Sois estrelas

Quão tristes são os homens
que esqueceram
de ver as estrelas.
Pois tão grande,
quanto o céu que ignoram,
é o mundo interno
da sua natureza humana.

Míopes,
vagueiam penando
no desfoco da separação.
Olhando sem ver,
vivendo em ser,
desconfiando
do seu coração.

Quem não vê as estrelas
tão pouco verá
do universo que espelhas.

Key Dias — Junho de 2017

Pintura: Rob Gonsalves

À mão

Escrevo à mão,
ornada com linhas de histórias oraculares,
marcas de minha gênese que sonho todo dia
em recordar.

Escrevo à mão,
a mesma com a qual aprendi a me levantar
no tombo do primeiro passo.

Escrevo com a mão da filha, da mãe e da avó.
Escrevo com o intento daquelas que contaram
a quem contou à senhora que me contou
que ‘velho é o mundo’.

Keyane Dias — 20.11.2016

Ilustração: Juliana de Castro Tonalezzi

Crônicas de um útero #1: Quando dói

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Hoje sangrei de novo, como em todo mês. Mas sangrei com dor… Ainda não aprendi a liberar plenamente as memórias que carrego. Algumas são dos meus próprios tropeços de dias atrás, daquilo que não digeri pelo alimentar dos ‘seis sentidos’ do corpo em que habito. Outras são de vidas passadas ou dos ventres que me geraram na teia humana de existir.

Mãe, vós, bisas, tatas… Úteros que venceram muitas batalhas na vereda da re-existência feminina. Merecem reverência! Mas a dor, que ainda vem, traz histórias e inconsciências não curadas, pedindo constelações de coragem para desatar os nós que ainda restam e que não me pertencem se eu deixar ir. É essa a sina. Cada geração tem a sua responsabilidade. Que eu saiba honrar o caminho feito e embelezar minha posteridade que ainda não veio.

Ilustra: Meraki Labbe

Dizem que os seres humanos tem um só coração. Evidência comprovada cientificamente. Mas, às vezes, ou quase sempre, me sinto como um segundo coração da mulher que me carrega. Um coração que ensaia a vida todo o mês e que bate no pulsar da Lua e das ondas das águas femininas que sentem e nutrem o mundo com a sensibilidade da flor.

Sim! Sou mesmo um coração, um coração que carrega a memória do mundo! E foi a ciência que comprovou isso também. Quando uma bebê fêmea é fecundada, ela se desenvolve e nasce com os milhares de óvulos do seu pequeno ventre que irá madurar e que ficam bem ali, no meu irmão ovário.  Diferentemente dos homens, que geram seus espermas só depois de grandinhos, na puberdade. As fêmeas já nascem com a semente memorial da vida. E ainda duvidam da nossa [in]tuição…

É. A memória do útero é a memória do mundo. Quando minha mais antiga antepassada humana nasceu, já carregava no seu ventre os óvulos que geraram suas descendentes. De um deles eu vim, das sucessivas ovulações que deram continuidade à vida! E é assim na ancestralidade de todos nós. Como a mulher que me carrega falou certa vez, “mesmo que alguns se esqueçam, todos beberam do sangue do ventre de suas mães”.

Imagine, então, quanta coisa habita em nós, úteros! Há uma floresta descomunal de fertilidade mergulhada nesse vazio que é cheio de encantações. E, apesar da dor que vem para curar a alma que me encarna, tenho dado conta! Funciono muito bem e gero a força da Terra que aceitou, com humilde entrega e compaixão, acolher a humanidade.

Sou sim um coração de sensível força, renascente, antigo, intuitivo e preciso. E a dor, que ainda sinto, é apenas memória querendo transcender e provar a liberdade de ser flor.

— Key Dias – 03.07.17

Terrena

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Ilustração: Audra Auclair

No toque do tambor que alteia a Terra,
o Guardião celebra a vida e ri,
soprando luz de saber esquecido.

Elevar-se é o destino do caminho,
mas o limite do voo não são as estrelas.
É de lá que vinhemos.

O limite do voo
é o chão que acolhe o pouso
dos que ainda tem caminho pra fazer.

Elevada é a alma que apurou-se
no aterramento da liberdade,
pra voltar às estrelas com mais luz.

Key Dias — 11.06.2017

Sou tarde

.
Ao amanhecer, desperto.
Ao anoitecer, descanso.
Entre o dia e a noite,
careço de entender as tardes,
a travessia das auroras,
o meio das horas.
Pois a origem e o fim são o que são,
mas o eterno presente,
o meio de tudo,
é somente aquilo que nós somos.

Careço de entender quem sou,
e por isso vivo.
São as tardes correntes das idades
o chão da revelação,
os dias que tem como fim um novo começo.
Se quero entender quem sou,
olho-me no espelho do tempo
que me diz no risco celeste das horas:
sou a tarde entre as minhas auroras.

Key Dias — 22.05.17

 

Gravura: Gilvan Samico

Ressonância

.

Ilustração: autor(a) desconhecido

É sentença da vida
presenciar no tempo
o sOM antigo da criação.

O eco das vozes avós,
ressonância do sopro
que nutre a canção.

De todas as sinfonias
achei no silêncio
a perfeita expressão.

Pois longe de todo ruído
habita o sentido
da iluminação.

Camadas já descortinei
e quanto mais abro
mais tem pra curar.

Assim seja! E o que mais seria?
O som que dissona
há de se harmonizar.

Keyane Dias — 17.05.17

Cordel Benzadeus!

Quando bem jovem, fui estudar Jornalismo, sem ainda entender o chamado de simplesmente escrever e poetizar o que percebo no mundo. No retorno aos saberes da terra e à elevada simplicidade das tradições, fui logo descobrindo que os cordelistas são os comunicadores primeiros do sertão e que poetas, pelo mundo afora, são a eterna voz caminhante na busca de sentido, “estrangeiros no mundo” contando histórias.

Depois de firmar os pés na poesia, chego ao inevitável, escrevo meu primeiro cordel. Neste folheto, trago o feminino de uma mulher nascida e vivente numa era de transição. Sem discurso de ódio ou separação, falo aqui de saberes que não sucumbiram à engenhosa opressão capitalista e machista que está caindo. Mundo velho se vai e as ciências da vida e da terra se refinam para o mundo não padecer.

Dedico e ofereço estes versos às minhas avós e avôs, raízes de sertões nordestinos da qual sou semente viva. Aos cordelistas e poetas populares. Às minhas ancestrais e às senhoras, senhores, mestras, yoguis e griôs com quem aprendo sobre Saúde e Vida pelo Brasil adentro e (um dia) pelo mundo afora.

Graças a Deus e com fé na guia!

*
A licença aqui vos peço
Pra esse cordel passar
Aos antigos versadores
A bença pra eu chegar
Sou mulher de poesia
E, com ela, todo dia
Escrevo pra assuntar

Aqui, trago memórias
Em versos de cantoria
Pra falar das guardiãs
Dos saberes de valia
Rezadeiras e parteiras
Benzedeiras e erveiras
Mulheres de valentia…