Terrena

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Ilustração: Audra Auclair

No toque do tambor que alteia a Terra,
o Guardião celebra a vida e ri,
soprando luz de saber esquecido.

Elevar-se é o destino do caminho,
mas o limite do voo não são as estrelas.
É de lá que vinhemos.

O limite do voo
é o chão que acolhe o pouso
dos que ainda tem caminho pra fazer.

Elevada é a alma que apurou-se
no aterramento da liberdade,
pra voltar às estrelas com mais luz.

Key Dias — 11.06.2017

Ressonância

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Ilustração: autor(a) desconhecido

É sentença da vida
presenciar no tempo
o sOM antigo da criação.

O eco das vozes avós,
ressonância do sopro
que nutre a canção.

De todas as sinfonias
achei no silêncio
a perfeita expressão.

Pois longe de todo ruído
habita o sentido
da iluminação.

Camadas já descortinei
e quanto mais abro
mais tem pra curar.

Assim seja! E o que mais seria?
O som que dissona
há de se harmonizar.

Keyane Dias — 17.05.17

Cordel Benzadeus!

Quando bem jovem, fui estudar Jornalismo, sem ainda entender o chamado de simplesmente escrever e poetizar o que percebo no mundo. No retorno aos saberes da terra e à elevada simplicidade das tradições, fui logo descobrindo que os cordelistas são os comunicadores primeiros do sertão e que poetas, pelo mundo afora, são a eterna voz caminhante na busca de sentido, “estrangeiros no mundo” contando histórias.

Depois de firmar os pés na poesia, chego ao inevitável, escrevo meu primeiro cordel. Neste folheto, trago o feminino de uma mulher nascida e vivente numa era de transição. Sem discurso de ódio ou separação, falo aqui de saberes que não sucumbiram à engenhosa opressão capitalista e machista que está caindo. Mundo velho se vai e as ciências da vida e da terra se refinam para o mundo não padecer.

Dedico e ofereço estes versos às minhas avós e avôs, raízes de sertões nordestinos da qual sou semente viva. Aos cordelistas e poetas populares. Às minhas ancestrais e às senhoras, senhores, mestras, yoguis e griôs com quem aprendo sobre Saúde e Vida pelo Brasil adentro e (um dia) pelo mundo afora.

Graças a Deus e com fé na guia!

*
A licença aqui vos peço
Pra esse cordel passar
Aos antigos versadores
A bença pra eu chegar
Sou mulher de poesia
E, com ela, todo dia
Escrevo pra assuntar

Aqui, trago memórias
Em versos de cantoria
Pra falar das guardiãs
Dos saberes de valia
Rezadeiras e parteiras
Benzedeiras e erveiras
Mulheres de valentia…

 

Poemia

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Da sagrada natureza,
surgem todas as canções.
Ou da alma de poeta,
que recria a vida
na métrica da palavra que avoa.

Canta, canta poeta!
E vai ao encontro dos teus.
Caminhantes, trovadores,
lua cheia e beija-flores,
o adeus dos teus amores.

Não esqueças de tua alma,
viajeira e indomada.
E repares que a tua dor
desfaz-se em verso na estrada.

Coragem!
Cada um tem seu fardo,
tem bagagem pra seguir.
Na tua senda tens a sina
de sentir o mundo em ti.

Não te cales!
Transmuta em palavra
o que não é teu.
Cada verso é a cura
que a Terra te deu.

Escuta!
Tens o silêncio do vento
e o mítico gorjeio dos pássaros.
Tens a canção das águas
no chão que acolhe teus passos.

É a solitude
a mãe da tua liberdade.
E é a liberdade
a mãe da tua aldeia.

Canta!

Key Dias — 30.03.17

Vazio

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Ilustração: Goddes Withing You

O vazio é a dádiva
dos que buscam o Céu,
traduzindo a Terra.

No vazio, gozam poetas
e transcendem sábios
nas cavernas da psiquê.

Como Lua Nova,
é o vazio o útero,
a taça de ouro onde abunda
todas as riquezas.

Por que temê-lo?
Nada o toca, nem o fere.
E ele a ninguém atinge
sem permissão.

É o vazio a terra prometida,
o pomar maduro,
a trilha de regresso
à origem de tudo.

Se quiseres conhecer a verdade,
ruma ao vazio.
Se quiseres renascer,
repouse nos seus campos mais distantes.

Além do tempo e espaço,
estará o vazio aberto ao nosso retorno,
no infinito próximo
que não sei descrever.

Só o vazio preenche
almas cheias de viver.

Key Dias — 22.03.17

E já dizia Leminski:

“Vazio agudo
ando meio
cheio de tudo.”

Gene

Nós somos filhas e filhos do fio ancestral que não cessa de parir.
Nós somos a lua da velha que sangrou na terra e benzeu o mundo, somos os pés descalços do velho que contou histórias do tempo.
Nós somos os batuques que tocam pela eternidade, somos a viola e o verso que ecoa o om na voz do trovador.
Nós somos o cântico dos cânticos da floresta e o balanço sincero do colo das Yabás.
Nós somos o círculo das cirandas e a ladainha que ressoa ao som do berimbau.
Nós somos a erva que cura o corpo e clareia o espírito, somos o rodopio dançante da rede do pescador.
Nós somos a escala caminhante dos pífanos e o giro das saias nas rodas de umbigada.
No somos a bandeira do Divino e Santos Reis, somos a lança dos caboclos do maracatu.
Nós somos a linha crua da fiandeira e o eco do lamento do aboiador.
Nós somos a espera pela chuva da mãe sertaneja, somos a maraca e o cachimbo do índio na encantaria do ritual.
Nós somos o presente ancião que aqui respira até o último suspiro, somos o silêncio dos cantos que povoam o mundo.
Nós somos filhas e filhos do que herdamos, somos as avós e os avôs do que hoje criamos.

Key Dias — 07.01.16