Crônicas de um Útero #2: Quando ouço a Intuição

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Pior que o julgo dos que subjugam uma mulher é o nosso próprio esquecimento da Intuição. Esse sopro perene de nitidez é nossa mais antiga arte feminina. É a voz sábia da Mãe ancestral que jamais será silenciada, é o lampejo assombrosamente instintivo e divino que aponta os caminhos e alerta perigos.

Nesse ciclo lunar de setembro, sincronizado com o Equinócio de Primavera, Navaratri e Lua Nova, algumas camadas desconhecidas do feminino afloraram. Camadas de águas que me conduziram à floresta onde encontrei a mão dessa velha amiga. De dentro, veio a Intuição me contar sobre não esquecer que ela sempre está lá, naquele lugar onde toda mulher sabe onde é. Sussurrosa, veio me falar sobre coragem.

É inato feita a Lua que reflete o Sol. Nosso ventre tem espaço, e a força que nos faz in-tu-ir continuamente é a mesma que rege a dança da natureza cíclica feminina, numa alquimia perfeita entre o mundo interno e o externo. É como se olhássemos as respostas e as perguntas certas nos olhos da nossa velha alma.

Assim, percebi desajustes criados pela minha própria teimosia em não assumir o que a Intuição vem me dizer. Assim, percebi o quanto é preciso coragem para andar de mãos dadas com ela, pois essa aliança interna revela insigths que pedirão atitudes concretas e quebras de padrões que vão gerar rompimentos e desmoronar o que precisa ser renovado. Nem sempre será um caminho fácil, mas, na floresta interior, desafios são nutritivos.

A lucidez intuitiva é espada e escudo, quando é preciso lutar. É semente e flor, quando é preciso plantar. É colo e palavra sã, quando é preciso compreender e auxiliar. Assumir a responsabilidade em ouvir e agir com a Intuição é nosso passo primeiro de coragem para um feminino maduro, para um caminhar com propósito. É assumir a si mesma, tendo a força de relacionar-se com o outro e com o mundo com instintiva integridade. É romper com o medo de não ser aceita por ser quem se é e sentir o que sente.

Para muitos, lampejos intuitivos vão soar como alucinações exageradas, “dramas de mulher”. Deixe-os julgar. Por vezes, munida de Amor, a Intuição nos pedirá para abrir mão do que está fora do lugar, mesmo que isso balance relações, o ambiente onde vivemos ou as nossas próprias convicções. Mas é ela mesma quem no diz de dentro: “Coragem!” A Intuição provoca o amoroso desapego que traz a real união, pois é tão livre quanto o voo que nos possibilita dar.

Deixar-se in-tu-ir é dar um salto quântico de dentro para fora, reconhecendo que o percurso que nos trouxe até aqui amalgamou em nós mesmas as pistas do caminho a trilhar. Quando uma mulher decide escutar sua intuição, mais um véu das vãs ilusões é descortinado na trama do mundo.

Keyane Dias — 25 de setembro de 2017


Mora dentro de mim uma velha

Por mais que o acaso fértil do destino
Me presenteie com jeitos de moça
É a velha quem canta, dança, cozinha, observa

Os segredos que ela guarda
Minha moça tão pouco conhece
Só às vezes
Em con[tato]
As duas se tocam pelo olhar
Em um jardim oculto e visceral

Se bem me lembro
Chamam isso de intuição

A velha mora dentro
A velha mora fora
Ela sempre quer sair

Até parir a si mesma
Totalmente
No despontar dos meus cabelos brancos.

 

Entrelinhamente

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Foto: Mariana Cabral. Sertão de Minas Gerais

Sou tão densa quanto a dor
e tão leve quanto o amor,
sou a entrelinha dos versos que pari.

E se o que sou se esconde de mim,
é farejando a palavra que me encontro
no silêncio que precede a poesia.

É a poesia nua feito o chão,
crua feita a água
e lua
feita a paixão que me seduz
para experimentar o gozo
da palavra vivida em verso.

A palavra me fez poeta
para psicografar as sutilezas
do que vivo no mundo.

Keyane Dias — Agosto/2017

Apuração

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Noite de transcendência no sertão de Minas Gerais – Foto: Paulo Morais

Repara!
Velhas convicções
despedaçaram-se
em um amplo renovo
que te aguarda a romper
a gaiola do medo.

É hora de despir o corpo original,
onde habita a alma intocada
que só você abraça
nas madrugadas em que a luz
descansa no teu sono.

Despidos e úmidos pelo sereno,
lágrima de amor ancestral
que regou a primeira flor,
avistamos nos saberes antigos
a renovação do velho padrão,
que não cabe em mais ninguém.

A valentia para abrir o peito,
apurar o olhar
e abraçar o irmão,
que segue esquecido
de que pode ser quem é,
é a urgência dos dias.

