, com humilde entrega e compaixão, acolher a humanidade.

Sou sim um coração de sensível força, renascente, antigo, intuitivo e preciso. E a dor, que ainda sinto, é apenas memória querendo transcender e provar a liberdade de ser flor.

— Key Dias – 03.07.17

Terrena

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Ilustração: Audra Auclair

No toque do tambor que alteia a Terra,
o Guardião celebra a vida e ri,
soprando luz de saber esquecido.

Elevar-se é o destino do caminho,
mas o limite do voo não são as estrelas.
É de lá que vinhemos.

O limite do voo
é o chão que acolhe o pouso
dos que ainda tem caminho pra fazer.

Elevada é a alma que apurou-se
no aterramento da liberdade,
pra voltar às estrelas com mais luz.

Key Dias — 11.06.2017

Ressonância

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Ilustração: autor(a) desconhecido

É sentença da vida
presenciar no tempo
o sOM antigo da criação.

O eco das vozes avós,
ressonância do sopro
que nutre a canção.

De todas as sinfonias
achei no silêncio
a perfeita expressão.

Pois longe de todo ruído
habita o sentido
da iluminação.

Camadas já descortinei
e quanto mais abro
mais tem pra curar.

Assim seja! E o que mais seria?
O som que dissona
há de se harmonizar.

Keyane Dias — 17.05.17