Keyane Dias — Setembro/2017

Alimento

O sabor da vida que pulsa vida
é temperado com doses de coragem
e punhados de entrega para nutrir
os que tem sede de plenitude.

Se o apego desencaminha o passo,
é de coração aberto que se movem
os que preparam um novo banquete.
A mesa será posta de liberdade.

Key Dias —  Setembro/2017

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Ilustração: Beatriz Aurora

Amadurecência

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Nasci querendo ser velha.
Desde menina admirava os cabelos brancos,
as linhas de expressão,
a quietude de quem transmutou-se
e sabe o que realmente importa.

Cansada do fulgor juvenil,
sonhava com as cadeiras de balanço,
o chá dos crepúsculos
e o olhar de quem aprendeu o afinamento
da sagrada relação com o tempo.

Mas é claro que tropecei.
Acaso não é o percorrer da juventude
a matéria-prima da sabedoria anciã?
Sem outro caminho de sentido,
aceitei ser jovem e não saber.

Foi então que a amadurecência chegou,
trazendo a poesia de minha criança
que anseia apenar ser o que é.
Aceitei viver com o pé no chão,
sem perder de vista as estrelas.

Não há inverno sem outono,
nem outono sem verão,
e eu, ainda primavera,
aprendi que a presença dos dias
é quem faz a beleza das idades.

Imagem: Gregory Colbert (Ashes and Snow)

 

Superfície

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Ilustra: Robyn Chance

De baixo do que penso
está o que sinto.
De baixo do que sinto
está o que sou.

E no fundo…
no fundo estão as sagradas miudezas,
cochichos sinceros
feito conchinhas que deságuam
nas bordas do mar.

Levei tão a sério
a vida que quer brincar.
Mas hoje a vejo na flor
que sublima do fundo
mostrando que é na superfície
o lugar de aflorar.

Key Dias — Agosto de 2017

Ruderal

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Ilustración: Cristina Yépez

Entre ruas de concreto,
que vedam a terra,
e lâmpadas de ilusão,
que encobrem as estrelas,
renascem humanidades
e esperanças.
Nasce a flor,
na rachadura do que é vão,
e dança a vida,
gracejando a certeza
de que a natureza
não sucumbirá à cidade.

Pois a cidade,
ainda que cinza,
é feita de gente
que se transforma.
E a gente,
ainda que esquecida,
tem latente no âmago
a natureza profunda,
a renascença ruderal
de sermos humanos
e divinos.

Key Dias — Junho de 2017

Louvação (Martelo Agalopado)

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Percorrendo os caminhos da literatura de cordel, finalizo minha primeira escrita na métrica de um “martelo agalopado“. Sem perfeição, mas com coração! Salve a maestria daqueles e daquelas que fazem nosso legado literário brasileiro, fruto de misturas e reinvenções. Tradição viva que caminha com a gente!

Pintura: Isabel Bryna

Poetizo fazendo oratório
Vou abrindo os portais do coração
Sintonizo com a luz da Criação
E no manto da Mãe faço envoltório
O destino não é obrigatório
Busco a fé para o amadurecer
Consciência ativa pra escolher
Onde firmar a minha energia
Louvo a vida e a luz da poesia
Com elas aprendo a me conhecer

Nessa terra de chão tão abundante
Agradeço por ter prosperidade
E entender que a nossa liberdade
É dos ganhos o mais importante
Me atento agora e nesse instante
Para disso eu não me esquecer
Que a riqueza só gera bem-viver
Se houver paz, saúde e harmonia
Louvo a vida e a luz da poesia
Com elas aprendo a me conhecer

Senhor tempo pai velho da existência
Agradeço por ser minha morada
Nutrição dessa Divina jornada
Em lembrar o acesso à consciência
Para isso me amparo na ciência
De quem pisa na terra sem temer
Desapega, aprendendo como ter
A simplicidade como sua guia
Louvo a vida e a luz da poesia
Com elas aprendo a me conhecer

Perfeição não é coisa deste mundo
E os tropeços são nossa provação
Por isso faço a minha oração
Perdoando meu próprio submundo
Invocando o propósito profundo
E a missão de poder reconhecer
Os erros que fizeram eu crescer
E aprender paciente dia a dia
Louvo a vida e a luz da poesia
Com elas aprendo a me conhecer.

Keyane Dias — 28.07.2017

Sois estrelas

Quão tristes são os homens
que esqueceram
de ver as estrelas.
Pois tão grande,
quanto o céu que ignoram,
é o mundo interno
da sua natureza humana.

Míopes,
vagueiam penando
no desfoco da separação.
Olhando sem ver,
vivendo em ser,
desconfiando
do seu coração.

Quem não vê as estrelas
tão pouco verá
do universo que espelhas.

Key Dias — Junho de 2017

Pintura: Rob Gonsalves